Larry Porter e o processo seletivo

Larry Porter chegou cansado em São Paulo, após uma viagem horrível. Dráuzio Malloy, o fanfarrão da casa Severina, passou o trajeto todo praticando magia negra no avião. Causou furacões que exigiram a perícia do piloto, invocou a fúria de um dragão que não teve velocidade para perseguir o avião por muito tempo e simulou uma trovoada para deixar os passageiros morrendo de medo, como se já não bastasse o fato de ter um dragão perseguindo-os. Além de tudo isso, Dráuzio contou inúmeras histórias de mau gosto sobre acidentes de aviões e poções nojentas que causaram náuseas até na tripulação.

Dráuzio era um mala completo e devia ter viajado no compartimento de bagagem, mas seu pistolão não permitiu isso. Seu pai, o Professor Malloy, ameaçou derrubar todos os aviões da companhia caso seu filho fosse incomodado na viagem. A Larry, restou aguardar e torcer pra que a viagem acabasse logo.

Quando chegou, já era manhã em São Paulo e, sem dormir, Larry Porter dirigiu-se até o escritório central do Cemitério da Consolação. Pegou dois ônibus e fez três baldeações no metrô até chegar lá. Seu dinheiro acabou. Só depois ficou sabendo da existência do bilhete único e naquele momento amaldiçoou a professora de Cultura Geral que lhe ensinou tudo sobre a Idade Média, mas muito pouco sobre a Idade Atual.

Ao entrar no escritório, Porter foi recepcionado por ninguém menos que a recepcionista.

– O senhor pode estar pegando a senha e se sentando, senhor.

– Obrigado.

Larry retirou sua senha. Número 234. A fila de espera era gigantesca. Dráuzio Malloy chegou logo em seguida, retirou o número 235 e, num passe de mágica, disse “picaretum furafila” e transformou-o em 2. Poderia ter transformado em 1, mas não quis dar tanta bandeira assim. Larry ficou bravo. Ameaçou reclamar, mas Dráuzio olhou pra ele com olhos fulminantes dizendo “picaretum cabaçus est” e o número de Larry virou 347. Ele resolveu não encrencar mais com o moleque. Pensou que poderia dormir bastante enquanto os outros 346 fossem atendidos.

O processo seletivo teve início. Em uma luxuosa poltrona instalada na frente da sala, havia um boné meia-boca. Um mago velho de roupas largas e verdes e cheiro de alfazema pediu silêncio e anunciou com pompa:

– Bem-vindos ao nosso departamento de RH. Esta é a Bombeta Seletora. Ela irá analisar o perfil de cada um de vocês e indicar qual a ocupação de cada um na empresa. Número 1, por favor.

E assim o primeiro moleque sentou-se na poltrona e vestiu a Bombeta Seletora, que pensou um pouco e disse: “Motoboy”. Dráuzio Malloy apresentou-se na sequência e transformou o verdadeiro número 2 em um sapo fedido quando ele ameaçou reclamar. “Hmmmm você é o filho do Professor Malloy, não é?” – disse a Bombeta. “Gerente Comercial Executivo”, decretou. Malloy saiu sorridente.

A coisa seguiu por horas a fio nesse esquema. “Motoboy”, “Estagiário de telemarketing”, “Estagiário de telemarketing”, “Motoboy”. Aparentemente não havia mais vagas para Gerentes na firma.

Finalmente chegou a vez de Larry Porter e ele gelou a espinha. Não queria ser Motoboy, era novo na cidade e não tinha veículo próprio. “Estagiário de telemarketing”, decretou a Bombeta rapidamente. “Ufa”, soltou Porter. A Bombeta perguntou:

– Ué. Não queria ser motoboy?

– Não senhor. Não tenho vassoura ainda.

– Cabaço. Motoboy é só modo de dizer. Usando o feitiço da anti-matéria, basta tocar com a varinha na encomenda que ela se materializa na frente do destinatário.

E então todos riram da cara de Larry Porter.

larrylogo

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