Larry Porter e a concorrência desleal

Larry não estava se sentindo bem. Sempre passava mal antes de entrevistas e processos seletivos. Era muito nervoso e ansioso, não sabia se sua roupa estava adequada, se ele ia gaguejar na entrevista… Era inseguro, apesar de ter se formado com honras em Bogwarts.

Por um momento lembrou-se do seu antigo emprego no telemarketing do Cemitério da Consolação, onde um bonecão de posto de gasolina ocupava seu lugar naquele momento. Dráuzio Malloy o mantinha ativo por meio do milenar feitiço da engabelação, que consistia nas palavras mágicas “zumbidefirma incompetentis picaretus”. O boneco vendeu 3 jazigos naquele dia, mais do que Larry Porter em toda sua carreira.

Os feitiços ditos em latim mussuniano, diga-se de passagem, devem sempre ser usados com a cabeça virada para a última estrela do pentágono astral místico, a oeste de Passárgada. Caso contrário, não passam de um Feitiço Placebo. Os feitiços placebos só servem pra assustar criancinhas e alegrar festinhas indies. Em todos os outros casos, não causa efeito nenhum e ainda costuma receber a crítica de se parecer muitíssimo com o Feitiço Rush, pelo menos no que se refere ao trabalho vocal.

Larry Porter deixou os devaneios pra lá, deu um tapa no cabelo, uma ajeitada em sua cueca com ilustrações do Mago Merlim, um gargarejo pra desopilar a garganta e bateu 3 vezes na porta do edifício. A porta se abriu e Larry foi recepcionado por uma moça pouco simpática que deveria ser a recepcionista.

– Pois não?

– Olá, eu sou Larry Porter.

– O senhor veio para a dinâmica de grupo?

Larry gelou. Odiava dinâmicas de grupo.

– Não sei. Eu recebi o cartão de um cobrador.

– O cartão rosa ou o azul?

– Espere, deixa eu ver.

Larry não tinha uma memória muito boa e não sabia que a cor do cartão era importante.

– É azul.

– Então é pra dinâmica de grupo mesmo. Segunda porta à esquerda, senhor. A porta azul.

– Obrigado.

Larry foi em direção à porta e não pôde deixar de notar que a primeira porta à esquerda era rosa e, lá dentro, alguns senhores bem à vontade, de roupão e chapéu de bruxo, tomavam whisky, fumavam charutos e jogavam sinuca emitindo sonoras, estridentes e contundentes gargalhadas enquanto usavam suas varinhas para levantar as saias de umas mocinhas bem desinibidas.

Mas a sua porta era a outra, a azul. E ali só havia gente triste com cara de quem já sofreu muito na vida, tremendo e desesperada por um emprego qualquer. Sem dúvidas, ali era o seu lugar. Larry se sentou e evitou contato visual com seus adversários ali ao lado, todos concorrentes na vaga de emprego. Mesmo evitando encará-los, Larry pôde constatar que todos eram mais inteligentes, mais preparados e mais bonitos do que ele. Começou a suar de nervoso. Lembrou-se das aulas de Relaxamento Sincopado Esotérico e passou a respirar no ritmo 6 por 8 shuffle suingado, muito adequado para momentos tensos como aquele.

Relaxado e mantendo a respiração naquele ritmo cadenciado, Larry Porter começou a recordar como fora sua primeira experiência em dinâmicas de grupo, quando ainda estava em Bogwarts e procurava um estágio na área do Bruxedo.

Resumindo, foi um fiasco. Larry gaguejou, suou, escorregou, babou, flatulou e realizou com louvor todos os outros itens da cartilha “o que não fazer em uma dinâmica de grupo”. No final, perdeu a vaga para um gordinho chupetão fedido chamado Sherman O’Hallahan. Larry jamais se esqueceria daquele nome. E daquele cheiro. Além de não ser bruxo, Sherman também gaguejou, suou, escorregou e etc., mas ganhou a vaga por pura e simples influência de seu pai, sócio do pai de Dráuzio Malloy na Malloy & O’Hallahan Pistolões. Ao final da dinâmica, Sherman chegou no ouvido de Larry Porter e cochichou:

– Eu sou o herói predestinado desta história, Porter. Você é apenas um daqueles coadjuvantes que vão me aplaudir no final e, se der sorte, até me carregar nos ombros.

Após este flashback terrível, Larry voltou ao presente com a certeza de que nada seria pior do que aquilo. Ficou mais confiante do que nunca. Porém, sua alegria durou pouco, como sempre. Porque quando olhou para frente, Larry notou que Sherman O’Hallahan era um dos candidatos à vaga.

larrylogo

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