In Rainbows, Radiohead

“Se a melhor banda do mundo não quer uma parte de nós, eu não sei o que restou para esse negócio.”

A frase acima, de um executivo de uma grande gravadora européia para a revista Time, resume o que fez o Radiohead no lançamento de “In Rainbows”. Ao se desligar completamente das gravadoras e disponibilizar o disco para download em seu próprio site, no esquema “pague quanto quiser”, a banda atingiu alguns objetivos básicos de um lançamento deste porte: a) evitou o tradicional vazamento prévio do disco na web; b) fez com que, pela primeira vez na história, todos tivessem acesso ao novo material ao mesmo tempo, sejam eles programadores de rádios, críticos da Pitchfork, clientes do iTunes ou você aí, sentado na frente do computador; c) monopolizou o falatório sobre música nos últimos dias; d) fez o ouvinte parar pra pensar no valor de uma obra artística; e) reascendeu o debate sobre os novos rumos da indústria fonográfica, jogando a pá de cal no antigo modelo – como fica comprovado pela frase desiludida do executivo acima.

A nova era da música digital tem vários marcos significativos, alguns negativos (Metallica processando o Napster), outros positivos (U2 botando seu nome no iPod), mas a atitude do Radiohead deve ser o grande divisor de águas do tema. A idéia colocou o público em contato imediato com a banda. Não há nenhum executivo intermediando a transação. É o Thom Yorke na sua cara perguntando “quer pagar quanto?”, como o cara das Casas Bahia. Vi muita gente se cadastrando e pagando 1 libra só pra fazer parte deste momento histórico.

O impacto do dia de ontem (10 de outubro de 2007, anote aí) ainda será sentido e contabilizado nos próximos meses. Bandas como Oasis e Jamiroquai disseram que vão copiar a idéia. O pessoal das gravadoras já deve estar enviando currículos pra outras áreas. E o executivo continua: “Se você pode pagar o quanto quiser pela música da melhor banda do mundo, por que pagaria 13 dólares ou 99 centavos pela música de alguém menos talentoso? Uma vez que você tenha aberto esta porta e começado a dar músicas legalmente, não sei se há como voltar atrás”.

O Radiohead abriu um precedente, agora é esperar pra ver no que vai dar. Sei que já tem gente reclamando da qualidade do áudio (160 kbps, mais que os tradicionais 128 do iTunes, mas menos que os 192 dos heavy users de mp3, sempre mais exigentes). Porque tem gente que sempre vai achar um motivo pra reclamar de alguma coisa nessa vida.

Com tanta conversa sobre a distribuição, porém, pouco se falou sobre o novo disco do Radiohead, dez anos depois de “Ok Computer”, quatro anos depois do último lançamento, “Hail to the Thief”. O fato é que “In Rainbows” nem precisava ser bom pra causar tanto oba-oba, mas ele é. E melhora a cada audição.

Suas 10 econômicas faixas são melhor aproveitadas do que o disco anterior, que soava cansativo às vezes. “In Rainbows” expande o universo que a banda ocupou em “Hail”, mas é compacto e coerente como “Computer”. Como era de se esperar, a fase “The Bends” não voltará mais (já virou lenda urbana, igual a vinda da banda ao Brasil), porém o disco novo é muito mais acessível que a fase experimental de “Kid A”.

E o melhor: parece que o amor voltou ao Radiohead. Ou pelo menos o sofrimento causado por ele. Há algum tempo que as letras de Thom Yorke não eram mais tão claras e decifráveis, mas em “In Rainbows” uma música de letra simples e direta como “All I Need” soa como uma “Creep” pós-“Kid A”: I am a moth who just wants to share your light/ I’m just an insect trying to get out of the night / I only stick with you because there are no others. Em “House of Cards”, a mensagem também é direta: I don’t want to be your friend / I just want to be your lover / No matter how it ends / No matter how it starts. São músicas que você pode tirar no violão e tocar sozinho no quarto, algo impensável para os três últimos discos do Radiohead.

Como não sou dos maiores fãs dos experimentalismos da banda e sinto certa saudade da perfeição pop dos primeiros discos, considero “In Rainbows” o disco mais equilibrado do Radiohead desde “Ok Computer”. Esqueça as comparações com o rock progressivo, não só porque o Radiohead faz músicas com menos de 5 minutos, mas principalmente porque o jazz e a música eletrônica são comparações muito mais próximas. Ouça prestando atenção à bateria de Phil Selway no meio de todos aqueles efeitos e tire sua opinião. Depois ouça de novo prestando atenção a cada instrumento isoladamente.

“15 Step” abre o disco com estranheza, mas aos poucos vai se tornando familiar, principalmente quando entra a guitarra de Jonny Greenwood. O verso inicial, How come I end up where I started, dá a dica. Em “Bodysnatchers”, a mais roqueira do disco, Thom Yorke reclama do século 21 e diz que está preso ao seu próprio corpo. O nome é uma referência ao clássico “Os Invasores de Corpos”, clássico da ficção científica. “Nude” é a bela versão final de uma “unreleased track” já bem conhecida dos fãs como “Big Ideas (Don’t Get Any)”. “Weird Fishes/Arpeggi” lembra as últimas músicas do “Pablo Honey”, onde o Radiohead não escondia suas influências alternativas como o Sonic Youth, só que aqui a roupagem eletrônica disfarça melhor.

Em “Faust Arp”, o disfarce é deixado de lado. É praticamente uma balada acústica, com arranjo de cordas de gelar a espinha. Emenda com “Reckoner”, uma canção pra se ouvir muito alto, com as luzes apagadas, prestando atenção em suas diversas camadas. Não será surpresa se ela se tornar a minha preferida do disco, depois que eu conseguir navegar por todas as suas ondas. Ela disputa a vaga com a acelerada “Jigsaw Falling Into Place”, também pop, também com uma letra direta. São os potes de ouro além do arco-íris.

Em “Videotape”, a bateria de Selway martela em cima do piano de Greenwood. O som denso e melancólico lembra “True Love Waits” e “Exit Music”, uma bela maneira de se encerrar um disco. Enquanto isso, Thom Yorke canta: This is my way of saying goodbye / Because I can’t do it face to face / I’m talking to you after it’s too late / From my videotape. Se essa não é a estrofe mais bonita do ano, não sei qualé. E se o Thom Yorke desse um tiro na cabeça e ocupasse a vaga de Kurt Cobain no posto de ícone da geração, o último verso No matter what happens now / You shouldn’t be afraid / Because I know today has been the most perfect day I’ve ever seen. seria o seu réquiem.

Abstraindo toda a revolução que o seu lançamento causará (ou não) na indústria, “In Rainbows” é, além de tudo, um grande disco. Talvez não seja uma obra-prima como “Ok Computer”, nem inovador como “Kid A”, mas mantém o espírito de evolução do Radiohead e seu status de “melhor banda do mundo em atividade”. Não é pouca coisa. E não se preocupe com todo esse hype. De todas as bandas hypadas, revolucionárias e salvadoras do rock do mundo, o Radiohead deve ser a única que faz todos os adjetivos terem algum sentido.

14 comentários em “In Rainbows, Radiohead

  1. Muito boa a resenha.Gostei muito do In Rainbows. Só esperava algo diferente, já que sou fã assumido do experimentalismo deles, principalmente no amnesiac, talvez o disco mais sombrio do Radiohead.Mas esse álbum tá me ganhando a cada audição. Infelizmente não é melhor que os outros, como eu esperava fosse ser, mas pode ser tão bom quanto. Veio pra acrescentar.

    Curtir

  2. Ah vai, eu não ia, mas vou comentar: – Esse negócio de melhor banda do mundo tem de parar. A Time deveria ser experiente o bastante para saber que isso não é mensurável. – Doho, finalmente concordo com você. Não adianta os caras quererem fazer uma melodia mais acessível enquanto o vocalista ainda gostar de ser visto como perturbado. Melhor voltar ao Kid A, no qual, ao menos, havia uma unidade (acho bem bom esse cd). – Eles já estão começando a fazer plágio deles mesmos (como acontece com a maioria das bandas da década de 90). Mas \”All I Need\”, essa sim, faz o cd ter sentido. A música é bonita demais. Parabéns para ela.

    Curtir

  3. All I Need também é a melhor, pra mim. E KID A é meu disco preferido do Radiohead. Gostei bem mais do disco solo do Thom Yorke do que esse In Rainbows, pelos mesmos motivos que o Andrei aí em cima apontou.

    Curtir

  4. Não foi a Time que mensurou, foi um executivo de gravadora que quis enfatizar a importância do ato. Ninguém está rankiando as bandas do mundo (embora eu ache que ele tenha acertado).Achei o solo do Thom Yorke muito sem graça.

    Curtir

  5. Mas o mais legal disso tudo é que depois do Radiohead, a banda que quiser pagar de loucona e dar um chute na gravadora, mas botar um PREÇO FIXO em seu disco, vai continuar soando velha.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s