O Curioso Caso de Benjamin Button

Baseado em um conto de F. Scott Fitzgerald, “O Curioso Caso de Benjamin Button” surgiu com uma premissa interessante: a história de um homem que nasce velho e vai rejuvenescendo com o passar do tempo. Uma boa sinopse, valorizada pela escolha do cineasta David Fincher na direção – uma garantia de criatividade e ousadia ao filme. Algumas imagens bizarras divulgadas ajudaram a aumentar a expectativa. Porém, quem viu o trailer já começou a desconfiar. Parece que a coisa não é tão bizarra assim. Opa, peraí, é um romance?

Se o trailer já entregava uma reconstituição de época estilizada e uma porção de “aventuras” do herói que lembrava demais o “Peixe Grande” de Tim Burton, o fato de o filme todo ser narrado por uma filha (Julia Ormond) no leito de morte da mãe só aumenta ainda mais a semelhança. A única diferença é que, em “Peixe Grande”, eram pai e filho, e quem narrava era o pai. Mas até a dinâmica do filho ausente querendo conhecer a vida do pai à beira da morte é a mesma. Que fique registrado que a Cate Blanchett moribunda não chega aos pés do Albert Finney de “Peixe Grande”.

“Benjamin Button” não tem figuras bizarras de circo, mas tem Brad Pitt no papel principal, emprestando sua cara e sua voz a todas as “idades” do personagem. Não dá pra saber o que é maquiagem, o que é CGI e o que é captura de performance, mas os efeitos causam estranheza e despertam uma curiosidade mórbida, como parar na estrada pra ver um acidente. O tempo todo você espera pra ver como estará o personagem, fisicamente, após as passagens de tempo.

Cate Blanchett é o amor de sua vida, aquela que transita por entre as várias fases de sua existência e carrega o fardo de ter um envelhecimento normal, enquanto seu amado vai ficando cada vez mais jovem. Assim, Daisy acaba sendo a melhor personagem do filme, enquanto Benjamin apenas “passa pela vida” sem nunca conseguir amadurecer de fato. O que seria uma criança com toda a experiência de uma vida no olhar? O filme não mostra. Isso porque ele não explora o suficiente a questão “jovem no corpo de velho” e “velho no corpo de jovem”, preferindo focar no romance e nessa verdadeira gangorra temporal que separa o casal. O filme tem lá sua força explorando essa relação, mas fica a impressão de que a “condição” do personagem poderia render mais do que todas as aventuras e personagens secundários que aparecem pelo caminho.

Não ajuda o roteiro abandonar metáforas e simbolismos óbvios, porém bonitos (como o relógio que anda pra trás) e abraçar lições sobre a vida e a mortalidade que parecem saídas de algum especial de fim de ano da Globo. Durante pelo menos dois momentos, discursos no nível “filtro solar” dão as caras. Além disso, temos nada menos do que duas revelações bem novelescas sobre paternidades secretas e uma cena bem “Magnólia” sobre as fatalidades da vida, totalmente deslocada na narrativa. E não são poucas as vezes em que Benjamin é tratado como um highlander, que vê todos morrendo ao seu redor como se ele próprio fosse imortal.

Grande parte do filme fica na fase “Benjamin galã”, apelando pro Brad Pitt sem camisa e pagando de gatinho como não fazia desde “Lendas da Paixão” e “Encontro Marcado” – uma fase que todos achavam já ter ficado para trás. Se o astro está apostando no Oscar, eu digo que ele já perdeu pro Sean Penn ou pro Mickey Rourke.

David Fincher continua sendo um grande diretor, mas ele não tem a sensibilidade de Steven Spielberg, Robert Zemeckis e Tim Burton para comandar um projeto desses. Os produtores Frank Marshall e Kathleen Kennedy são antigos colaboradores de Spielberg, o roteirista Eric Roth é o mesmo de “Forrest Gump”, ou seja, todos os elementos estão lá. Mas Fincher está deslocado. Ele é um cineasta do mundo cruel de “Seven”, do mundo sujo de “Clube da Luta”, enquanto “Benjamin Button” infelizmente parece aqueles filmes tecnicamente perfeitinhos feitos para ganhar Oscar.

O que sobra é um romance impossível pouco cativante, um punhado de belas cenas, a parte técnica impecável, algumas boas reflexões sobre a inevitabilidade do envelhecimento e da morte e a certeza de que “Peixe Grande” foi muito melhor.

6 comentários em “O Curioso Caso de Benjamin Button

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