Futebol, uma lição de vida

A humanidade costuma reclamar da idade com que temos que escolher nossa profissão. Normalmente é entre os 16 e os 20 anos, quando não sabemos nada sobre a vida, muito menos sobre nossas aptidões, nosso futuro e como vamos nos encaixar no mercado de trabalho. Porém, carreiras, empregos e profissões vão e vêm. Ninguém reclama da idade com que temos que fazer uma escolha muito mais importante para nossas vidas: o time de futebol.

Normalmente é na infância. Normalmente é diretamente influenciado pelo pai, tio, avô, irmão mais velho. Normalmente ninguém muda ao longo da vida. Se muda, perde a credibilidade e é completamente eliminado de toda e qualquer discussão futebolística até o fim da vida. Eu só conheço uma pessoa que mudou de time depois de velha, e eu nem falo mais de futebol com ela. Automaticamente desclassificada. Morte súbita.

É uma das leis sagradas do universo: você escolhe seu time na infância e vai permanecer com ele na alegria e na tristeza até morrer. E ninguém reclama disso. Nunca vi ninguém xingando o pai pela escolha, culpando o pai por sua vida infeliz. As pessoas culpam os pais pela má educação, pelo abandono, por um monte de outras coisas. Mas ninguém culpa o pai pelo time. Isso não. Jamais. Você pode brigar com seu pai, sair de casa, fugir, mudar o sobrenome no RG, mas o time vai continuar lá. Ele já faz parte de você.

Imagine se fosse assim em todas as outras esferas menos importantes da vida. Imagine seu pai escolhendo sua profissão, sua esposa, sua cidade, seu corte de cabelo, seu gosto musical, seus cinco filmes preferidos, tudo enquanto você ainda é uma criança. E você nunca poderia mudar. A vida seria bem mais fácil. Foda-se a liberdade de escolha, esse conceito ocidental capitalista que só faz a gente dar cabeçada. Meu pai escolheu o time certo pra mim, por que ele erraria em tudo mais? Um pai sempre sabe o que é melhor para o filho.

Talvez a graça seja essa. Seu pai escolhe o seu time, o resto depende de você. É um fato: mesmo que seu time seja o mais vitorioso de todos (ou seja, o São Paulo), você vai perder mais do que ganhar. Títulos, pelo menos. Tivemos que jogar 37 campeonatos brasileiros pra ganhar “apenas” 6. Quer dizer que torcer para um time de futebol é aprender a conviver com a derrota. Você não vai ganhar sempre. Todo ano, por melhor que seja, você vai ser eliminado de alguns campeonatos. Sim, você vai sofrer. A ideia é essa. E apesar do monopólio ideológico, não é só corintiano que sofre.

É essa a lição que você aprende com o futebol desde cedo. Com isso em mente, você é capaz de lidar com dificuldades no trabalho, desilusões amorosas, gente louca e mau caráter, problemas de saúde e tudo mais. Como diz um amigo meu que entende do assunto, na vida você já sai perdendo. Tá um a zero pros caras, então vai pra cima deles, porra.

E tem gente que ainda acha que futebol é só onze contra onze e bola na rede. “Vocês não entendem nada de futebol”, diria Muricy Ramalho.

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