O final de Lost

Já devo ter falado sobre isso por aqui, mas vou aproveitar a audiência rotativa da internet e o assunto do momento para, oportunamente, falar de novo. Afinal, fã de Lost que é fã de Lost não se incomoda em ser vítima de engodo. Faz parte do seu show.

Antes de começar minha campanha difamatória anti-Lost que, confesso, tem o único intuito de irritar os fãs que levam (levavam?) aquilo a sério, eu cheguei a acompanhar a boiada e me interessar bastante pela série. Como não tenho TV a cabo e na época nem tinha banda larga em casa, cheguei ao cúmulo de descer na sala de ginástica do prédio nos horários certos pra assistir enquanto fazia esteira. Ou seja, já até passei vergonha pra ver “Lost”.

A primeira temporada foi aquela febre. Primeira vez que ouvi falar em torrent na vida. As pessoas baixavam o DivX e nem existiam muitos aparelhos com leitor de DivX por aí. Não ver “Lost” era como não colecionar o álbum de figurinhas da Copa.

Então veio a segunda temporada. Logo no começo dela, me irritou um episódio que mudava o caráter da personagem Kate a cada 10 minutos, conforme a conveniência do roteiro. Comecei a reparar que aquilo era comum na série: com o recurso dos flashbacks, qualquer coisa era justificada. Mas o que me fez bodear de vez foi a atitude de Locke, que aparentava ser o único personagem lúcido da ilha, dentro da tal escotilha. Não lembro direito da história, mas era mais ou menos isso: ele não queria digitar os números ao final da contagem regressiva, pra ver o que ia acontecer. Pra ver o circo pegar fogo. No final do episódio, ele desiste dessa postura audaciosa e digita o maldito código.

Foi então que tive uma epifania nerd e percebi que “Lost” não sairia daquilo. Ficaria derrapando sobre mistérios indecifráveis de novo e de novo e de novo, mudando a personalidade dos personagens conforme fosse necessário. Achei que aquilo não merecia meu sacrifício e abandonei.

O fato de J.J. Abrams ter usado a mesma maracutaia narrativa em “Missão: Impossível 3” (o tempo todo não era a mulher do Tom Cruise ameaçada pelo vilão) confirmou a minha tese. O fato de terem adicionado viagens no tempo e realidades paralelas à trama confirmou ainda mais. Assim, tudo era possível. “Lost” apelou e eu perdi a fé na equipe.

Pule alguns anos e voltamos ao presente, “Lost” acabou e, pelo que andei lendo, não respondeu todas as perguntas. Nem tinha como. Também não agradou a todos. Nem tinha como. Tentei ler o que houve no último episódio, mas é impossível entender as tais realidades paralelas e as complexas relações entre os personagens sem ter assistido a tudo. Ponto pros roteiristas: apesar de todas as gambiarras, a trama permanece assunto da panelinha que acompanhou. Ao pessoal de fora não é permitido dar palpite.

Durante esses anos vi muita gente abandonando o navio. Alguns bravos guerreiros chegaram até o fim, e tiro meu chapeu pra eles. Eu respeito paixões nerds. Eu tenho até uma certa inveja, porque eu sou do tipo que abraça paixões nerds como se não houvesse amanhã. Eu demorei pra admitir que “Arquivo X” já tinha acabado quando o Mulder se tornou uma mera participação especial na série. Eu levei anos reunindo coragem pra ver o último episódio, com medo de me decepcionar.

Como eu tenho certo conhecimento deste mundo, sei também que faz parte do “ser fã” se esforçar para acreditar. O próprio Mulder tinha um cartaz escrito “eu quero acreditar” no escritório. Sabe, ele adoraria “Lost”. E nessa de se esforçar pra manter a chama da paixão acesa, o fã tem dificuldades em ver a verdade. Afinal, ninguém vai querer jogar 6 anos de relacionamento fora e admitir que foi tudo perda de tempo.

Se você fez isso, se você assistiu às 6 temporadas e se decepcionou com o final e acha que perdeu tempo, você é uma vergonha e uma desgraça pra categoria nerd no mundo. Não tentar acreditar que foi bom é uma traição, uma auto-sabotagem. É quase tão grave quanto mudar de time de futebol. Se mata. Afinal, você abraçou a causa. O mínimo que se espera de alguém como você é que mantenha a atitude até o final. Não faça como o Locke, que desistiu no fim do episódio.

Por outro lado, andei lendo fãs hardcore defendendo o final de “Lost” com aquele velho argumento “você que não entendeu”. Não me atinge, porque eu nunca tentei entender. Lembre-se, eu desisti de entender lá no começo da segunda temporada. Mesmo que o mundo todo se reunisse em um forum global e decretasse que o final de “Lost” foi a maior obra-prima da história da humanidade, ainda assim eu não teria nenhuma vontade de retomar de onde parei.

Tem gente indo além, defendendo uma revisão de toda a série – o que são 6 temporadas pra quem não tem nada pra fazer, não é mesmo? – e dizem que o que vale é a jornada, não o destino. Eterna desculpa para desfechos ruins, mas um argumento válido. Pelo menos esse fã está tentando se enganar e justificar os 6 anos perdidos. Ele não se entregou. Odeio gente que se entrega fácil.

Veja, o que me incomoda mesmo não é o amor dedicado a “Lost” e os argumentos de defesa. Isso eu acho bonito. Tem gente que se pinta de azul e vai copular com árvores, tem gente que se autodenomina de Família Restart, tem gente que acha que o Corinthians vai ganhar alguma coisa no ano do centenário, enfim… tem louco pra tudo nessa vida. Cada um sabe o que fazer com o tempo que lhe é dado, como nos ensinou Gandalf – porque eu dediquei muitas horas da minha vida vendo “O Senhor dos Anéis”. Muitas.

O que me incomoda é o pessoal que nasceu depois de “Twin Peaks” achar que “Lost” revolucionou alguma coisa. De novo, não é culpa da idade. Essa geração tem muito mais informação disponível do que a minha. E mesmo sem internet, quando eu ficava em casa na sexta à noite pra ver “Arquivo X” na Record eu sabia que, antes de Mulder e Scully correrem atrás de ETs por aí, o mundo viu coisas como “Além da Imaginação”, “Jornada nas Estrelas” e o próprio “Twin Peaks”.

Se “Lost” foi bom ou ruim, eu não sei. Sei que a série não inventou os flashbacks, as realidades paralelas, o mistério sobrenatural, o surrealismo, o hype nerd extremo e, principalmente, “Lost” não inventou a roda.

Sei também que, assim que o box com a primeira temporada estiver R$ 29,90 nas Americanas, “Lost” terá encontrado seu lugar entre as séries nerds de antigamente, repousando ao lado de meu querido “Arquivo X” no limbo do esquecimento. Esse é o verdadeiro final de “Lost”, crianças.

9 comentários em “O final de Lost

  1. Grande texto, outro clássico do blog.Passei por isso vendo o final de Alias. A última temporada sofreu com intervenções da emissora na trama do seriado e ainda foi encurtada em uns 4 ou 5 episódios.O último episódio foi nitidamente escrito na boa-vontade, pra entregar um final digno pra série, mas ficou faltando alguma coisa.Não que não tenha sido satisfatório. Acho que nerdice chega num ponto em que você nem se importa mais se o seriado caiu de nível, pq personagens bem-desenvolvidos compensam qualquer roteiro cheio de furos.

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  2. Eu tenho a péssima mania de continuar a assistir um filme ruim só pra ver onde aquilo vai dar. Teimosia e masoquismo. Acho que meu interesse em ver o final de Lost seja mais ou menos a mesma coisa. Sou curiosa demais pra deixar passar.

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  3. Nunca tinha visto um único episódio de lost, mas como não vivi numa bolha nos últimos anos sabia da história. No domingo algumas pessoas colocaram links no twitter com o episódio no justin tv, como era o último, fui ver. Não achei nada de fantástico ou genial, parecia um filme sobre amizade e redenção recheado de clichês. Quero ver como será a convivência com as viúvas de lost que ainda buscam explicações para um fim simples. Eles amam teorizar tudo, levar para a física e montar um quebra-cabeça que no fim das contas veio com várias peças faltando e a figura que formou não combinava com a da caixa.

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  4. o mais engraçado disso tudo é que a série inteira foi bem nerd, todo mundo elaborando altas teorias, vendo cena a cena cada episódio, aí no final boa parte começa a declarar que nunca se importou com os mistérios, as teorias, etcs, mas com os personagens e suas jornadas… AH TÁ!eu parei na terceira, mas reclamava dela desde a primeira, demorei demais pra largá-la

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  5. no fim das contas, fico triste por mim e por meu grupinho que apenas gostou porque… gostou.que chorou, se descabelou, amou, sofreu… e xingou muito no meio do caminho. mas gostou.em qual categoria estou? eu não falo que quem não gostou foi pq não entendeu – pq nunca achei que tinha taaanta coisa assim pra entender. o que eu não entendi, não entendi e não perguntei, simples.desde a primeira temporada eu consigo apontar episódios esdrúxulos, personagens imbecis (beijo, Ana Lucia), 'mistérios' babacas (odeio viagem no tempo), etc e etc.e sempre baixei, sempre corri atrás, sempre gostei. simplérrimo.o mais chato de lost é essa coisa de tentar explicar porque algumas pessoas simplesmente gostaram. não fui ludibriada por nada nem ninguém, e choro até agora se eu quiser, de lembrar que lindo foi o final, como o Jack estava lindo de viver mesmo depois de tanto tempo e como o final foi feito justamente pra eu me descabelar e ter enxaqueca.não sei que tipo de fã que eu sou, só sei que sou beeem mais feliz porque não preciso ficar explicando a série, o gosto dos outros e essas coisas.e que sacanagem botar o cachorro no final, né? chorei mais ainda.

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