Bon Jovi no Morumbi, 6/10/10

Com o perdão do clichê de fanboy, eu esperei 15 anos pelo show de ontem no Morumbi. Foi uma longa espera. It’s been a long and lonely ride. Durante esse período expandi o círculo de amizades com carinho especial pela banda e sempre imaginei que o tão aguardado show de retorno do Bon Jovi no Brasil fosse uma grande festa particular cheia de amigos se abraçando, mais ou menos como foi o Radiohead de 2009. Infelizmente alguns optaram por não viver este momento lindo, outros optaram por não vivê-lo comigo e outros tantos foram vítimas do trânsito de São Paulo e não conseguiram chegar a tempo de programar um encontro. Paciência. Em um nível particular, a única pessoa que realmente tinha que estar ali ao meu lado, estava. Em um nível globalizado, foram 65 mil membros da “Família Bon Jovi” cantando junto um hit atrás do outro durante 3 horas de show. Posso dizer que o show de ontem encerrou um ciclo da minha vida que se iniciou lá em 1995, quando vim pra São Paulo morar sozinho e vi o Bon Jovi pela primeira vez. Agora, every step I take I know that I’m not alone.

Não, eu não consigo falar das minhas bandas preferidas e das experiências que elas proporcionam sem falar de mim mesmo. Mal aí.

Voltando ao Morumbi de ontem, é preciso mencionar a polêmica abertura do Fresno. Não sei quem exatamente teve a brilhante ideia de colocá-los ali, diz a lenda que foi o próprio Jon Bon Jovi (porra Jon), mas foi no mínimo curioso ver uma banda ser tão vaiada justamente por abrir pro Bon Jovi, talvez a megabanda mais criticada, ridicularizada e tripudiada de todos os tempos. Ainda hoje, com mais de 25 anos de carreira, indicação pro Hall da Fama, trilhões de discos vendidos e as turnês mais rentáveis da indústria, ainda sou obrigado a ouvir coisas como “Você gosta de Bon Jovi? Que bicha!”. Então, Fresno, relaxa, a Família Bon Jovi só está descontando décadas de humilhações em vocês. E que fique registrado que, por pior que seja, o Fresno é menos insuportável que o Restart. Só faltou aquela cover malandra de “Evidências” no repertório de meia horinha – vocês poderiam ter ganho o público de videokê nessa.

Mas vamos ao que interessa.

O Bon Jovi subiu ao palco por volta das 21h15 com o hino sobre amizades de infância “Blood On Blood”, uma faixa adorada por fãs mas ignorada pelo grande público. Porque o repertório do Bon Jovi tem essa peculiaridade: trata-se de um greatest hits misturado com preferidas de fãs (“Captain Crash & The Beauty Queen From Mars”, “Who Says You Can’t Go Home?”) e faixas do disco novo, “The Circle” (“We Weren’t Born To Follow”, “Superman Tonight”, “When We Were Beautiful”, “Work For The Working Man”). Vejo o hit para as bandas como os títulos para os times de futebol. São eles que determinam a grandiosidade da equipe. E neste ponto de vista, o Bon Jovi é um time gigantesco. A sequência de hits é tão impressionante que, lá pelas tantas, já rouco e com dor no corpo, você sente um certo desespero por lembrar que ainda faltam “Wanted Dead Or Alive” e “Livin’ On A Prayer”. Tem banda que, com apenas duas músicas como essas, sustentaria uma carreira por anos.

O que diferencia o show do Bon Jovi dos recentes shows de outros ícones do hard rock como o Guns N’Roses e o Aerosmith (ex-bandas em atividade) é que, ao contrário do que muitos imaginam, o Bon Jovi também tem hits com menos de 10 anos de idade, como “Have a Nice Day”. E outras que parecem hits, como “We Got It Going On” que destoava no disco “Lost Highway” mas parece fazer sentido no show. Culpe o talento de Jon Bon Jovi, o maior personal trainer do rock, para comandar um estádio inteiro com coreografias, palminhas, coros ou apenas um sorrisinho maroto lançado pra câmera certa. E se o homem no alto de seus 48 anos ainda encanta a mulherada, são os homens com senso de humor que se divertem gritando “lindo” e “gostoso” pra ele. Ao meu lado, um cara gritava toda vez que a luz do palco se apagava: “agora com essa luz baixa eu quero uma baladinha pra tocar o meu coração”. É esse o espírito de farofa na veia do qual eu tenho orgulho.

No palco, telões em alta definição não deixaram ninguém de fora da brincadeira. As animações que ilustravam as músicas e a edição precisa também demonstraram um cuidado absurdo com a produção. Destaque para as cenas de Nova York durante “Runaway”. Infelizmente, mais uma vez sofremos com o som se dispersando no estádio, mas depois de uma meia hora de show o problema aparentemente foi resolvido e pudemos ouvir melhor os backings fantásticos de Richie Sambora.

O velho Richie até teve seu momento de vocalista em “Lay Your Hands On Me”, se atrapalhando um pouco com a letra – tudo bem, o Jon também precisou de cola em “These Days”. O tecladista David Bryan teve seus momentos de brilhar em “Runaway” e “These Days”, enquanto o baterista Tico Torres comemorou seu aniversário (é hoje!) com a plateia. Se o baixista Hugh McDonald continua uma ilustre presença inerte no palco, o segundo guitarrista Bobby Bandiera (ele que tocou no “Destination Anywhere”, respeito) demonstrou personalidade ao dividir os vocais com Jon na cover de Roy Orbison, “Oh Pretty Woman”, momento mágico bem no meio da infinita “Bad Medicine”, que teve ainda em seu jukebox um trecho de “Shout” dos Isley Brothers.

E o Morumbi nunca mais será o mesmo depois de pular ao som de “You Give Love A Bad Name”, “Born To Be My Baby”, “In These Arms”, “It’s My Life”, “I’ll Sleep When I’m Dead” e “Keep The Faith”, e de chorar ao som de “Always”, “Blaze of Glory”, “I’ll Be There For You”. Pense naqueles shows em que você espera 2h para ouvir um hit que levanta o estádio. Pense em um show de 3h que tem pelo menos 2h SÓ com esse tipo de hits. E para não ficarmos atrás da Argentina (nunca, jamais), um bis com “These Days”, “Wanted Dead Or Alive”, “Someday I’ll Be Saturday Night” e “Livin’ On A Prayer”. E um segundo bis, após breve deliberação da banda e o estádio em coro cantando ôôô, com a baladaça “Bed Of Roses”.

Nostálgica e decadente? Do show de 95 pra cá, a minha impressão é que a banda só cresceu. Da modesta Pista de Atletismo do Ibirapuera para um Morumbi lotado é um longo caminho. 3 horas de show sem parar eu só tinha visto no Bruce Springsteen. Aquele sorriso do Jon que faz as mulheres suspirarem, eu interpreto como a satisfação de um cara que conseguiu realizar seu sonho. Passar décadas na estrada é um trabalho complicado, fazer música que se torna sucesso é um talento, conquistar o público é questão de carisma, lotar estádio é consequência disso tudo. Ser parte importante da minha vida a ponto de influenciar relacionamentos, amizades e histórias? Isso aí não dá pra explicar não.

Que não levem mais 15 anos pra voltar pra cá.

12 comentários em “Bon Jovi no Morumbi, 6/10/10

  1. Esse vai ser um comentário prolixo! =)Eu não era tão ligada em Bon Jovi. Com certeza era uma das minhas bandas favoritas, mas em uma disputa direta entre eles e o Rush, há pouco tempo atrás, o Rush ganharia fácil minha preferência e meu din-din.Até que no ano passado uma pessoa tão especial – sempre há essa pessoa – entrou na minha vida e fez com que eu mudasse um pouco os meus padrões. E se eu já tinha uma baita admiração pela banda, essa admiração só foi crescendo, ao mesmo tempo em que eu aumentava o meu vocabulário musical com \”voiceboxes\”, \”harmônicos\”, \”expressões\”, etc. (rs).Posso dizer sem sombra de dúvida que em toda a minha vida, esse show só perde pro segundo show do U2 em 2006. Mas comparar qualquer show de qualquer banda ao U2, é meio complicado, já que a carga emocional que esses caras têm na minha vida é uma coisa absurda. Mas mesmo assim, o show de ontem teve o mérito de superar até os demais shows do U2 que já vi.Nunca saí tão satisfeita de um show. Das minhas favoritas ever, só faltou Miracle, mas eu já fui pra lá sem esperança de ouví-la mesmo (e digo isso balançando os ombros). Tive meus momentos únicos, onde parecia que eu estava em uma apresentação que acontecia especialmente pra mim, e que eu cantei e curti abraçada Superman Tonight (cara, como eu amo essa música…), I'll be there for you e pude dançar a minha valsa particular com Bed of Roses.Ainda bem que eu venci o trauma da primeira experiência e pude aproveitar. E vou torcer para que eles não esperem mais 15 anos pra voltar mesmo. Por mais inesquecível que tenha sido, viver tudo isso de novo vai ser muito bom!

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  2. tenho 4 comentários a fazer:1 – ouvir as pessoas do meu lado cantando \”SHORT MARROM…ENIU TCHO BLEIM\” no refrao de You Give Love a bad name foi hi;ario2 – Ouvir um amigo falar que o David Bryan tinha cabelo de Biro Biro e dai apelidarmos o dito cujo de \”David Biro\” tb foi hilário3 – Nao sou fan do Bon Jovi, mas o show foi realmente fodido…hard rock ao vivo é sempre bom. Puta banda..puta vocalista..4 – Sua recomendaçao de \”ir ao show do Bon Jovi é uma boa oportundiade de conhecer uma mulher interessante\” é TOTALMENTE VERDADEIRA…ainda bem que segui sua dica…rs

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  3. Sem palavras pra descrever tudo que eu senti ali. Foi tudo perfeito, não faltou nada, nem ninguém. Ouvir always me arrepiou, vi 65 mil pessoas desaparecerem ali naquele momento, só ficaram 2 e o Bon Jovi cantando pra fazer a trilha.Passei 3 horas cantando e pulando como se não houvesse amanhã, com uma pequena pausa pra colocar uma gordinha folgada no seu devido lugar.Memorável. Acho que vou até guardar o ingresso de recordação (pelo menos por um bom tempo) 😉

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  4. Sua resenha me fez chorar, porque eu relembrei um dos melhores – extenso e fantástico – momentos da minha vida. Sua resenha me fez feliz porque você conseguiu escrever tudo o que eu nunca vou ser capaz. Simplesmente porque eu não consigo traduzir o que foi esse show pra mim. Mas você conseguiu. Valeu 😉

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  5. cara, tenho um pouco de inveja de ti. Bon Jovi sempre foi e sempre será minha banda favorita. em 95, tinha apenas 3 anos e nem sabia o que era música. Hoje, com 18, me arrependo profundamente de não ter ido ao show, mas torço para que, como tu disse, a banda não demore 15 anos para voltar, de novo… E seu texto só veio confirmar uma certeza que eu tinha: o show foi inesquecível!!

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  6. Belo texto! Bom saber que compartilho da minha banda favorita com pessoas inteligentes e com bom gosto e bom também saber que aquela coisa do 'você gosta de bon jovi, que bicha!' é só intriga da oposição. 😉

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  7. Em 93 foi no Pacaembu… minha primeira vez em show internacional e em estádio… foi maravilhoso, daí o Bon Jovi virou vício, acompanhando todos os momentos de minha vida, felizes ou tristes… sempre presente. Lembro de Keep the Faith, que eu entoava feito hino… e In These Arms, que trazia todo o amor que eu sentia no peito. Depois foi 95, no Rio e em São Paulo, faltou grana para Curitiba, e a Cris, minha grande amiga, comigo em todos os momentos.E uma grande espera… Parecia até que aquela loucura que eu sentia havia curado… mentira… pude ver no Morumbi que guardava tudo ainda dentro de mim. E agora eu choro escrevendo isso… melhor show da minha vida! Tão aguardado… tão especial… com tanto amor! Só tenho a agradecer a oportunidade de ter vivenciado tudo isso e sentir tanta emoção! Bon Jovi pra mim é a melhor banda do mundo!

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  8. Com licença , faço suas palavras as minhas: \”Pense naqueles shows em que você espera 2h para ouvir um hit que levanta o estádio. Pense em um show de 3h que tem pelo menos 2h SÓ com esse tipo de hits.\” Fui lendo o que vc. escreveu e fui recordando os momentos do show,foi mágico, sai de lá anestesiada,( eu não uso droga…) ainda lembro de todos saindo, num silêncio, parecia que ninguém queria estragar aquele momento, não era verdade, o dia do show chegou, e foram três horas inesquecíveis que passaram rapidamente.Bon Jovi tbem faz parte da minha vida, da minha filha, que adolescente de 13 anos se apaixonou por ele, amor antigo, hoje ela tem 27 e foi ao show com o marido que curte junto com ela. Enfim…não tenho palavras para descrever…

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