Paul McCartney no Morumbi, 21/11/10

É uma época boa para se estar vivo. Pense que nossos filhos talvez não tenham a oportunidade de ver um Beatle ao vivo. Pense que ainda existem lendas como Paul McCartney que, aos 68 anos, ainda se importam em fazer um megashow histórico pra gente, cantando durante quase 3 horas as melhores músicas do mundo, aquelas que definiram uma geração e influenciaram todo o rock e o pop que você ouve na vida. Pense que Sir Paul ainda é gentil, simpático, divertido e não se importa de cantar “Yesterday”, a música mais tocada e regravada da história. E mande pro inferno aquelas bandinhas que se recusam a tocar seus maiores hits.

Paul fez história ontem no Morumbi para um público de, dizem, 64 mil pessoas (eu acho que tinha mais, já que estava bem mais lotado que o do Bon Jovi, que teve público divulgado de 65 mil). Entrou no palco sem muito alarde pouco depois das 21h30 e tocou até 0h20 alternando músicas da carreira solo e hinos consagrados dos Beatles. A previsão de chuva felizmente falhou, e uma lua cheia linda fez parte do cenário impecável da megaprodução, que contava com refletores em todo o Morumbi e telões verticais de alta definição que não deixavam ninguém perder nada – nem o tombo de Paul na derradeira saída do palco, quando ele tropeçou em alguma coisa e se estatelou no chão. O público ficou preocupado, mas logo ele se levantou, acenando que estava tudo bem, sem perder a compostura e a vitalidade de garoto, com um ursinho de pelúcia debaixo do braço.

Desde a entrada no palco, Paul se esforçou para falar português muitas e muitas vezes e prometeu uma bela festa. Uma festa para diversas gerações. De tiozinhos beatlemaníacos a jovenzinhos fanáticos por Rock Band, famílias inteiras tiveram os momentos de suas vidas ali no estádio. Casais de todas as idades se abraçavam apaixonados – e Paul fez questão de dedicar “My Love”, que escreveu para sua “gatinha” Linda a eles. Qualquer cidadão com o mínimo de conhecimento sobre a história da cultura pop mundial verteu lágrimas com homenagens como esta, como na canção feita para John Lennon (“Here Today”) ou a homenagem ao amigo George Harrison em “Something”, também conhecida como a melhor balada da história.

A banda que acompanha Paul há anos é de uma competência absurda, e o baterista Abe Laboriel Jr. ainda teve seu momento de popstar mandando uma coreografia sensacional em “Dance Tonight”. Como se não bastasse o sujeito tocar muito. Sua introdução em “Let Me Roll It” quase acaba com meu pobre coraçãozinho.

Lá pelas tantas, Paul puxou um coro de “Ôoo São Paulooo” que, se a torcida do meu time for esperta, já vai usar no próximo jogo. Ou você acha que Macca estava homenageando a cidade? Tá louco? O cara é de Liverpool, o Tricolor é bem famoso por lá. Em outro momento, ele disse que o Brasil é o país da música linda. Único momento em que discordei dele. A sua música é bem melhor, rapaz.

O final do primeiro set foi pura magia: tudo que você sabe sobre catarse coletiva em show de rock vai pro ralo com “Let It Be” e “Hey Jude” e seu “nanana” eterno ecoando por todo o estádio. No meio das duas, a explosiva (literalmente) “Live and Let Die” com a mais foda pirotecnia jamais executada. Fogos, luzes, explosões, e todo mundo ao meu lado de boca aberta e olhos brilhando, como crianças indo ao circo pela primeira vez. Sem dúvida, a maior experiência que já vivi num show de rock.

O primeiro bis teve “Daytripper”, “Lady Madonna” e “Get Back”. O segundo, “Yesterday”, a viagem de montanha-russa alucinante de “Helter Skelter” e o encerramento de “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band” e “The End”. E aí se você não chorou até agora (bastante improvável), não tem como não chorar com o “and in the end the love you take is equal to the love you make”. Na saída, aquela massaroca de gente saindo espremida pelos túneis do Morumbi cantando “nanana” demonstrou que estavam todos levando Paul no coração.

Um show desse tipo é raro. Ele transcende gostos pessoais e histórias particulares, é um caso de comunhão completa do público com a história, com o momento, com as pessoas ao redor. É um mito, uma lenda viva na sua frente, você entende a histeria da beatlemania, você se sente fazendo parte de algo muito maior e mais importante que um mero show de rock. Foi mais do que isso. Foi o melhor show de todas as nossas vidas.

9 comentários em “Paul McCartney no Morumbi, 21/11/10

  1. Um cara com 68 anos de idade conseguiu me fazer esquecer todos os outos shows que já assisti e eram o meu \”top five\” absoluto – até ontem. ESPECIALMENTE no contraste de quem esteve no dia anterior no Planeta Terra – não sei se é uma época tão boa para viver Renato, na comparação eu acho que o Rock e a Música de hoje perderam muito, a sorte é vermos um pouco do que ainda nos resta (e é um BELO resto graças a Deus). O Planeta Terra ficou parecendo uma brincadeira, um fantasma, um engasgo do que tenta ainda ser chamado de Rock, ainda mais se compararmos um Billy Corgan enlouquecido pelo próprio ego, tocando para si e si apenas, com o Paul, que toca muito de si, mas para todos, agradecendo a cada aplauso.Só discordo de você sobre a Música Linda. Temos sim, muita música linda. Mas ela não está no Rock, isso é certeza… certeza que tem muito Tom Jobim, Raul de Souza e assemelhados na casa dos Mccartney hehe

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s