Arquivo X – Primeira, Segunda e Terceira Temporadas

O processo de revisão de “Arquivo X” em DVD começou há alguns anos, com aqueles DVDs lançados em banca de jornal, e continuaram agora com a caixa completa – disponível em diversas promoções por aí. O Renato do meio dos anos 90 acreditava em extraterrestres, mas talvez não acreditasse que o mundo pudesse ser tão bom no futuro: ter as 9 temporadas da série preferida em casa é uma prova da existência de fenômenos sobrenaturais e milagres. Nem a Scully ousaria discordar.

Se você nasceu nos anos 90, acha que “Lost” foi a coisa mais genial do mundo e acompanha com certo interesse séries do tipo “Fringe” e “Supernatural” (ou qualquer que seja a série de sci-fi da moda), você não sabe de nada. “Arquivo X” apareceu no começo dos anos 90 como legítima sucessora de “Além da Imaginação” e “Twin Peaks”, herdando até alguns de seus atores – especialmente David Duchovny, lançado para o mundo como agente do FBI na novela do David Lynch.

O tal Arquivo X é um departamento renegado do FBI, motivo de piada no bureau, renegado ao porão como bom nerd que acredita em ETs. O depto investiga casos bizarros onde as abordagens tradicionais de investigação não se aplicam. Quem manda ali é Fox Mulder (David Duchovny), o CDF geniozinho da academia que frustou todos os seus superiores deixando sua especialidade – a análise do perfil de serial killers – para se dedicar aos fenômenos paranormais. Preocupados com as loucuras do seu agente spooky (seu gentil apelido no FBI), os engravatados de Washington designam uma jovem recém-saída da academia, Dana Scully (Gillian Anderson) para equilibrar a balança. Assim como seu parceiro, Scully também decepcionou todo mundo ao trocar uma brilhante carreira na medicina pelo FBI. A fórmula que se segue é bastante simples: Mulder acredita em (quase) tudo, Scully não acredita em (quase) nada.

Existe um bom motivo para a crença sem limites de Mulder: sua irmã Samantha foi abduzida na infância diante de seus olhos e nunca mais voltou pra casa. Encontrá-la ou ao menos descobrir o que aconteceu com ela é sua obsessão, a missão de sua vida. Já Scully, além de médica (cientista, logo cética), teve uma rígida formação cristã e acha improvável que Deus tenha colocado no universo todas as aberrações que Mulder persegue. Não por acaso, quando um caso envolve a crença religiosa, os papéis se invertem: ela tende a acreditar e ele não.

A dupla Mulder e Scully, de química perfeita dentro da tela e desavenças históricas fora dela, teve origem em dois outros agentes do FBI que marcaram época. Mulder é herdeiro direto de Dale Cooper (Kyle MacLachlan), o agente do FBI enviado a Twin Peaks para investigar a morte de Laura Palmer com métodos pouco ortodoxos, muita intuição e mente aberta para possibilidades extremas. Já Scully lembra demais a Clarice Starling imortalizada por Jodie Foster em “O Silêncio dos Inocentes”, alternando força e fragilidade, determinação e sensibilidade em um mundo dominado pelo tradicional detetive masculino – além da religiosidade que é marcante em ambas.

Mas a série não foi só Mulder e Scully, e nas 3 primeiras temporadas temos informantes misteriosos (Garganta Profunda na primeira, X nas demais), o implacável diretor assistente Skinner (Mitch Pileggi), o vilão Canceroso (William B. Davis) que representa todo o lado negro da força e o mercenário Alex Krycek (Nicholas Lea), grande filho da puta que aparece em todos os melhores episódios da série. Além, é claro, da figura encantadora do trio autodenominado Pistoleiros Solitários, geniais nerds hackers paranóicos que no futuro ganhariam uma série própria que só durou uma temporada (eles são losers e não nasceram para brilhar).

“Arquivo X” foi o produto geek definitivo, abordando praticamente todos os temas de ficção científica e terror durante 9 temporadas – e não era raro a homenagem explícita a clássicos do gênero (por exemplo: “Terror no Gelo”, da primeira temporada, é “O Enigma do Outro Mundo” de John Carpenter). Tudo isso sempre com um pé na realidade, com relatos de casos que realmente aconteceram, mistérios que permanecem sem explicação nesse mundão afora. Mas o que trouxe longevidade à série não foram os casos esporádicos, o “monstro da semana”, e sim uma complexa teoria conspiratória envolvendo um comitê acima dos governos, uma cúpula de poderosos controlando as informações sobre experiências militares e contatos imediatos desde o fim da II Guerra.

A grande conspiração, chamada de “mitologia” pelos fãs e criadores da série, vai muito além do sumiço de Samantha Mulder, influenciando a vida de nossos heróis e de suas famílias em um longo caminho sem volta. Normalmente, os episódios da “mitologia” eram duplos ou até triplos, formando no conjunto longas-metragens melhores do que 99,9% das sci-fis lançadas no cinema desde os anos 90. E eles começaram por acidente: Gillian Anderson engravidou no final da primeira temporada e Scully teve que “sumir” por uns episódios da segunda. Por isso Chris Carter, o surfista criador da série, inventou a abdução da personagem no clássico “Duane Barry” do segundo ano. O destino escreve certo por linhas tortas.

“Arquivo X” foi além do universo nerd e tornou-se fenômeno pop. Até hoje, quando o assunto é ET, é o tema antológico de Mark Snow que aparece de trilha, emulando os sinais musicais de “Contatos Imediatos do 3º Grau” de Spielberg, outra referência constante da série. E foi fenômeno no momento certo, quando a internet começava a surgir, fóruns de discussão apareciam timidamente e descobrir um guia de episódios online era o máximo da informação compartilhada. Isso tudo nas vésperas da virada do milênio, quando atividades paranormais parecem mais propícias.

Foi fenômeno também ao influenciar a cultura pop, tendo como fãs declarados gente grande como Nick Cave, R.E.M. e Foo Fighters, que chegaram a lançar um CD com canções inspiradas pela série (“Songs in the Key of X”, procure, é sensacional). Do lado de lá da tela, “Arquivo X” destilava humor negro, caçoava de seus próprios personagens e de seus fãs mais radicais, sem piedade. Todos os episódios escritos por Darin Morgan na terceira temporada merecem algum trofeu de ironia fina, seja com o vidente Clyde Bruckman (episódio vencedor do Emmy), sejam as baratas alienígenas que ameaçam invadir a Terra, seja a inacreditável história abordada pelo escritor Jose Chung em seu livro “Do espaço sideral” – um episódio que mora dentro do meu coração. Não ouvimos mais falar de Darin Morgan, mas “Arquivo X” revelou muita gente que anda por aí fazendo trabalho honesto, dentre os quais se destaca Vince Gilligan, o criador de “Breaking Bad”.

Alienígenas, monstros, demônios das mais diversas religiões, lendas urbanas, mutações, assombrações, vampiros, lobisomens, zumbis, clones, uma conspiração de escala global… tudo isso é muito bacana, interessante e apaixonante, mas a máscara da ficção científica esconde a verdadeira face da série, algo que só consegui detectar nesta revisão de décadas depois: no final das contas, “Arquivo X” é uma jornada sobre a fé. Sobre acreditar em alguma coisa e seguir em frente, aconteça o que acontecer, mesmo com todo o mundo tentando te tirar do caminho, plantando pistas falsas ou simplesmente rindo da sua cara. Está lá, evidente em cada episódio. Fox Mulder está mais próximo dos seus amigos nerds paranóicos do que de um agente do FBI super-herói e infalível. Pelo contrário, cego pela sua obsessão, ele falha bastante, principalmente nestas 3 primeiras temporadas, quando ainda existe uma certa ingenuidade em suas ações. É um exemplo de perseverança e fé para toda a vida, representadas no pôster que enfeita seu escritório escuro: “eu quero acreditar”.

Se você é novato em “Arquivo X” e resolver arriscar, prepare-se para uma experiência capaz de mudar sua vida. Encare a primeira temporada como um grande prólogo – cheio de altos e baixos, é verdade. A segunda, como o começo da história. E deleite-se com a terceira, quando tudo está calibrado e encaixado no seu devido lugar para virar tudo que você conhece de cabeça pra baixo. Desde que, é claro, você queira acreditar naquela verdade que está lá fora.

4 comentários em “Arquivo X – Primeira, Segunda e Terceira Temporadas

  1. cada vez que assisto Californication penso em quanto o Duchovny se livrou da cara do Mulder, em nenhum momento dá pra acreditar que ele era outro senão o Hank, raros conseguiram se livrar da imagem de personagem tão importante assimeu ainda sou meio ufólogo, mesmo não acompanhando mais, pena que hoje o tema não tem o tratamento que Arquivo X dava, atualmente são só invasões alienígenas fantasiosas

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  2. Renato, parabéns, você escreveu um texto que serve ao mesmo tempo de review para quem já conhece e um BELO beginner's guide para quem quiser ter contato, como certas pessoas que falam mal da Scully ;-)E eu nunca tinha associado o Mulder ao Dale Cooper – faz TODO O sentido.E vamos seguindo. A cada episódio da 3a. eu penso como os caras conseguiam fazer uma história maluca atrás da outra sem a peteca cair, tudo excelente demais 🙂

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