U2 – 360º Tour no Morumbi, 9 e 10/4/11

Antes de mais nada, é preciso falar sobre a Garra. Todo mundo já viu o palco em fotos e vídeos, mas ao vivo é uma experiência diferente. Divertido ver as pessoas entrando no Morumbi, dando de cara com aquele monumento e deixando o queixo cair. Pense que em toda a cidade de São Paulo não temos um cartão postal que chegue perto disso. Dá dó voltar do show e passar pela nossa pobre Ponte Estaiada, que levou tanto tempo pra ser construída com nosso dinheiro, enquanto a equipe do U2 monta e desmonta a Garra em uma semana. É como levar a Torre Eiffel pra lá e pra cá. Impressionante. É o tripod da “Guerra dos Mundos”, é a nave-mãe de “Contatos Imediatos do 3º Grau”, e é, também, um suporte para um telão expansível, canhões de luz e inúmeros amplificadores.

Deve-se elogiar, portanto, o fato de o U2 deixar o Muse brincar com seu brinquedo extravagante e caro. Aliás, que coragem chamar o Muse pra abrir seu show. Se por aqui a banda não é tão conhecida fora do circuito alternativo, na Europa eles lotam estádios e ganham prêmios de melhor show todo ano. Isso quer dizer que, ao contrário do apático Franz Ferdinand abrindo a Vertigo Tour em 2006, o Muse não tem medo de ser grande. Seu som é poderoso e enche a arena, faz até quem não conhece pular. E a gente que gosta das duas bandas fica na torcida pra que o Muse um dia lote um estádio sozinho por aqui também, porque esse tipo de banda é raridade hoje em dia.

Também é preciso falar do público. Sempre tive problemas com público de show do U2, a ponto de não conseguir me divertir com aquele povo da balada batendo papo do meu lado. Algo aconteceu, ou eu que tive mais sorte dessa vez, mas todo mundo que esteve no Morumbi no fim de semana parecia estar na mesma sintonia. Casais apaixonados, famílias, gente feliz, fãs com as músicas na ponta da língua (não só os hits), e um enorme respeito dos fãs de Muse para com o U2 e vice-versa. Nunca vi uma banda de abertura com uma receptividade tão boa. Mesmo quem não conhecia fez questão de bater palminhas em “Starlight”. Enfim, aquele ambiente saudável de paz e amor visto recentemente no show do Paul. E se o Paul colocou mais de 60 mil pessoas no estádio, o U2 foi além e cravou 90 mil em cada show, beneficiado por seu palco 360º, que libera espaço na arquibancada atrás dele. E neste fim de semana, outro recorde foi batido no Morumbi: a 360º Tour tornou-se a mais lucrativa da história, batendo os Rolling Stones.

Nos dois dias, o Muse tocou por pouco mais de 40 minutos, dando uma boa amostra do que é capaz. Assim como o U2, alternou o setlist e fez das duas apresentações espetáculos complementares. A introdução do épico espacial western “Knights of Cydonia” com “The man with the harmonica”, da trilha de “Era uma vez no Oeste”, foi particularmente um momento especial. Pouca gente deu bola, mas não é todo dia que ouço Ennio Morricone, da trilha do meu filme preferido, no estádio do meu time do coração, abrindo pra minha banda favorita. É tão perfeito quanto o Rogério Ceni marcar seu centésimo gol no Corinthians. Obrigado, Muse.

Já o U2… bem, o soberano U2 fez o maior espetáculo da Terra como de costume. Entre “Space Oddity” do David Bowie e “Rocket Man” do Elton John, nos transportou para outro mundo onde o tempo é relativo e as fronteiras geográficas pouco importam – tema do álbum “No line on the horizon”. Ali, os conceitos do “Achtung Baby” (muito bem representado no setlist graças a Deus) e do “Zooropa”, com seu astronauta perdido no espaço (o Major Tom do U2), fazem todo o sentido. Quando o Bono pergunta “what time is it in the world?” você não precisa da legenda atrasada e meia-boca do telão pra saber do que ele está falando. De repente, todas as músicas do repertório parecem fazer parte do mesmo disco. Até a “Miss Sarajevo” que nos primeiros versos pergunta se “há tempo” pra alguma coisa.

Abrir com a versão turbinada de “Even Better than the Real Thing” foi covardia. Emendar “One” com “Where the Streets Have No Name” também. Incluir na segunda noite as surpresas “Out of Control” e “Zooropa”, além da experiência sensorial de “Ultraviolet (Light My Way)”, com Bono pendurado no microfone redondo em sua jaqueta “with lasers”, também. Por outro lado, grande sacanagem aquela versão remixada de “‘l’ll Go Crazy If I Don’t Go Crazy Crazy Tonight”, representando o “No Line” no lugar de músicas bem melhores como a própria faixa-título, “Unknown Caller” ou “Breathe”, que foram sacadas ao longo da turnê. Uma pena, mas deu o tom de “balada” que Bono citou. Nós, paulistanos, gostamos de comer pizza e ir pra balada.

As mudanças de uma noite pra outra foram poucas, mas significativas. A música de introdução do sábado foi a paulistana “Trem das Onze” do Adoniran Barbosa, a do domingo foi “A Minha Menina” dos Mutantes. A tradicional menina puxada da plateia, no sábado, recitou “Carinhoso”. A de domingo, a letra traduzida de “Beautiful Day”. A piadinha de Bono no sábado foi comparar cada membro da banda a uma pizza diferente. No domingo, ele disse que conversou com o governador Alckmin e que estava decretado o feriado U2 Day na segunda: “ninguém precisa trabalhar amanhã”. Também contou que The Edge é inseguro e queria uma prova de que o Brasil prefere U2 às outras bandas que vêm pra cá, citando Oasis, Radiohead, Coldplay, Muse e The Killers. O Bono não precisa ter ciúme, essas aí são apenas bandas, o U2 é algo mais do que isso. Você duvida? A chuva que caía torrencialmente em São Paulo parou pra deixar o U2 tocar nas duas noites. No sábado, assim que o show acabou e as luzes se acenderam, a chuva voltou a cair. Coincidência ou demonstração dos superpoderes de Bono?

Nos discursos, o velho ativista dedicou “Walk On” a Aung San Suu Kyi, líder e presa política de Burma, libertada recentemente graças aos esforços da Anistia Internacional. Só perdeu pro discurso de Desmond Tutu antes de “One”. Fica a impressão de que todo mundo acha lindo, aplaude, mas esquece assim que acaba o show. Entretanto, acho válido que pelo menos esses milhares de brasileiros saibam da existência da Anistia Internacional e de outras causas importantes mundo afora. É bom olhar pra fora de vez em quando, ao invés de somente vaiar a Dilma e sair por aí repetindo o argumento imbecil de que o “Bono só quer vender disco”, sem saber o que ele faz de fato nas horas vagas. “Sunday Bloody Sunday” nas duas noites e “Pride (In the Name of Love)” apenas na segunda estiveram presentes no pacote político + luta pelos direitos humanos. No sábado, as crianças vítimas de Realengo foram lembradas antes de “Moment of Surrender”, no domingo Bono dedicou a música a mães e pais sem filhos, irmãs sem irmãos, irmãos sem irmãs. E todo mundo entoou o “oooo” mais lindo do planeta.

No âmbito particular, depois de várias tentativas, finalmente aproveitei devidamente um show do U2, chorando e pulando nas devidas proporções e aproveitando o espetáculo completamente. Demorou, mas consegui superar até a ansiedade e as limitações físicas – não sei de onde vieram as forças que me mantinham de pé ontem à noite. Devem ter vindo do mesmo lugar que ordenou o fim da chuva. Com o devido respeito ao Paul McCartney, mas o espetáculo de cores e luzes de “City of Blinding Lights” e “Vertigo” fez os fogos de artifício de “Live and Let Die” parecerem rojões de quermesse. Mas pirotecnias a parte, é na música pura e simples de “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” que você para para repensar sua vida, olha para a namorada, para os amigos e estranhos ao lado, todos na mesma sintonia, e conclui que é bem bacana estar vivo pra ver isso. Sem necessidade de legendas, a gente entende Bono, Edge, Adam e Larry. Só o amor é capaz de deixar uma marca assim.

8 comentários em “U2 – 360º Tour no Morumbi, 9 e 10/4/11

  1. o bom de terem tocado \”hold me, thrill me…\” e \”zooropa/ultraviolet\” nas duas primeiras noites é que não vai rolar inveja da terceira noite. Não sobrou nada (só se tocarem lemon/staring at the sun/the fly, mas eu duvido).

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  2. menina falando no telefone, na saída do show: \”estava a 2 metros da red zone, paguei 40 reais pro segurança e ele me botou pra dentro!\”.ou seja: boa ação e caridade só funcionam no primeiro mundo.

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  3. Obrigado por descrever parte daquilo que, para mim, vão faltar palavras. Foi meu terceiro show do U2 meu caro, mas acabou sendo o primeiro grande show da minha vida. O Paul que nos perdoe, realmente. Duro é a vontade de estar lá quarta…

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