Rock in Rio, eu fui

Infelizmente eu não tinha idade para ir às primeiras edições do Rock in Rio, nem tenho mais paciência para ir nesta que está acontecendo agora. Mas eu fui ao Rock in Rio III há 10 anos, e para entrar no clima geral de nostalgia que o festival desperta, digo que foi uma das coisas mais bacanas que eu já fiz na vida. Pelo que andei lendo por aí, seja qual for a edição e a geração, o Rock in Rio é sempre encarado como uma grande aventura, nosso Woodstock cheio de histórias para contar pros netos. Essa é a minha.

Em janeiro de 2001 eu tinha 23 anos, trabalhava muito, ganhava muito pouco, mas naquela época os ingressos eram bem mais acessíveis. Eu e meus fiéis amigos de sempre compramos ingressos para o primeiro final de semana para ver Foo Fighters, R.E.M., Oasis e o tão aguardado retorno do Guns N’Roses. Partimos para a cidade maravilhosa de ônibus e ficamos hospedados na casa da família de uma amiga da turma, com direito a visita à praia, alimentação espetacular, bons lugares para dormir e bullyings sobre nossa pálida pele paulistana e sobre o modo como os cariocas pronunciam “oasish” e “gunsh”.

O trajeto para a Cidade do Rock provou que pelo menos nisso o Jota Quest tinha razão: Jacarepaguá é longe pra caramba. Não sei os números exatos, mas dizem que mais de 200 mil cabeças viram os shows daquele final de semana. Dias inteiros debaixo de sol e poeira, provando que festivais de rock exigem bastante do seu público. Mas éramos todos jovens, afinal. Não me lembro de ter sucumbido em nenhum momento.

O dia 13 de janeiro de 2001, sábado, teve no palco principal a finada Cássia Eller mostrando os peitos e emocionada por tocar no mesmo palco que o Dave Grohl, a quem dedicou uma versão poderosa de “Smells Like Teen Spirit”. O Barão Vermelho também fez um ótimo show, e o Rock in Rio tem esse poder de nos lembrar que temos bandas bacanas no Brasil e não costumamos dar a elas o seu devido valor. Quer dizer, ninguém foi até lá pra ver o Barão, mas todo mundo se divertiu demais naquele show.

A primeira atração internacional foi o Beck, que se mostrou um baita frontman, cheio de energia na performance. Eu não esperava isso de um artista alternativo e introspectivo como ele. O Foo Fighters veio na sequência e aumentou o grau da energia no local com tudo que um bom show de rock pode oferecer. Era aniversário do Grohl, ele ganhou bolo e beijo da tiete Cássia Eller.

Aí veio o (agora finado) R.E.M. e botou o lugar abaixo em um dos melhores shows que já vi na vida. Michael Stipe estava possuído, dançou e pulou feito louco, hit atrás de hit. Do meu lado, um carioca espirituoso comentou: “mas que coisa, esse cara é mais viado que a Cássia Eller”. Lembro de ter derramado um punhado de lágrimas algumas vezes, porque não é todo dia que ouvimos “Everybody Hurts” ao lado de 200 mil pessoas. E assim toda uma nova geração de ouvintes que foi lá pra ver o Fufa acabou saindo apaixonada também pelo R.E.M. Fomos embora do lugar flutuando, sem nem lembrar que havíamos passado a noite anterior em claro, viajando.

Domingo, dia 14 de janeiro de 2001, mais sol, mais poeira, mas com uma noite bem dormida com ar condicionado no talo. Foi o antológico dia em que Carlinhos Brown tomou garrafadas. A história nem sempre foi contada direito. Não tinha nada a ver com o estilo musical do garoto. Até hoje o pessoal reclama dos outros gêneros musicais que se apresentam no Rock in Rio, há o eterno debate sobre “o que é rock” e se dependesse dos auto-proclamados guardiões do sagrado rock’n’roll, talvez nem o Queen tivesse tocado em 1985, naquele que foi o show mais emblemático do festival até hoje.

Quer dizer, danem-se os defensores do rock. O problema com o Brown foi outro: como o calor era quase insuportável, a organização do evento tinha colocado mangueiras jogando água na plateia. E as mangueiras estavam tirando a atenção do palco, porque afinal de contas ninguém estava ali pra ver o Carlinhos Brown. Então o gênio mandou parar a hidratação coletiva. Rapaz, muitas guerras já começaram por muito menos. Assim, enquanto ele cantava sua “Água Mineral”, o povão começou a arremessar garrafinhas no palco. Nem todas chegavam lá, é verdade, e no final das contas muita gente jogou garrafa no próprio público. Eu mesmo tomei várias garrafadas e joguei tantas outras. O que valeu foi o ato simbólico. O que ficou foi o orgulho por ter feito parte deste momento histórico.

O gênio Brown ainda chamou a galera de ignorante, disse que todo roqueiro é filhinho de papai e, enquanto tomava bordoada no cocar, dizia “nada me atinge”, naquela postura messiânica que deixou Liam Gallagher e Axl Rose parecerem pessoas humildes. O Rock in Rio III também foi marcado pelo boicote de bandas nacionais que se recusaram a tocar de dia, mas ninguém sentiu falta de Rappa, Skank, Cidade Negra, Charlie Brown Jr. e Jota Quest. Faltou humildade. Faltou coerência. Faltou se lembrar que em Woodstock ou no Live Aid muita gente mais importante que o Falcão do Rappa tocou de dia sem se importar com quem fechava a noite.

Para provar a Brown que o problema não era o público, todos receberam bem a Fernanda Abreu e o Pato Fu, no mesmo dia. E eles não são exatamente exemplos de rock pesado. Ainda assim, Fernanda Takai, toda fofa, sentiu-se emocionada por pisar no mesmo palco que os Gallaghers. Questão de simpatia e respeito, só isso. O mesmo público pegou fogo com o grande show do Ira! com o Ultraje a Rigor, a invasão paulista no Rock in Rio. Tocaram sucessos próprios e covers de The Clash e Black Sabbath. Foi infinitamente melhor que a porcaria do Papa Roach, bandinha hardcore desconhecida que só estava lá porque o Axl pediu (ou mandou, sei lá).

O Oasis apareceu com um show burocrático, fazendo um arroz com feijão modesto de uma hora. Os Gallaghers deviam estar putos por serem a banda de abertura do Guns. A maioria do público era fã de Guns e não estava muito a fim de ouvir britpop. Juro que abriram uma roda do meu lado durante “Don’t Look Back in Anger”. No final, Liam dedicou “Rock’n’roll Star” pro Axl. Perfeito.

Foram horas de atraso até o Guns subir ao palco e ninguém sabia direito o que esperar daquele retorno da banda. Ninguém nem tinha certeza se o show ia rolar mesmo. Até momentos antes do show, tinha gente alimentando rumores de que o Slash estava por lá. Quando entrou o Buckethead com um balde de KFC na cabeça e uma máscara, ainda tinha gente achando que era o Slash disfarçado. “Uma hora ele vai tirar a máscara e vocês vão ver só”. Triste a esperança do fã.

Mas o fato é que nada disso rolou, o Axl surpreendeu a todos aparecendo mais gordo que o Ronaldo Fenômeno e com sérios problemas na voz. As músicas novas do “Chinese Democracy” eram pra lá de bizarras e a banda parecia um freak show. Claro que todos se divertiram horrores com os sucessos eternos do Guns e todos achavam que estavam presenciando um momento histórico, o Grande Retorno do Guns. Porém, a história mostrou que foi só mais uma patacoada de Mister Axl Rose.

Assim, melancolicamente, acabou-se o meu final de semana de Rock in Rio: voltando pra casa de ônibus, com o suor e a poeira no corpo grudando no pessoal ao redor. O festival ainda teria uma porção de shows bacanas e eu me arrependo de não ter visto o Neil Young, mas não se pode ter tudo nessa vida.

Esperei muito tempo pro Rock in Rio voltar, mas ele demorou demais. Grandes shows internacionais são bem mais frequentes hoje em dia e a banda teria que ser muito querida pra me deslocar até o Rio e me obrigar a encarar essa maratona mais uma vez. Ainda assim, não vou me juntar ao coro hipster reclamando da atual escalação do Rock in Rio, porque tenho certeza de que tem um punhado de gente tendo a mesma experiência que eu tive por lá nesses dias. E eu prefiro mil vezes ver a Claudia Leitte e a Katy Perry rebolando do que o Carlinhos Brown batucando.

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