Game of Thrones – Primeira Temporada

Se é que ainda havia alguma dúvida, “Game of Thrones” é a prova definitiva de que a TV superou o cinema. Hollywood passou os últimos dez anos procurando o novo Senhor dos Anéis e o máximo que conseguiu foi um punhado de trilogias sem graça e a série Harry Potter, que trataram de desqualificar a fantasia como gênero exclusivamente infantil. Enquanto isso, sem muito alarde, a série de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo” de George R.R. Martin foram parar na HBO, lar das melhores produções da TV como os Sopranos e “Boardwalk Empire”.

Antes de mais nada, é bom deixar claro que a saga de Martin tem lá suas semelhanças estéticas e conceituais com a obra de Tolkien (inclusive no R.R. do sobrenome dos autores), mas o foco é completamente diferente. No mundo criado por Martin, a magia, quando existe, é bem mais discreta. Os conflitos são criados pelo próprio caráter desgraçado do ser humano, e não por uma poderosa força do mal. Os vilões não são seres monstruosos e tudo tem uma explicação em um passado de traições, guerras e assassinatos onde até os supostos heróis da trama já sujaram as mãos.

Outra diferença gritante com a obra de Tolkien é a participação muito mais relevante das mulheres na trama, seja nas decisões estratégicas que mudam o rumo da história, seja na cama – porque em “Game of Thrones” o sexo é tão importante quanto uma batalha campal. E como bem observou uma amiga já viciada na série, Martin não tem dó de seus personagens. Ou seja, ao contrário da turma da Terra Média, aqui personagens importantes morrem. Curioso notar que, nos 10 episódios da primeira temporada, não há uma única batalha épica, daquelas que cansamos de ver no cinema, com flechas voando na direção da tela e tudo mais. E nem precisava. Em “Game of Thrones”, as maiores batalhas são travadas nos bastidores e resolvidas diante do trono, onde a palavra, a honra e a lealdade valem mais do que a espada.

“Game of Thrones”, a “Guerra dos Tronos”, é o primeiro volume da grande e complexa história desenvolvida por Martin, e tem como estopim a morte da Mão do Rei, uma espécie de primeiro-ministro que governa o reino enquanto o Rei enche a cara, caça javalis e dorme com prostitutas. O novo escolhido para o cargo é Eddard Stark (Sean Bean, o Boromir da Sociedade do Anel), adorado pelo Rei Robert Baratheon (Mark Addy), mas desafeto da Rainha Cersei (Lena Headey), uma Lannister. A partir deste princípio, simplificado ao extremo aqui, você vai conhecer todo o passado de intrigas do reino e de seus inúmeros personagens principais (difícil escolher um preferido) e como o destino de todos só pode ser a tragédia. Afinal, o inverno está chegando.

Inacreditável como o roteiro consegue dar conta de tanta gente, de tantos conflitos paralelos, e ainda criar mistério e tensão com todos eles. Inacreditável como a linda trilha sonora de Ramin Djawadi (um discípulo de Hans Zimmer) consegue ficar na cabeça e marcar território como há tempos nenhuma trilha de cinema consegue. Inacreditável que o jogo político dos tronos consiga envolver tanto, tendo como ação paralela todo o mistério que envolve a grande Muralha, a fronteira que separa o reino de uma sinistra floresta onde o mal adormece. A Muralha é guardada pela Patrulha da Noite, um exército de ladrões, assassinos, filhos renegados, traidores e bastardos como Jon Snow (Kit Harington), filho de Eddard. Vale citar que o prólogo de “Game of Thrones” além da Muralha é mais assustador que toda a primeira temporada de “Walking Dead”.

Se a assombração além da Muralha representa o gelo, o fogo está do outro lado do rio, em outra trama paralela onde a sofrida jovem Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) é vendida pelo irmão canalha (Harry Lloyd) a um rei bárbaro (Jason Momoa, o novo Conan) que vai ajudá-lo a reconquistar o trono com seu exército de guerreiros invencíveis. A transformação de Daenerys ao longo dos dez episódios é o melhor arco de personagem da temporada e deixa qualquer um babando pelo segundo ano, que só começa em abril de 2012 nos EUA.

E eu nem mencionei o carismático Tyrion Lannister (Peter Dinklage), o anão, o único Lannister que presta, o dono das melhores falas da série, que tem um afeto especial por prostitutas, vinho, aleijados, bastardos e coisas quebradas, e que rendeu ao ator o Emmy de ator coadjuvante. Nas demais categorias, a série foi ignorada porque, lembre-se, até “O Senhor dos Anéis” precisou superar muitos preconceitos até ganhar o Oscar de melhor filme no terceiro episódio.

Felizmente, “Game of Thrones” caiu na graça do povo, os livros se tornaram best sellers e a diversão está garantida pelos próximos anos. Nerds crescidos do mundo, regozijai-vos. Temos um novo objeto de devoção. E se você não é adepto das boas sagas de fantasia medieval, deixe seu preconceito de lado e seja bem-vindo ao clube: desde “Band of Brothers” eu não via algo tão bonito, tão emocionante e tão perfeito.

5 comentários em “Game of Thrones – Primeira Temporada

  1. Muito bom, sou fã da série e já comecei a leitura dos livros, não da pra ficar tanto tempo sem! rsrs.. Logo de cara já fiquei surpreso com a idade real dos personagens, Daenerys Targaryen por exemplo tem apenas 13 anos!

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  2. Concordo em 100% com a resenha e o que mais lamento é justamente o quanto pessoas que eu sei que gostariam da série não se motivam em vê-la por esse preconceito com sagas de fantasia medieval. Não sabem o que estão perdendo!

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  3. Caro sr Thibes! Espero que a HBO consiga dar um jeito na série a partir da 3ª temporada , ou 3° livro. Os dois primeiros livros são fantásticos, depois acho que Martin se perde e o 3, 4 e 5 são de uma enrolação só, salvo alguns capítulos.Ele começa a expandir demais os personagens e as tramas e parece que a história nunca terá uma conclusão.No 5° livro ele ja deveria começar a prever um fim para a trama e começar a fechar os pontos, mas não está parecendo.Desse jeito a gente vai até o 12° livro no minimo! Uma pena.Sem querer jogar balde de água fria, porque mesmo perdendo qualidade eu to conseguindo ir até o 5° :)Realmente eu torço muito pela série, tanto nos livros quanto na TV.Edu

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  4. hahaha concordo com o Renato, Edu. eu acabei de ler o terceiro livro recentemente, e discordo quanto a enrolação. o 3º livro é, na minha opinião, o mais empolgante, e o desenvolvimento dos personagem é muito envolvente. Mas é esperar e ver no que vai dar, não sei nem se vou estar vivo amanhã haha. boa resenha. abraço.

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