Santa Claus is coming to town

Parece que o Natal só é Natal de verdade em Nova York. Pelo menos aquele Natal dos filmes, devidamente colonizado pela América como todo o resto da cultura ocidental. Nessa minha segunda passagem pela cidade (a primeira foi há 2 anos) constatei que, nesta época do ano na capital mundial da cultura pop, todo mundo se transforma no Macaulay Culkin em “Esqueceram de Mim 2”. Não vimos neve, mas vimos luzes, mais luzes do que o normal, e ouvimos todos os adoráveis clássicos natalinos de Elvis Presley, Frank Sinatra, Phil Spector ou daquelas coletâneas “A Very Special Christmas”, tocando a toda hora em todo lugar, inclusive nas performances animadas dos voluntários do Exército da Salvação, tocando seus sinos e pedindo colaborações em toda esquina de Manhattan. Estatística rápida: “Little Drummer Boy” foi sem dúvida a mais ouvida. pa rum pum pum pum

A principal diferença com relação à viagem anterior, entretanto, não foi o espírito natalino: foi ter ido acompanhado. Uma mulher na Quinta Avenida é feliz e descontrolada como um gordinho em buffet, correndo pra lá e pra cá sem saber aonde avançar primeiro. Como em tudo na vida, a presença feminina torna a viagem a Nova York uma experiência completamente diferente. E mesmo que sozinho, você pode ir pra Nova York um milhão de vezes, você pode até morar lá e sempre vai ter uma novidade, uma atração diferente, algo que você deixou passar da outra vez. Dessa vez entrei no monumental Yankee Stadium, visitei o Guggenheim cheio de gente chata, vi a famosa árvore de Natal do Rockefeller Center, conheci o novo parque High Line e o novo memorial do 11/9 – o novo World Trade Center cresceu bastante nos últimos 2 anos. Bem que tentei chegar perto da inauguração da nova Apple Store na Grand Central Station, mas a fila de fanboys da Apple alucinados não permitiu.

Mais impressionante do que tudo isso foi conhecer os escritórios do Google, graças ao convite de um amigo que trabalha lá, e ver de perto que todas as lendas são verdadeiras. Os jogos, as áreas de lazer, os cafés, os refeitórios imensos com renomados chefs, os patinetes, a vista maravilhosa pra Manhattan, os preparativos pra festa da firma que seria naquele dia na Biblioteca Municipal – nos anos anteriores a festa foi no MoMa, no Museu de História Natural… Enfim, é tudo exatamente igual ao seu trabalho, à sua firma com a festa de fim de ano com amigo secreto na churrascaria, só que ao contrário.

Mantendo a tradição iniciada em 2009, consegui mesmo sem muito planejamento ter algum tipo de contato com a minha santíssima trindade particular (Bruce Springsteen, U2 e Bon Jovi) nas atrações que listo a seguir:

Bob Seger & The Silver Bullet Band
(Madison Square Garden, Nova York, 01/12/2011)

Grande show, grande banda, grande repertório e uma grande surpresa na quinta música, quando Bob Seger chamou ao palco o nosso presente de Natal: ninguém menos que o chefe Bruce Springsteen. Juntos eles cantaram o hino “Old Time Rock’n’Roll”, que tem tudo a ver com eles. O Madison Square Garden veio abaixo. Saiu uma matéria bacana no site da Rolling Stone sobre o encontro mágico. Nem em meus sonhos mais otimistas eu cogitei ver uma parceria dessas mas, com o perdão do clichê deslumbrado, tem coisas que só acontecem em Nova York mesmo. Claro que nem só de amigos famosos vive a longa carreira de Seger e o restante da noite foi um passeio por clássicos que todo mundo conhece mas nem todos sabem que são dele. Teve até a natalina “Little Drummer Boy”. Mesmo que tenha faltado minha favorita “Still the Same”, eu me tornei um pouco mais fã do Bob Seger e da Silver Bullet Band depois disso.

Spider-Man: Turn Off The Dark
(Foxwoods Theatre, Broadway, 02/12/2011)

Espetacular o Homem-Aranha acrobata da Broadway. A peça megalomaníaca e problemática que teve até morte de dublê e diversos atrasos no lançamento vale cada centavo. A história é quase a mesma do primeiro filme, mostrando a origem do herói e a luta com o Duende Verde. Os cenários pop-up são incríveis, os malabarismos dos dublês que voam em cabos por toda a sala deixam qualquer um de qualquer idade de queixo caído. Mas o que faz a diferença mesmo são as músicas de Bono e The Edge. Toda vez que aqueles riffs típicos do guitarristas ecoam pelo teatro, arrepiam até a alma. Ao final do espetáculo, o Duende Verde leiloou duas letras da música “Boy Falls From the Sky” autografadas pelo Bono pela bagatela de US$ 2.500 cada para uma instituição que luta contra a AIDS. Até na Broadway o Bono faz caridade.

Southside Johnny and the Asbury Jukes
(B.B. King Blues Club & Grill, Nova York, 03/12/2011)

O bar do B.B. King, localizado bem no meio da bagunça da rua 42 ao lado da Times Square, lembra muito os bares de rock de tiozão de Moema, só que com boas atrações musicais. Lá tocam bandas covers e artistas consagrados já não tão populares – Chuck Berry vai fazer o reveillon por lá. Lugar propício para o grande Southside Johnny se apresentar esporadicamente com seus Asbury Jukes. Fanfarrão e cheio de bom humor, o mito de New Jersey deu um susto quando saiu correndo do palco lá pela terceira música pra ir ao banheiro. Voltou um tempo depois brincando que tinha sido envenenado e deu sequência ao repertório que passa por diversas fases de sua carreira desde os anos 70 sem perder o pique. Na plateia, de novo, um monte de tiozão saudosista vendo Southside Johnny cantar com paixão, suar a camisa e demonstrar seu imenso carisma em musicaças como “Without Love”, “Love on the Wrong Side of Town”, “All Night Long”, “I’ve Been Working Too Hard”, “This Time Baby’s Gone For Good”, “Hearts of Stone” e muitas outras. No final, “Blue Christmas” pra comemorar o Natal e a apoteótica “Havin’ a Party”.

Baby Buggy 10th Anniversary Gala
(Avery Fisher Hall, Lincoln Center, 05/12/2011)

A maior surpresa da viagem foi ter conseguido, meio que em cima da hora, ingressos pra esse evento nobre de comemoração dos 10 anos do Baby Buggy, uma instituição de caridade criada pela esposa do Jerry Seinfeld, a Jessica. Na programação da noite, além do maridão Jerry, o grande Jon Stewart e o ex-SNL Colin Quinn, além da apresentação de George Stephanopoulos do “Good Morning America”. Ainda do lado de fora do suntuoso Avery Fisher Hall, sem muito alarde, vimos Jerry e Jessica atendendo a imprensa. Logo chegaram também a Bridget Moynahan (de “Blue Bloods”) e a Julianne Moore. Devia ter mais celebridades por ali, mas não conhecíamos nenhuma delas. O evento de gala tratou de louvar a iniciativa de Jessica, mas ficou aquela impressão de que só o colar de brilhantes que ela usava na noite já poderia ajudar muitas e muitas criancinhas necessitadas. Além disso, o foco da instituição não me pareceu tão inovador assim: aqui no Brasil é bem comum doar e reutilizar brinquedos, roupas e demais produtos infantis quando seu filho cresce, mas talvez pra alta sociedade novaiorquina isso seja realmente uma novidade. Quanto aos stand-ups, Quinn fala rápido demais e eu confesso que me perdi muitas vezes. Já os ídolos Jon Stewart e Jerry Seinfeld foram perfeitos como era de se esperar. Stewart com sua inteligência fora do comum pra falar de religião e política sem ofender ninguém. E Seinfeld… bem, o velho Jerry não fala mais de encontros, agora seu foco é a família, sem deixar de lado os costumes modernos – celulares principalmente. Jon e Jerry são gênios. Eu ainda não acredito que vi os dois de perto. Um dia, quem sabe, essa ficha cai.

Rock of Ages
(Helen Hayes Theatre, Broadway, 08/12/2011)

O elenco mudou desde a outra vez, mas “Rock of Ages” continua uma das coisas mais divertidas do mundo. O interesse é maior agora que uma versão hollywoodiana está sendo produzida, com Tom Cruise cantando Bon Jovi. Não sei se o filme vai ser bom, mas o musical da Broadway vale ver e rever quantas vezes for possível.

Noite de Ano Novo
(“New Year’s Eve”, 2011, Dir.: Garry Marshall)

Mesmo com toda a publicidade para os filmes do fim de ano como “Missão Impossível 3”, “War Horse” e “As Aventuras de Tintin”, ainda achei que os games estão ganhando mais destaque na comunicação visual da cidade. Os novos Batman e Call of Duty têm campanhas impressionantes espalhadas por Nova York. Esta comédia romântica novaiorquina, “New Year’s Eve”, também estava bem badalada, apesar do massacre da crítica. O pessoal foi muito duro com o filme, não é tão ruim assim e até diverte, principalmente se você estiver em Nova York, na véspera do Natal, e sair da sessão direto pra Times Square que é a principal locação do longa (hehe). Seguindo o esquema de “Idas e Vindas do Amor”, que era sobre o Dia dos Namorados, este “Noite de Ano Novo” mostra várias histórias girando ao redor da tradicional queda da bola da Times Square no reveillon. O elenco recheado de astros e estrelas tem as presenças marcantes de Robert DeNiro e Michelle Pfeiffer, além de um Jon Bon Jovi canastrão fazendo o papel dele mesmo (ou quase) e um dueto com a Lea Michele do “Glee”. O diretor Garry Marshall, de “Uma Linda Mulher”, poderia ter dado mais atenção aos números musicais, mas no geral o filme é simpático, bonitinho e não machuca ninguém.

Epílogo

Com um clima ameno demais pra essa época do ano, não foi dessa vez que vi neve. Mas na viagem de volta, durante a conexão no México, pudemos presenciar um terremoto de 6.5 pontos. Acho que eu preferia a neve.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s