Família Soprano – Sexta Temporada

Lá pelo final da sexta e última temporada dos Sopranos, Carmela Soprano, a primeira dama da máfia de New Jersey, desabafa colocando o marido contra a parede: ela não aguenta mais o mimimi da depressão. Não aguenta mais a família Soprano colocando na condição psiquiátrica a desculpa para todas as suas falhas. Por outro lado, a Dra. Melfi, terapeuta do homem, entra em contato com um estudo científico que diz que sociopatas se beneficiam da terapia. Não melhoram com ela, pelo contrário, usam os conceitos psiquiátricos para justificar seus atos mais bestiais. “É tudo culpa da minha mãe”. Freud criou o melhor álibi.

São estes eventos, mais do que a guerra finalmente declarada contra a máfia de Nova York, que encerram o arco narrativo que durante anos fez dos Sopranos a melhor série da história da TV. Foram seis primorosas temporadas – a última, com 21 episódios divididos entre 2006 e 2007, valeu por duas – de análise da mente tortuosa de Tony Soprano, suas relações familiares, suas crises pessoais e profissionais. Não me lembro de um personagem ter sido tão bem destrinchado em qualquer outra série ou filme. Em outras palavras, nunca conhecemos alguém tão bem como conhecemos Tony Soprano.

A última temporada, além de encerrar o ciclo, foca nas fraquezas do homem. Não só de Tony, mas de todos os homens ao seu redor. Todos têm algo que coloca em cheque a sua virilidade e, em um meio onde a testosterona domina, isso é mais do que preocupante – é trágico. Assim, acompanhamos o sofrimento de Vito, o capanga gay que tem sua intimidade exposta em todo o meio mafioso e se torna um problema. Bobby, o capanga de bom coração que coleciona trenzinhos de ferro e não tem o respeito dos colegas. Paulie, o capanga que descobre que é filho adotado e tem câncer de próstata. Johnny Sack, o ex-chefe da máfia novaiorquina, incapaz de acompanhar o casamento da filha sem que o FBI estrague sua festa. Junior, o tio com Alzheimer, abandonado à própria sorte no hospício. Christopher, o sobrinho que se recuperou dos vícios mas como consequência perdeu toda a vida social tão importante para os gângsters. E finalmente A.J., o filho que não cansa de decepcioná-lo, que não consegue superar uma desilusão amorosa e se entrega à depressão da maneira mais patética possível. O próprio Tony, recuperando-se de um tiro no estômago, deve provar para si mesmo e para seus comandados que ainda tem força para se manter no topo, ao mesmo tempo em que despreza todos os pontos fracos dos homens ao redor.

Entretanto, em meio a tanta demonstração de força, o que faz falta quando você termina a maratona da série são aqueles pequenos momentos de amenidades, que te aproximam da família mais do que qualquer coisa. Aquele típico jantar italiano, o café da manhã servido com alguma dor de cabeça proporcionada pelos filhos, as inúmeras referências musicais e cinematográficas, a festa de aniversário de Phil Leotardo com Nancy Sinatra cantando “Big Boss Man”… Por isso o final é tão surpreendente, porque inverte a expectativa e evita a tragédia anunciada com níveis de tensão quase insuportáveis botando o pé no freio, trazendo tudo para a estaca zero, para a paz ilusória do cotidiano, selada com um aperto de mãos tão frágil como tudo na vida. Fica a lição final que Tony Soprano nos ensinou: tem que ser macho para continuar acreditando que a vida vale a pena.

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