Arquivo X – Quarta Temporada

“Arquivo X” começou ainda meio ingênua na primeira temporada, perdeu a inocência na segunda, demonstrou seu potencial criativo na terceira e consagrou-se na quarta com picos de audiência que só iriam baixar uns três anos depois. Não só porque naquela altura a série já era cultuada, idolatrada e beatificada por muita gente, mas porque naquele ano ela se tornou mais madura e sofisticada – a promoção de Vince Gilligan de consultor criativo para co-produtor não deve ser mera coincidência. Ao lado de figurinhas carimbadas como Glen Morgan, James Wong, Frank Spotnitz, John Shiban e o dono da brincadeira Chris Carter, Gilligan fez miséria na quarta temporada.

Episódios como “O Campo Onde Morri” (roteiro da dupla Morgan & Wong), por exemplo, elevam a série a outro nível, um patamar bem superior às sci-fi tradicionais da TV. Nele, Mulder (David Duchovny) e Scully (Gillian Anderson) investigam um culto religioso suicida e o agente especial acaba entrando em contato com lembranças de suas vidas passadas.

“Meditações sobre um Canceroso”, escrito por Morgan e dirigido por Wong, foi um episódio à parte, de tom diferenciado e irônico, onde o pistoleiro solitário Frohike (Tom Braidwood) conta suas descobertas sobre o passado do Canceroso (William B. Davis). Segundo as fontes pouco confiáveis do paranóico locutor, o Canceroso é uma espécie de Forrest Gump do mal, tendo participação decisiva em momentos marcantes como os assassinatos de John Kennedy e Martin Luther King e até no Super Bowl. A influência de Gump é descarada: o Canceroso aparece sentado em um banco dizendo que a vida é como uma caixa de bombons.

Na sequência da mitologia sobre a conspiração alienígena, a quarta temporada começa abordando vacinação a polinização, passa por abelhas e clones e um acidente de avião bastante suspeito (“Lapso de Tempo”), Mulder e Krycek (Nicholas Lea) são feitos prisioneiros na Rússia (“A Pedra da Morte”) e surge uma nova informante, Marita Covarrubias (Laurie Holden, de “The Walking Dead”).

Mulder sofre com as táticas de desinformação – seria tudo uma grande cortina de fumaça para enganá-lo? – e a obsessiva busca pela irmã abduzida ganha novos ingredientes traumáticos, como o envolvimento de sua mãe com o Canceroso. Seria o vilão Darth Vader o verdadeiro pai de Fox Skywalker? Em diversas ocasiões a temporada dá indícios disso e deixa essa pulga atrás da orelha.

Para Scully, porém, o buraco é mais embaixo. Perdendo batalhas e fazendo sacrifícios em uma guerra que nem é dela, a agente descobre um câncer herdado pela abdução ocorrida lá na segunda temporada. Surpreendentemente, a descoberta se dá em um “episódio de monstro”, não da mitologia. O monstro no caso é Leonard Betts (episódio “O Homem do Câncer”), um mutante que se alimenta de câncer para se regenerar. O episódio começa despretensioso e termina com um violento soco no estômago.

Já a relação sempre reprimida entre Mulder e Scully ganha um fantástico episódio que ri de si mesmo, “Insignificâncias”, escrito por Gilligan. Ele começa com o nascimento de bebês com rabo e evolui para um mutante capaz de assumir a aparência dos outros. E é aí que o mutante tarado assume a aparência de Mulder para… seduzir Scully! Genial.

A temporada termina com um daqueles episódios duplos que deixam toda uma lista de perguntas sem respostas para o ano seguinte, coisa que hoje pode ser considerada batida, mas que causava pânico em infelizes como eu, que acompanhava a série pela Record e tinha que esperar meses para descobrir, por exemplo, se o Mulder ainda estava vivo. Como no final da segunda temporada, quando terminou enterrado em um container no deserto, nosso herói é dado como morto e ainda tem todo seu trabalho renegado por Scully diante de um comitê de homens engravatados do governo. Ou seja, ele morreu duas vezes, já que seu trabalho é mais importante que sua vida, todos sabemos.

Anote na agenda: no dia 10 de setembro, o piloto de “Arquivo X” comemora 20 anos de sua primeira exibição. De lá pra cá as Torres caíram, o Saddam caiu, o Bin Laden caiu, o Palmeiras caiu (2x), o mundo ficou mais cínico, mais paranóico e mais doente. Está cada vez mais difícil acreditar em alguma coisa, mas tem gente que ainda se surpreende ao descobrir, por exemplo, que a Casa Branca tem acesso aos nossos e-mails. Isso é sintoma da falta de “Arquivo X” na vida. Isso significa que, com exceção dos modelos de carros e celulares, a série continua atual, interessante e fascinante como sempre. #TrustNoO#DenyEverything #BelieveTheLie

3 comentários em “Arquivo X – Quarta Temporada

  1. Essa 4a temp é animal, pra mim a melhor de todas, mas adoooro a ingenuidade e o visual meio tosco da 1a. temp, a qual colocou muito bem o estranhamento inicial e o início de uma deliciosa e complicada parceria entre Mulder e Scully. Show inesquecível. Parabéns pelo texto!!!

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