Antes da Meia-Noite

Quando toda uma geração se apaixonou por “Antes do Amanhecer” (1994), ninguém sabia o que iria acontecer com o casal Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) depois daquela noite romântica em Viena. Nove anos mais tarde, tiramos a dúvida em “Antes do Pôr-do-Sol” (2004), que deixou outra questão no ar: eles realmente ficaram juntos dessa vez? Outros nove anos se passaram e temos “Antes da Meia-Noite”, que traz uma certeza: o verdadeiro romance deveria acabar nos letreiros finais. O que acontece depois deles pode não ser tão bonito assim.

Depois de se conhecerem em Viena aos 20 e poucos anos e se reencontrarem em Paris com pouco mais de 30, o norte-americano Jesse e a francesa Celine estão agora passando o verão na Grécia, encarando os 40 com duas filhas gêmeas na bagagem. O filho de Jesse com sua ex-mulher esteve com eles por algum tempo e é o estopim para uma crise conjugal daquelas bem desgastantes. Os diálogos enormes e os planos-sequência continuam lá, mas o terceiro filme da série de Richard Linklater, mais uma vez co-escrito pelos protagonistas, tem bem menos romance e muito mais DR.

É na DR (discussão de relacionamento, caso você não saiba) que “Antes da Meia-Noite” faz sentido. Porque as conversas prolixas do casal, dessa vez, não soam naturais como antes. Vamos recapitular: no primeiro filmes, eles estavam se conhecendo. No segundo, se reencontrando. Fazia sentido aquele papo todo. Depois de 9 anos juntos, não. Depois de 9 anos todas as apresentações já foram feitas. Todas as historinhas de infância e o modo de ver o mundo já foram contados.

O filme faz o possível para atrasar a DR incluindo alguns personagens gregos, inclusive um jovem casal que até lembra aqueles dois pombinhos dos anos 90. Mas é quando Jesse e Celine se encontram sozinhos que “Antes da Meia-Noite” mostra sua cara. Uma cara tão dura e fria que Julie Delpy passa um tempão seminua sem um pingo de sensualidade envolvida.

Quando o conflito explode, é gratificante notar que nossas especulações estavam certas: a ativista feminista Celine é mesmo bem xarope. Aquela imagem glamourosa da francesinha intelectual e idealista é destruída como num bom filme do Woody Allen. Junto com essa imagem, “Antes da Meia-Noite” destrói todo o romance construído nos filmes anteriores, o que o torna o filme mais amargo e realista da série. Outra diferença é que, mesmo com esse título, não há um prazo para que as decisões sejam tomadas. Não há um trem ou um avião de partida. A meia-noite representa o fim do conto de fadas.

Para toda uma geração que envelheceu junto com os personagens nos últimos 18 anos, é um tapa na cara. Então é isso aí que significa o “viveram felizes para sempre”, cinema?

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