A Escuta – Quinta Temporada

Atenção: evite o texto abaixo se você não viu a temporada anterior.

A quinta e última temporada de “The Wire” se resume no prólogo do primeiro episódio, quando o detetive Bunk (Wendell Pierce) e seus colegas do departamento de homicídios enganam um provável assassino em busca de uma confissão. Eles chegam a usar uma máquina de Xerox como polígrafo falso para iludir o meliante. Diante do sucesso da empreitada, Bunk declara: “quanto maior a mentira, mais eles acreditam”.

Poucas cenas depois, McNulty, de volta à ativa depois de um período exilado em patrulhas, é questionado por um colega mais jovem sobre algumas lendas a seu respeito, como aquela vez em que ele esteve infiltrado em um puteiro e acabou comendo uma puta durante o trabalho. “Você não devia acreditar em tudo que ouve por aí”, diz McNulty.

É uma grande mentira que conduz a trama desta temporada mais curta, com apenas 10 episódios. Não por acaso, depois de focar em diversas instituições públicas nos anos anteriores, este arco aborda a mídia. Mais especificamente, um jornal: o Baltimore Sun. O jornal está em crise, como todo o resto da cidade. A internet é um dos inimigos, não há mais espaço para os repórteres de antigamente como o editor Gus Haynes (Clark Johnson, também diretor na série). Temos “passaralho” e tudo mais na redação.

Muito parecido com o departamento de polícia, que está em frangalhos depois que o prefeito Tommy Carcetti (Aidan Gillen) destinou toda a verba para a educação. Nem viaturas decentes o pessoal tem. Neste cenário, Marlo Stansfield (Jamie Hector) reina tranquilo nas ruas, aumentando cada vez mais o seu império. Perto de Marlo, Avon Barksdale (Wood Harris) era um santo. Marlo não tem limites, ele encara o Proposition Joe (Robert F. Chew) e o Omar Little (Michael Kenneth Williams) sem medo. Marlo pertence a uma nova classe de criminosos.

A crise administrativa, no entanto, não é barreira para as ambições de McNulty (Dominic West), que volta a mexer os seus pauzinhos para sacudir o sistema e atingir fins que justifiquem seus meios. Faz parte do combo a volta às noitadas com bebidas e mulheres, porque encarar o sistema sóbrio é impossível. Para não estragar muito a surpresa, basta dizer que a ideia de McNulty para conseguir verba para o departamento consegue ser muito mais ousada e radical que a Hamsterdam de Bunny Colvin (Robert Wisdom), da terceira temporada.

Por falar em mentira, lá no alto escalão, o senador corrupto Clay Davis (Isiah Whitlock Jr.) tem que rebolar para fugir de um processo movido pela promotoria. O personagem é tão podre quanto engraçado, e é um representante do humor mais acentuado que aparece nessa temporada. Sua oratória populista é daquelas coisas de “The Wire” que deveriam ser estudadas na escola. Mas que grande filho da puta esse Davis.

É tudo uma grande mentira que resulta em outras mentiras e que abraça outras mentiras pelo caminho, em uma bola de neve aparentemente sem fim. Políticos, advogados, policiais e jornalistas, todo mundo é obrigado a sujar as mãos. Todo mundo esconde a sujeira debaixo do tapete, a não ser o ex-viciado Bubbles (Andre Royo), o mais desgraçado de toda a série, o que mais se revela e se expõe de verdade.

Diversos personagens de temporadas anteriores aparecem aqui e ali ou são mencionados no meio de uma conversa, de um jeito que você só nota se estiver atento. Da mesma forma, ciclos se repetem. Quando um personagem resolve abandonar seu papel na grande engrenagem da cidade, um outro logo assume seu lugar. Sempre existirão caras como Avon, Bubbles e Omar. Um garoto que consegue escapar das esquinas e se dá bem na vida é um ponto fora da curva. Um detetive genial como Lester (Clarke Peters) e outro maluco como McNulty, também.

Assim “The Wire” terminou por cima, fechando suas pontas sem demonstrar o menor sinal de desgaste, o que deveria ser um exemplo para todas as outras séries que simplesmente não sabem a hora de parar. Foram 5 temporadas que não tiveram nenhum sucesso de audiência, mas que encontraram seu público ao longo dos anos, pela internet, por meio de uma base de admiradores alucinados que se dedicam a divulgar a série para os amigos.

Descobri que existe essa categoria, “o chato do The Wire”, o cara que perde o controle e insiste para que todos ao seu redor vejam, vejam por favor, o que você está fazendo agora que não está vendo? Não dá pra evitar, porque é fato que o mundo seria um lugar melhor se todo mundo tivesse visto “The Wire”. Saberíamos como votar melhor, entenderíamos melhor o sistema, daríamos opiniões mais embasadas sobre as principais mazelas da sociedade no Facebook. No mínimo, compraríamos camisetas brancas XXG e faríamos o melhor cosplay do mundo nas esquinas da periferia.

Em outras palavras, não importa qual seja a sua série preferida do momento ou da vida toda, apenas aceite que THE WIRE É MELHOR.

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