Oblivion

Mesmo em franca decadência e já flertando com a fase Elvis Gordo de um popstar, quando as insanidades da vida privada se destacam mais do que as realizações da carreira artística, continuo achando o Tom Cruise um sujeito bacana que sabe reconhecer seu lugar na cultura pop. Você tem uma memória boa, lembra que ele cantou “You’ve lost that loving feeling” em “Top Gun”. É esse tipo de apelo que sempre aperece em seus personagens. Mesmo em uma ficção científica futurista pós-apocalíptica com visual de Wall-E, Tom Cruise consegue, com uma música do Led Zeppelin aqui, um boné dos Yankees ali e um bobble head do Elvis acolá estabelecer seu personagem em um contexto pop.

Em “Oblivion”, a sutil diferença é que ele chama o boneco do Elvis de “Bob”, porque lá no seu futuro desmemoriado ele talvez não saiba quem foi Elvis. O Rei foi apagado de sua memória e de sua identidade.

No filme, Tom Cruise é Jack Harper. Oficialmente, ele e sua companheira Victoria (Andrea Riseborough) são os únicos seres humanos que permanecem na Terra depois de uma invasão alienígena explodir metade da Lua e arrebentar com o nosso planeta. O que resta da humanidade permanece à deriva no espaço, esperando um planeta distante ficar habitável. O casal está fazendo a faxina final por aqui, com o apoio de drones (bem legais, diga-se) que eliminam qualquer ser nocivo que venha a aparecer no caminho. Nenhum dos dois tem memórias. Elas foram apagadas após a catástrofe global. Eles apenas conhecem sua missão e sua chefe distante, Sally (Melissa Leo).

Porém, Jack sente-se deslocado no tempo e no espaço. Ele tem sonhos e alucinações recorrentes envolvendo uma Nova York e uma moça (Olga Kurylenko) que ele nunca conheceu. O que não é um problema até o dia em que a tal moça despenca no planeta à bordo de uma nave com defeito. É aí que Jack vai começar a questionar sua identidade, seu passado, sua missão e seu modo de ver o mundo. Sobreviventes rebeldes inspirados em “Mad Max”, liderados por Morgan Freeman e Nikolaj Coster-Waldau (o Jaime Lannister de “Game of Thrones”), vão ajudar a botar mais minhoca em sua cabeça.

O roteiro de “Oblivion” foi baseado em uma graphic novel inédita do diretor Joseph Kosinski (de “Tron – O Legado”) e não apresenta muitas novidades na sua concepção. Tem muito de Philip K. Dick ali na confusão mental, um outro tanto de “2001” (o vilão), “Planeta dos Macacos” (Nova York em ruínas) e “Star Wars” (aquela batalha de naves no desfiladeiro), além da já mencionada pitada de “Wall-E” no visual futurista, sempre muito bem aproveitado pelos enquadramentos contemplativos do diretor – Kosinski sabe, o widescreen é importante. A sua abordagem à trama é que foge do padrão atual do gênero, dando tempo ao tempo para apresentar o dia a dia dos personagens antes de partir para a ação e para a resolução dos mistérios. Tom Cruise como um Wall-E reflexivo, quem diria?

Se faz sentido ou não, são outros quinhentos. É bem provável que não faça. Mas eu prefiro uma ficção científica que me deixa na dúvida do que uma que me dá a certeza de ser uma porcaria.

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