Arquivo X – Quinta Temporada

A quinta temporada de “Arquivo X” é uma verdadeira festa do terror e da ficção científica, uma Comic-Con de homenagens e participações especiais em 20 episódios. Afinal, que outra série se daria ao luxo de ter em sequência um episódio escrito por Stephen King e outro por William Gibson, mestres consagrados da literatura de terror e ficção, respectivamente?

King assinou “Feitiço”, um conto macabro sobre uma boneca possuída, enquanto Gibson desfilou seu cyberpunk em “Vivendo no Ciberespaço”, um ano antes de “Matrix” fingir que inventou alguma coisa. O prólogo é brilhante e mostra como um ex-colega de Bill Gates e Steve Jobs é presa fácil para uma inteligência artificial evoluída. A sequência que mostra Fox Mulder (David Duchovny) preso no ciberespaço enquanto é torturado por enfermeiras de filme pornô é uma das várias demonstrações da ousadia e da liberdade criativa que a série conquistou nesta temporada. É preciso deixar bem claro que, na segunda metade dos anos 90, Chris Carter e sua turma podiam fazer o que bem entendessem.

Assim, em matéria de horror, temos árvores diabólicas que arrastam suas vítimas para o subsolo, mutantes que defendem a natureza, uma moça cega (Lili Taylor) que só enxerga assassinatos e o retorno do serial killer “instigador”, Robert Modell (Robert Wisden). Mas o grande destaque fica por conta de um episódio estilizado em preto e branco que homenageia os monstros clássicos da Universal: “Prometeu Pós-Moderno” tem um tom de fábula que lembra Tim Burton e um personagem deformado, o Grande Mutato, que lembra o Homem-Elefante de David Lynch mas que curte mesmo é o Rocky Dennis de “Máscaras do Destino”. E por se identificar tanto com o personagem, ele ama demais a Cher, voz importante no episódio.

A quinta temporada tem outros episódios diferenciados não pela estética, mas pelo conteúdo: “Suspeitos Incomuns” volta no tempo para mostrar como os queridos Pistoleiros Solitários conheceram Mulder, enquanto “Simpatizantes” regressa ainda mais, até os anos 50, para mostrar a origem do Arquivo X em uma trama que materializa a analogia que explica toda a ficção científica daquela década, quando marcianos eram comunistas invadindo a América. O episódio fala de Macartismo e bebe na fonte do clássico “Os Invasores de Corpos” com direito a participação especial do pai de Mulder ainda jovem e do lendário Darren McGavin, astro de “Kolchak – Os Demônios da Noite”, uma das principais inspirações do “Arquivo X” segundo o próprio Chris Carter.

Na mitologia da conspiração alien, as coisas vão ficando cada vez mais complicadas. Logo nos primeiros episódios um traidor é desmascarado dentro do próprio FBI, o Canceroso (William B. Davis) entra em conflito com seus colegas do Sindicato, descobrimos que ele tem um filho (Jeffrey Spender, interpretado por Chris Owens) que também é agente do FBI, e é cada vez mais difícil compreender pra que lado Alex Krycek (Nicholas Lea) trabalha – ou está trabalhando no momento. Aprendemos que duas raças alienígenas podem estar em guerra enquanto os conspiradores humanos buscam uma vacina para o óleo negro que há de dominar a Terra dali a 15 anos – porque “Arquivo X” já falava do fim do mundo em 2012 antes de virar modinha. Apesar de ver seu câncer regredindo, Dana Scully (Gillian Anderson) é quem mais tem a perder nessa história toda, chegando a descobrir uma filha criada em laboratório, a pequena Emily, que não deveria existir.

O que é mais significativo em meio a tantas viradas de mesa nos altos escalões conspiratórios é que Mulder e Scully por diversas vezes trocam de lugar durante a temporada. Cansado de ser feito de trouxa, Mulder está cada vez mais cético, enquanto Scully se agarra à fé cristã para aguentar doenças, crises existenciais e familiares e até uma guerra entre o céu e o inferno no bom episódio “O Serafim”. A relação entre os dois protagonistas é sempre uma gangorra de fé contra ciência, não importa mais de que lado cada um está.

A ironia é que, em “Paciente X”, Mulder se torna o chato cético diante de uma plateia que quer acreditar em tudo. Ou seja, mesmo mudando de lado, ninguém acredita nele. A tal Paciente X é Cassandra Spender, mãe de Jeffrey, um exemplo de fé cega que agora, diante dos olhos de Mulder, está mais para aquela ufologia de auto-ajuda esotérica que suja o nome da categoria em programas de auditório. Cassandra é vivida por Veronica Cartwright, que não só esteve na versão anos 70 de “Os Invasores de Corpos” como também foi uma das vítimas do primeiro “Alien”. Mais um casting preciso.

Em meio a tantos nomes já consagrados no cinema, na TV e na literatura, devemos ainda destacar o talento do então jovem e promissor Vince Gilligan, nosso amigo que, hoje, dispensa apresentações. Porque são dele dois dos episódios mais inspirados desta temporada: em “Vampiros”, ele retoma um recurso já usado na terceira temporada no episódio “Do Espaço Sideral” de Darin Morgan, ao mostrar com bom humor as diferentes versões de uma mesma história. É sobre não acreditar fielmente no que se escuta, sobre saber que é tudo muito relativo, mas ter a consciência de que tudo, por mais absurdo e fantasioso que seja, parte de uma verdade. Há uma razão para que Gilligan insista nesse tema: é quase um guia sobre como encarar “Arquivo X”.

O outro episódio dele é “Loucura Coletiva”, onde um funcionário de telemarketing tem certeza absoluta de que seu chefe é um monstro que está transformando seus colegas em zumbis. Associar funcionários de uma empresa de telemarketing a zumbis deve ser a coisa mais genial que já fizeram sobre o assunto desde que Romero infestou um shopping center com eles. Mas não é só isso, o episódio ainda guarda muitas reviravoltas e se desenrola de maneira espetacular para se tornar um dos melhores de toda a série.

O último episódio do quinto ano resgata todos os personagens importantes da mitologia e apresenta um dos mais bacanas: Gibson Praise (Jeff Gulka), o garotinho capaz de ler mentes. Sua participação ainda é um prólogo para voos maiores nas próximas temporadas, assim como o encerramento marcante do episódio é um grande gancho para “Arquivo X – O Filme”, lançado entre a quinta e a sexta temporadas.

O status da revisão permanece o mesmo até aqui: ainda há motivos de sobra para se ver (ou se rever) “Arquivo X”.

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