Arquivo X – Sexta Temporada

Lançado em 1998, “Arquivo X: O Filme” fez a ponte entre a quinta e a sexta temporadas e veio recheado de acontecimentos importantes para a mitologia alienígena. O filme é ótimo enquanto permanece no terreno da paranóia, com direito a Martin Landau como informante misterioso, abelhas geneticamente modificadas e um alien predador com milhares de anos matando geral. Mas escorrega feio quando parte para a ação grandiosa no clímax. Sem sutilezas, a atmosfera de conspiração governamental dá lugar a uma sequência meio “Aliens – O Resgate” com Mulder (David Duchovny) invadindo uma nave gigantesca para salvar Scully (Gillian Anderson). Com a necessidade de expandir seus horizontes na tela grande, a turma do Chris Carter deu o famoso passo maior que a perna.

A ambição do filme respinga no começo da sexta temporada, com um episódio bem fraco da mitologia, o que é algo raro. Foi preciso reduzir a velocidade e a pretensão e voltar ao low profile da TV, recolocando a série nos trilhos com o retorno de personagens secundários que não estiveram na tela grande: Jeffrey Spender (Chris Owens) e Diana Fowley (Mimi Rogers), o novo casal responsável pelo Arquivo X, e Gibson Praise (Jeff Gulka), o garotinho muito especial que vive perdido no mundo. Há um novo diretor assistente, Kersh (James Pickens Jr.). Mulder e Scully estão exilados em serviços idiotas no bureau. No final da quinta temporada, é bom lembrar, o escritório de Mulder foi destruído por um incêndio criminoso. Neste recomeço, ele recupera documentos importantes colando pedacinhos de cinzas, reconstruindo um por um os arquivos X de modo que nem MacGyver conseguiria.

A estreia no cinema mudou definitivamente a cara da série: a produção deixou a fria Vancouver, no Canadá, e passou para a ensolarada Los Angeles. Coincidência ou não, a série ficou menos sóbria e menos sombria a partir dali. Por outro lado, em Hollywood a série encontrou novas perspectivas, novas locações e uma variedade muito maior de atores. Ao longo da temporada aparecem nomes como Lily Tomlin, uma fantasma assombrando uma mansão no Natal, e o grande Bruce Campbell como o próprio capeta em um divertido episódio inspirado em “O Bebê de Rosemary”. A cena do diabo ouvindo Garbage em um conversível entra para a galeria de grandes momentos pop de “Arquivo X”.

No papel de Arthur Dales, o criador do departamento mais esquisito do FBI, o veterano Darren McGavin retorna em um episódio fraco sobre monstros marinhos na Flórida. Mais adiante ele é citado novamente de maneira toda torta: em “O Antinatural”, nostálgica e simpática declaração de amor ao beisebol dirigida e escrita por Duchovny, Dales deveria contar a história de um antigo jogador negro do The Roswell Grays (melhor nome de time) que na verdade era um alienígena disfarçado. Porém, McGavin adoeceu durante as filmagens e teve que ser substituído por M. Emmet Walsh, interpretando o irmão de Dales que também se chama Arthur. Confuso? Para piorar, Mulder recebe com surpresa a notícia de que o outro Arthur se mudou para a Flórida, algo que nós já sabíamos graças ao tal episódio ruim exibido anteriormente. Que lambança.

Por falar em grandes nomes da TV, Bryan Cranston ainda não era ninguém naquela época, mas hoje ele dá um charme todo especial ao episódio “Dirija!”. Trata-se de uma espécie de “Vanishing Point” no qual Mulder deve dirigir em alta velocidade pelas estradas norte-americanas para evitar que a cabeça do seu passageiro, o Mr. White, exploda. O episódio foi escrito por Vince Gilligan, autor de todos os episódios fora da mitologia que merecem atenção especial, como aquele do fotógrafo imortal que prevê a morte dos outros e um bem “Feitiço do Tempo” onde um assalto a banco com final trágico se repete todo dia na vida de uma moça.

Não sei você, mas eu me emociono ao descobrir que Gilligan e Cranston já brincavam juntos 10 anos antes de “Breaking Bad”.

Nos extras do DVD, Gilligan revela que a inspiração maior para os temas da série sempre foi “Além da Imaginação”. Com o padrão “episódio de monstro X mitologia” já beirando o desgaste, temas mais fantásticos e menos científicos envolvendo dimensões paralelas passam a fazer parte do ciclo normal da série. O exemplo maior é o extravagante “Triângulo”, sobre o Triângulo das Bermudas, que coloca Mulder em um navio durante a Segunda Guerra. O episódio foi filmado em planos-sequência e traz vários personagens da série em outros papéis. Ali, naquele outro mundo, Mulder finalmente beija Scully – ou uma versão dela.

O que nos leva ao elemento mais irritante da sexta temporada que é essa pressão pelo primeiro beijo do casal. Quase aconteceu no filme, mas aquela maldita abelha não permitiu. O assunto tornou-se tabu, virou motivo de intenso debate entre fãs a ponto de tornar o tal beijo mais importante que a existência de vida extraterrestre. Podemos chamar de uma mitologia à parte. Acha exagero? Mais de 15 anos depois, a Gillian Anderson mandou um “oi” para o David Duchovny no Twitter e teve gente chorando.

O problema é que o tabu virou piada interna e está presente em quase todos os episódios deste ano, de uma forma ou de outra. No duplo “Terra dos Sonhos”, Mulder troca de corpo com um agente da Área 51 (o canastrão Michael McKean) que se aproveita da situação para ir aonde nenhum Mulder jamais esteve, ou quase. Enquanto eles fazem graça com isso, assuntos bacanas como a Área 51 e os homens de preto são desperdiçados. Em “Dança da Chuva”, uma história de amor platônico e meteorológico, temos até um baile de formandos para Mulder e Scully dançarem. Em “Arcadia”, grande tapa na cara da classe média conservadora americana, eles brincam de casinha infiltrados em um condomínio fechado com regras muito rígidas. Em “Milagro”, o escritor interpretado por John Hawkes se apaixona por Scully mas descobre que ela já está apaixonada por outro.

No mesmo episódio, uma curiosidade: um jornal fictício antecipa o logo da banda Muse, que surgia na mesma época. Coincidência? Fãs de “Arquivo X” não acreditam em coincidências. Basta bater o olho nas letras da banda pra constatar que o nerd Matt Bellamy deve mesmo ser fã de “Arquivo X”.

No âmbito mitológico, o episódio duplo “Dois Pais”/”Um Filho” praticamente zera a conspiração envolvendo o Sindicato, os aliens colonizadores e os rebeldes. Até o Chris Carter assume que estava tudo confuso demais, precisando de um reboot. O extermínio a la George R.R. Martin de todo um núcleo da trama resolve esse problema. Também aprendemos que o nome do Canceroso (William B. David) é C.G.B. Spender e o resto da família Spender, Cassandra (Veronica Cartwright) e Jeffrey, encontra seu destino sem que ninguém questione mais nada nos episódios posteriores. O Arquivo X volta para Mulder e Scully. Mais adiante Mulder ganha um novo poster “I want to believe” de uma fã da internet (sério) e o ciclo de reconstrução se completa.

A mitologia retorna renovada no último episódio da temporada, “Biogênese”, com Mulder e Scully descobrindo trechos da bíblia e do genoma humano em um artefato extraterrestre. Se o monólogo de Scully mistura teologia, “Cosmos” e “Eram os Deuses Astronautas?”, é porque para Chris Carter não existe muita diferença entre a busca por Deus e pela vida extraterrestre. Tudo sempre foi uma questão de querer acreditar, afinal.

5 comentários em “Arquivo X – Sexta Temporada

  1. Assisti à sexta temporada com uns cinco ou seis anos de atraso, talvez até um pouco mais. Em compensação, assisti em DVD, o que proporciona uma linearidade que você dificilmente conseguia na Fox em 1998. Em 1998, aliás, eu já assistia à série, mas, justamente devido a essa falta de linearidade, não conseguia entender muita coisa da mitologia, pois a emissora misturava a primeira e a quinta temporadas sem nenhum pudor. Foi por isso que não assisti ao filme no cinema, embora eu tenha guardado, até hoje, o anúncio de página inteira que o anunciou no Estadão. Só fui assistir ao filme depois de assistir à quinta temporada no DVD.Como já faz quase dez anos que assisti à sexta temporada, não me lembro de grandes detalhes, mas lembro-me de que gostei muito da primeira metade. Inclusive, o episódio de que mais me lembro é o \”Terra dos Sonhos\”, que não ganhou uma resenha muito favorável alguns parágrafos acima. hehehehehehe Mas, até pelo que li acima, parece que a minha impressão sobre a temporada em si foi favorável muito mais pelos episódios que não pertenciam à mitologia do que pelos que pertenciam. E, para mim, os episódios de mitologia das duas — talvez três — primeiras temporadas são incomparáveis.De qualquer maneira, após o texto acima, fiquei com vontade de dar uma repassada na sexta temporada. Acho até que o farei antes de terminar de assistir à nona temporada, que eu nem iria assistir, mas ganhei de presente, comecei a assistir há ALGUNS ANOS e ainda não terminei! 🙂

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  2. Eu também achava que a confusão da mitologia era culpa da Record ou da Fox, mas agora que tô vendo na ordem certinha em DVD continua tudo bem confuso. E nos extras do DVD um dos roteiristas meio que confirma isso, que perderam a mão mesmo.Vc lembra de uma lojinha nerd chamada Memorabilia na Humberto I perto da ESPM? Cansei de comprar card do Arquivo X lá. hehehe

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  3. Era complicado, mesmo, mas a ordem em que eles passavam complicava ainda mais. O último episódio da primeira temporada, por exemplo, eu tinha certeza que fazia parte do fim da terceira ou do início da quarta. Imagine a surpresa quando o encontrei no DVD!Sobre a loja, lembro vagamente, e posso talvez estar confundindo com alguma outra coisa. E olha que eu andava a Humberto I quase inteira o tempo todo, porque minhas tias moravam perto da esquina da Humberto I com a Rodrigues Alves.

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  4. E tinha aqueles episódios da mitologia que eles lançavam em VHS e vc acabava assistindo fora de ordem tb. Bagunça.O dono da loja parecia um dos Pistoleiros Solitários. Ele fazia mapas de mundos paralelos e sabia falar klingon.

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  5. tô revendo pela netflix. para eu q acompanhava pela record, percebo várias lacunas, inclusive episódios inéditos. acho q eles não compravam o direito de retransmitir todos os episódios da temporada. dá raiva pensar noq essas emissoras da tv aberta fizeram.

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