Garota Exemplar

Os pais da Amy (Rosamund Pike) criaram uma personagem infantil baseada na filha, a Amy Exemplar, e fizeram muito sucesso com ela. Meio como a nossa Mônica, filha do Mauricio de Sousa. Em uma breve cena de “Garota Exemplar” que quase passa despercebida, Amy explica que a personagem costuma preencher as lacunas que ela deixa na vida real. Por exemplo, se a Amy desiste de aprender a tocar um instrumento, a Amy Exemplar segue em frente tornando-se virtuosa naquilo. A Amy Exemplar não tem defeitos e é amada pelo público. A Amy de carne e osso se esforça para corresponder às expectativas de sua versão ilustrada. Mas quem é a Amy de verdade?

Amy agora está casada com Nick (Ben Affleck). Ambos escritores, eles abandonaram uma vida bacana em Nova York e se mudaram para o interior por motivos familiares dele. O casal está vivendo uma crise, até o dia em que Amy desaparece. Só que Nick não parece estar muito chocado com o sumiço da esposa e a polícia começa a desconfiar. Como a moça é uma celebridade, a mídia acompanha a investigação de perto tirando suas próprias e equivocadas conclusões.

David Fincher brinca com a ambiguidade do tema desde a primeira cena, quando Nick está acariciando os cabelos de Amy e solta uma declaração de amor que também pode soar como confissão de culpa. E então o filme avança e retrocede em flashbacks que bagunçam a percepção da realidade até um ponto de virada realmente virar tudo de cabeça para baixo. O sujeito tem que ser muito bom para conduzir uma trama com essa estrutura sem perder o fio da meada. O Fincher desta fase de cineasta maduro não precisa mais de grandes floreios estéticos para demonstrar seu talento: agora é na estrutura narrativa que ele procura arrebentar a sua mente. Perto de “Garota Exemplar”, a esquizofrenia de “Clube da Luta” virou psicologia mirim.

Outros trabalhos do diretor são lembrados durante o processo: a paranoia com segurança de “O Quarto do Pânico”, a investigação-espetáculo do “Zodíaco”, a manipulação da mídia de “House of Cards”, as novas interações de “A Rede Social”, a força feminina de “Alien 3” e da Lisbeth Salander, as ilusões de “Vidas em Jogo”. Podemos dizer que o diretor de videoclipes virou autor?

No admirável mundo novo que Fincher consegue escancarar como poucos, o suspeito deve dar satisfação para a mídia, deixando a justiça em segundo plano. O advogado de Nick, interpretado por Tyler Perry, é um desses consultores de programa de fofoca da TV. Ele faz a ponte entre a mídia e a justiça, focando no que mais importa: a opinião pública. Depois que ele surge em cena, a dupla de investigadores (Kim Dickens de “Treme” e Patrick Fugit de “Quase Famosos”) torna-se mero elemento cenográfico. Eles não importam mais, só estão ali pra preencher o boletim de ocorrência. É quando “Garota Exemplar” deixa de ser um filme sobre investigação criminal e mostra sua verdadeira face: um tratado sobre as aparências.

Por isso “Garota Exemplar” pode ser descrito como “Um Corpo Que Cai” da era do culto às celebridades, da selfie no velório, da casa cheia de falsa segurança e de tecnologia inútil que abriga um personagem patético (Neil Patrick Harris) capaz de enxergar apenas o mundo que lhe agrada. Inclusive em algumas cenas Rosamund Pike está bem parecida com a Kim Novak, não deve ser por acaso. Todo mundo lá ou aqui, na TV ou na sua rede social preferida, é de mentira. Um personagem baseado em si mesmo, feito sob medida para agradar um público específico.

PS: Não há relação nenhuma, mas é impossível não se lembrar de “Procura-se Amy”, filme do Kevin Smith em que o Ben Affleck escrevia uma HQ com esse título.

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