Interestelar

Nenhum filme é comparado a “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e sai impune. Se o mundo fosse mais honesto, teria comparado a nova ficção científica metafísico-espacial de Christopher Nolan aos mais modestos “Contato” – na relação familiar que ultrapassa as fronteiras do mundo como o conhecemos – e “Missão: Marte” – na exploração espacial com final esdrúxulo que coloca tudo a perder. Do Kubrick vamos aproveitar apenas o layout do monolito, aqui transformado em um robô com senso de humor, uma espécie de HAL 9000 que faz stand-up.

“Interestelar” abre com o plano de uma estante de livros (você está prestando atenção?) e revela um futuro próximo no qual o planeta Terra está mandando a humanidade embora. A família de Cooper (Matthew McConaughey), ex-piloto da NASA e atual fazendeiro, sobrevive como pode naquela poeira toda, mas é preciso buscar novas alternativas em outras galáxias. Então o filme começa caseiro e parte em uma aventura espacial de objetivo grandioso, sempre tendo em mente o sonho de voltar para casa.

Na intimidade do lar, o que cativa é a relação de Cooper com a filha Murph (Mackenzie Foy criança, Jessica Chastain adulta e Ellen Burstyn idosa). Uma vez fora de casa, o roteiro dos irmãos Nolan sai atirando teoria da relatividade, teoria das cordas e conceitos de dobras espaciais daquele jeitinho expositivo extremo que é marca registrada da dupla. Isso proporciona toda aquela confusão no espaço/tempo que fundiu a cabeça dos sonhadores de “A Origem”, o que rende bons momentos (todo o envelhecimento desalinhado da família Cooper) e outros um tanto quanto constrangedores (o astronauta que passa 23 anos sozinho esperando os colegas completarem uma missão de meia hora e, beleza, aproveita para estudar).

O mesmo astronauta (David Oyelowo) é responsável por outra cena embaraçosa na qual deve explicar a Cooper (e à parte da plateia que nunca viu ou leu nada de ficção científica até hoje) como funcionam os buracos negros, como se esse conhecimento prévio não fizesse parte do job description do piloto da nave cuja missão é atravessar um buraco negro. Nem “Prometheus” desceu tão baixo. E quando não há dois personagens em cena para um explicar as coisas para o outro, o roteiro inventa formas de comunicação multidimensional porque, lógico, a aula de astrofísica não pode parar.

Enquanto os Nolan demonstram toda sua nerdice – e eu espero que já existam muitos fóruns listando erros de conceitos científicos por aí –, a equipe técnica capricha nas cenas de travessia do buraco negro que justiticam o investimento em um ingresso de IMAX. A tela gigante engole a plateia e a sala toda treme, seja pelos efeitos sonoros, seja por mais uma bela trilha de Hans Zimmer. E nem precisou ser 3D.

Se depois de “True Detective” e do Oscar de melhor ator o Matthew McConaughey já não surpreende tanto assim em suas tantas cenas de choro, o filme tem um galeria respeitável de coadjuvantes como John Lithgow, Topher Grace, Matt Damon, Wes Bentley, Casey Affleck e o tradicional Michael Caine da auto-ajuda, figurinha carimbada da obra de Nolan. A Amelia de Anne Hathaway, suposto interesse romântico do protagonista, é responsável pelo discurso mais cafona do ano, dissertando sobre a força do amor no meio de uma missão espacial responsável pelo futuro da humanidade. Nem “Armageddon” desceu tão baixo. Ou talvez tenha descido, não me lembro agora. Fato é que os personagens não seguram a onda e permanecem o tempo todo perdidos no conflito amor X ciência. Até os cientistas mais frios, racionais e geniais podem mudar de lado a qualquer momento.

A bela lição que fica não é a do amor sem fronteiras, até porque a declaração romântica de Amelia é descartada com a mesma facilidade com que são encarados os 23 anos de solidão do colega. “Interestelar” é, no fundo, um tratado sobre a importância da educação familiar. A biblioteca dos Cooper é a representação do lar, da sabedoria, da comunicação e da educação. Isso sim pode salvar a humanidade.

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