Boyhood – Da Infância à Juventude

12 anos de filmagem acompanhando o crescimento do garoto Mason (Ellar Coltrane), como explica o desnecessário subtítulo brasileiro, da infância à juventude. “Boyhood” deve ser o primeiro filme da história a ter o seu making of usado como slogan, além, é claro, de ser pioneiro no ousado conceito.

Muita gente vem comparando a trajetória de Mason à de Antoine Doinel, que Truffaut filmou crescer durante 5 filmes e 20 anos. O próprio Linklater já fez algo parecido com a trilogia iniciada em “Antes do Amanhecer” e retomada a cada 10 anos. E todos nós estamos acostumados a acompanhar personagens envelhecendo nas séries que duram várias temporadas.

“Boyhood” é diferente por condensar esse crescimento em um filme só. Ao acompanhar uma série, por exemplo, nós envelhecemos junto com os personagens. Dessa vez, não. Dessa vez, nós vemos Mason e o ator Ellar Coltrane crescendo diante de nossos olhos. São pequenos episódios onde a passagem de tempo é suave, às vezes imperceptível, e personagens somem sem dar satisfação – por exemplo, os bullys da escola. Porque a vida é assim mesmo, não é todo mundo que passa por ela que é capaz de deixar uma marca.

A irmã Samantha (Lorelei Linklater) é a companhia constante enquanto a mãe solteira (Patricia Arquette) se mete em vários relacionamentos falidos e o paizão liberal (Ethan Hawke) aparece de vez em quando para dar os melhores conselhos, aqueles que só quem tem o devido distanciamento do cotidiano é capaz de dar. Obviamente, não é só Mason que envelhece. Patricia Arquette vai da gracinha do cinema alternativo à maturidade que vimos em “Boardwalk Empire” e Ethan Hawke, bem, nós já vimos ele envelhecendo ao lado de Julie Delpy. Todos estão totalmente à vontade nos papéis que desempenharam por tanto tempo.

Linklater é bem esperto ao juntar política e referências culturais em cada etapa da vida de Mason. A trilha sonora é uma jornada à parte que começa nos lembrando que o Coldplay já foi bom e capricha nas músicas que falam sobre o tema do filme, como “Do You Realize?” dos Flaming Lips. Games, programas de TV, redes sociais e Harry Potter também fazem parte desse posicionamento na linha do tempo, além das tradicionais angústias filosóficas que o cineasta costuma incluir nos seus filmes.

Outra esperteza foi incluir a própria filha, Lorelei, como irmã do protagonista. Se você ainda perceber que há uma música do Tweedy (o dueto de Jeff Tweedy do Wilco com seu filho) na trilha, a metalinguagem faz ainda mais sentido. Ninguém está ficando mais jovem. Dependendo da sua idade, você pode se identificar com os pais, com os filhos, ou com aquele velho clichê: a sua própria vida passando diante dos seus olhos.

“Boyhood” é uma proeza de concepção e de unidade, mantendo a coerência como se tivesse sido filmado de uma só vez no mês passado. E o melhor: como vários outros trabalhos de Linklater, certamente vai proporcionar novas percepções em futuras revisões. Desde “Anos Incríveis” o crescimento de um menino não era tratado com tanta sensibilidade.

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