Electric Boogaloo: The Wild, Untold Story of Cannon Films

Para quem cresceu nos anos 80 e se apaixonou pela arte cinematográfica frequentando locadoras de VHS, a Cannon Films era mais importante do que qualquer nouvelle vague. A companhia criada pelos primos israelenses Menahem Golan e Yoram Globus era sinônimo de filmes exploitation com muitos tiros, peitos, roundhouse kicks, sangue, peitos, pancadaria, humor, peitos e cópias descaradas e de baixo orçamento de grandes sucessos hollywoodianos. Lançado em VHS por aqui pela saudosa América Vídeo, o catálogo da Cannon foi o mais próximo que eu, nascido no interior de São Paulo no final dos anos 70, tive do padrão Grindhouse de cinema.

O documentário “Electric Boogaloo” é uma senhora homenagem à Cannon, à dupla Golan-Globus e também a esse lado B do cinema que, do seu jeitinho todo especial, movimentou a indústria e deu emprego a nomes como Chuck Norris, Sharon Stone e Jean-Claude Van Damme. Diretores, roteiristas e atores relembram os grandes momentos da Cannon com um mix de orgulho e vergonha, como quem recorda uma bebedeira divertida que passou da conta e deixou de legado uma ressaca monstro. É tudo muito comovente.

Fica claro que Menahem Golan, falecido no ano passado, era um daqueles visionários picaretas com mais cara de pau do que talento artístico, embora fosse reconhecido no mercado como um grande vendedor. Em imagens de arquivo ele fala de cinema como aquele seu tio que joga na Mega Sena toda semana e tem altos planos empreendedores para quando ficar rico.

Jamais ganhou um Oscar, embora sonhasse com isso. Jamais se sentou na mesma mesa que os George Clooneys da alta sociedade de Hollywood, embora tenha produzido grandes filmes como “Expresso para o Inferno”, trabalhado com grandes cineastas como Godard (!?) e com grandes astros como Charles Bronson, Sylvester Stallone e Christopher Reeve, quando sepultou a franquia “Superman”. Melancolicamente, essa fase de grandes salários acabou matando também a própria Cannon.

Golan tinha aquele brilho nos olhos como Ed Wood, Roger Corman e outros gênios que costumam ser ignorados nas aulas da ECA. E ainda consegue ser mais subestimado que todos eles. Ninguém se importa com Menahem Golan. Quando ele morreu, ninguém baixou sua discografia. Toda uma geração que faz meme do Chuck Norris sem jamais ter visto um filme dele nunca ouviu falar de Golan. Toda essa gente que adora ver Robert Rodriguez e Quentin Tarantino brincando de trash e sustenta a franquia “Os Mercenários” não sabe que deveria acender uma vela para a Cannon Films todo dia. “Electric Boogaloo” vai corrigir essa injustiça histórica? Claro que não. Certos ícones serão underdogs para sempre, faz parte da sua magia.

O motivo de não haver entrevistas recentes com Golan-Globus no documentário é uma típica picaretagem da dupla: quando souberam da existência dele, resolveram produzir eles mesmos uma versão “oficial” dos fatos: “The Go-Go Boys: The Inside Story of Cannon Films”. Se é melhor ou pior que “Electric Boogaloo”, pouco importa. Seguindo a tradição Golan-Globus, quanto mais filmes, melhor.

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