Arquivo X – Sétima Temporada

A sétima temporada de “Arquivo X”, marcada pela virada do milênio, foi onde tudo desandou de vez. Conflitos de egos, relatos de brigas entre David Duchovny e Gillian Anderson, esgotamento de temas, enfraquecimento da mitologia e uma sensação de que todos estavam tão de saco cheio que resolveram aproveitar o fim da festa para chutar o balde de vez. Os astros até ganharam um episódio cada para escrever, dirigir e desenvolver novos talentos, enquanto os capítulos isolados continuaram dependendo da criatividade de Vince Gilligan para brilhar.

Dois episódios dele merecem destaque: em “X-Cops”, Mulder e Scully aparecem em plena gravação do programa “Cops” com direito a câmera em primeira pessoa, imagem de TV, planos-sequência e aqueles jargões policiais que todos nós adoramos. Trata-se de um estudo sobre o medo, com diversos monstros aterrorizando (ou não) um bairro da periferia, o que faz do episódio uma espécie de “A Bruxa de Blair” – ou demais obras do subgênero found footage – com capacidade de rir de si mesmo.

Outro trabalho brilhante de Gilligan é o penúltimo episódio sobre uma gênia que concede os famosos três desejos a dois irmãos burros demais para pedirem a coisa certa. Um dos episódios mais engraçados de toda a série, ele testa os limites do absurdo e mais uma vez coloca “Arquivo X” em um território bem distante da ficção científica e totalmente próximo a “Além da Imaginação”. A curiosidade fica por conta do roteiro com menções à química e à metanfetamina 8 anos antes de “Breaking Bad” fazer isso tudo ficar na moda. Outra curiosidade é a presença de Michelle MacLaren, futura colaboradora de “Breaking Bad” e “Game of Thrones”, na equipe de produção desta temporada.

Como nem só de Vince Gilligan vive “Arquivo X”, o consagrado escritor William Gibson entrega seu segundo episódio para a série, dessa vez sobre um game de realidade virtual fora de controle que transforma Mulder e Scully em guerrilheiros cyberpunks. Já no episódio escrito e dirigido por Gillian Anderson, o mais esotérico da série, fica evidente que a lenda é verdadeira: na vida real, ela acredita em tudo e Duchovny é o cético. Seu episódio trata com sensibilidade aquele tema clássico: a vida é feita de escolhas.

O episódio de Duchovny reflete seu senso de humor cínico e é uma palhaçada só. Trata-se de uma sátira a Hollywood e ao próprio sucesso de “Arquivo X” com uma versão bizonha de Mulder e Scully no cinema, interpretados por Garry Shandling e Tea Leoni, esposa de Duchonvy na vida real. Um roteirista hollywoodiano retratado como um idiota deslumbrado define o casal como uma espécie de “Harrison Ford em A Testemunha” com “uma jovem Jodie Foster”, o que é bem preciso. A autoparódia e a metalinguagem atingem o topo na cena em que Mulder, Scully e Skinner (Mitch Pileggi) conversam por telefone, cada um em sua luxuosa banheira de hotel em Los Angeles – uma brincadeira óbvia com o status de supestars que todos desfrutavam na época. O episódio ainda lida com temas bíblicos, um pós-Indiana Jones e um pré-Código Da Vinci ao mesmo tempo.

Se os autores especiais garantem o interesse em alguns episódios isolados (tem até um escrito pelo Canceroso William B. Davis), na chamada Mitologia Alien de Chris Carter pouca coisa se destaca. A abertura da temporada já demonstra o desgaste do tema. Mais uma vez temos Mulder à beira da morte. O Canceroso revela ser seu pai, algo que todos já desconfiavam, e o que era para ser o final de “O Império Contra-Ataca” acaba soterrado no meio das demais desconfianças da série – afinal, ninguém fala a verdade por ali. A cruzada de Mulder em busca da irmã abduzida também encontra um encerramento lá pela metade da temporada, mas não dá pra saber se é definitivo. Os inúmeros clones de Samantha Mulder já mostrados até então justificam essa pulga atrás da orelha.

O começo da temporada segue fraco até o comovente crossover com a outra série de Chris Carter, “Millennium”, que havia terminado naquele ano. No episódio, Mulder e Scully contam com a ajuda de Frank Black (Lance Henriksen) em uma investigação e, em plena virada do milênio, o casal enfim se beija – algo bem antecipado na temporada anterior. Mais importante que o beijo é a lembrança de que “Millennium” foi uma baita série e merece uma segunda chance por parte da humanidade. Por favor, Netflix.

Importante destacar que “Arquivo X” escancarou seu esgotamento criativo na sétima temporada, mas sempre fugiu das soluções fáceis. O romance entre Mulder e Scully é sugerido durante a temporada inteira, temos várias cenas de puro amor e ternura, mas nunca o relacionamento chega às vias de fato. E lá pro final a série entrega os pontos e diz “está na hora de parar” na voz de Fox Mulder, que encontra seu tão aguardado destino “Contatos Imediatos do 3º Grau” no bombástico season finale cheio de surpresas, com direito a Skinner, Alex Krycek (Nicholas Lea), Marita Covarrubias (Laurie Holden) e os Pistoleiros Solitários dividindo o mesmo enquadramento. Esse episódio, “Requiem”, bem poderia encerrar a série de maneira digna. Infelizmente, ele só prepara o terreno para a chegada de Robert Patrick e das duas derradeiras temporadas.

Foi o começo do fim. Mas como em “Arquivo X” nada é definitivo, tudo indica que a série vai voltar em breve. Pode dar tudo errado, mas não custa nada acreditar. Já colamos a fita adesiva em X na janela.

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