Solidão e música ruim

Dean Stockwell em Veludo Azul
Dean Stockwell canta Roy Orbison em Veludo Azul

O Coconut Brasil deve ser o lugar mais bizarro de São Paulo e a concorrência por aqui, você sabe, é bem forte. Essa cidade maldita tem atração de todo tipo pra todo mundo a qualquer hora e o Coconut atua em um limbo difícil de se definir. Muitos lugares afetadinhos tentam emular um charme cafona que o Coconut tem naturalmente, sem nenhum esforço, apenas sendo o que é: um complexo de salas de videokê com um restaurante junto.

A Rua Canuto do Val é uma dimensão paralela. Ali o Coconut divide calçada com seus estabelecimentos irmãos, todos da mesma dona, a filha do grande Nelson Gonçalves — o que por si só já deveria render ao Coconut o status de cult. Para completar, lá dentro também tem uma Sala Hebe Camargo e uma Sala Thammy Gretchen. A primeira infelizmente já partiu dessa pra melhor, mas a segunda pode ser vista se divertindo no local com frequência.

O Coconut se define como “videokê & espetinho”, uma combinação irresistível de arte e gastronomia, dois pilares da cosmopolita noite paulistana. A tecnologia dos videokês deixa tanto a desejar quanto a qualidade da carne, os microfones nem sempre funcionam, os funcionários da casa às vezes abandonam a sala e deixam você mesmo cuidando de tudo e tá tudo bem. Pelo menos a cerveja é Stella Artois.

O lugar poderia ser qualificado como decadente se um dia tivesse encontrado seu auge, mas desconfio que o Coconut nasceu assim e vai morrer assim. Meu maior medo é a juventude hipster descobrir essa pérola, rotular de trash, kitsch ou sei lá qual a gíria que eles usam hoje em dia para seus “guilty pleasures”, notar que há uma atmosfera única meio David Lynch e meio Almodovar ali, e de repente o Coconut se tornar uma balada alternativa concorrida. Por enquanto ainda não aconteceu. Você ainda não encontra o Coconut em nenhum guia das baladas mais descoladas da cidade.

Eu e meus amigos descobrimos que o melhor horário para se chegar no Coconut é depois das 2h da madrugada, depois de encher a cara em algum outro lugar. Nesse horário aquele povo que passa só pra cantar “Evidências” já foi pra casa dormir e apenas os bravos sobreviventes permanecem. Você pode subir as escadas e escolher a sala menos deprimente para entrar. Em cada uma delas, pessoas largadas no canto dormindo, bêbados desmaiados nos sofás, casais se pegando no fim da balada porque sobraram ali, derrotados de toda espécie procurando coragem para ir embora sozinhos, tímidos que só agora, no fim da noite, tomaram coragem de pegar o microfone e cantar alguma coisa. Enfim, toda a fragilidade e a beleza da espécie humana.

Nessa terra de ninguém esquecida por Deus, nesse horário da boemia e da perdição, você e seus amigos podem dominar uma sala com facilidade e só sair quando o sol nascer ou a moça da faxina entrar com o esfregão tocando vocês dali. É muita diversão. Se você reunir um bom grupo e conseguir deixar a dignidade do lado de fora, abandonada na calçada da Canuto do Val, ouso dizer que não existe nada mais divertido nessa cidade.

Existindo no meio termo entre a maior diversão noturna e a mais completa derrota da vida, é normal que uma noite no Coconut provoque sentimentos contraditórios, conflitantes, bipolares até. Acontece que em nossa última incursão por lá, enquanto dominávamos a sala com nossa seleção musical de gosto duvidoso, nossas dancinhas cretinas e piadas internas, notamos a existência de uma alma solitária lá no fundão, sentado tomando sua cerveja e analisando o catálogo de músicas.

Ninguém viu o rapaz chegando. Ele parece ter se materializado ali. Ou então esteve ali o tempo todo porque ali é seu lar. Um espírito zombeteiro que assombra o local. Parei pra pensar que muita gente já deve ter morrido ali no Coconut, vítima de bebedeira ou coração partido, ataque cardíaco proporcionado por aquela música que lembra dela, etc. Um fantasma atormentado encontraria um bom lar ali naquelas sombras, ouvindo aquelas mal cantadas músicas de amores mal acabados. Aquele sujeito bem que poderia ser um desses fantasmas.

Não era um freak, daqueles que você vê na rua, toma um susto e pensa “esse tem cara de quem vai sozinho ao karaokê numa sexta à noite”. Era um cara normal, entre 30 e 40 anos, poderia ser da nossa turma, poderia ser nosso amigo. O que será que aconteceu em sua vida, que escolhas erradas ele fez, que caminhos ele percorreu até chegar ao triste ponto de ir ao Coconut sozinho numa madrugada de sexta pra cantar umas 3 ou 4 músicas diante de um bando de desconhecidos?

O que esse pobre diabo fez pra merecer isso? Será que ele se importa? Aparentemente, eu me importei mais do que ele. Ele estava tranquilo. Aquilo é a sua vida. Eu me importei demais porque tive medo de um dia chegar nesse ponto. Fiz meus amigos prometerem que nunca iam deixar isso acontecer.

Lá pelo final da noite, quase de manhã, quando a moça veio avisar que nosso prazo estava acabando, o homem solitário ainda cantou uma música triste do Lupicínio Rodrigues e eu e meus amigos conseguimos finalizar a noite com “My Way”. Saindo da sala, ele me perguntou: “foi você que escolheu My Way”? Respondi orgulhoso que sim. “Muito boa escolha”. Então ele saiu para o lado esquerdo do corredor, sendo que a saída, o caixa e o banheiro eram para o lado direito. O fato de ele ter ido para um lado vazio da casa prova minha tese de que ele pode sim ser um fantasma local. Esse Elvis jamais deixa o prédio.

Hoje à noite ele deve estar lá de novo em seu inferno particular, aplaudindo outros péssimos cantores e torcendo para alguém escolher “My Way”. Uma maneira digna de encarar a eternidade.

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