Mesmo que o rio esteja seco

Bruce Springsteen The River Tour
Bruce Springsteen – The River Tour
Tudo isso e muito mais ela aceitou, afinal, viver é aceitar a perda de uma alegria após a outra. No seu caso não eram nem sequer alegrias, e sim meras possibilidades de melhora.
(“Signos e Símbolos” de Vladimir Nabokov, 1948)

Encontrei esse pedaço de Nabokov no blog de um amigo e não consigo parar de pensar nele desde então. Primeiro porque é lindo, segundo porque me lembrou de uma música que tem feito muito sentido ultimamente e terceiro porque me identifiquei. No mesmo conto, Nabokov fala sobre uma tal de “mania referencial”, descrita da seguinte forma: “casos raros em que o paciente imagina que tudo o que acontece ao redor seja uma referência velada à sua personalidade e existência”. Talvez eu tenha um pouco disso.

A música em questão é “The River”, um dos mais famosos e belos épicos de Bruce Springsteen. A letra, baseada na vida da irmã do compositor, é quase cinematográfica em sua contextualização, seu retrato de uma época, seus cenários, seu storytelling. É possível visualizar os personagens como se fossem da nossa própria família, compreender o drama que eles atravessam e até sentir a brisa na margem do rio. E é tudo muito triste. Você acompanha o crescimento de um casal comum enfrentando problemas cotidianos, as dificuldades da economia, do mercado de trabalho. Sonhos estão sendo destruídos em cada verso. A perda de uma alegria após a outra.

Quando compôs “The River”, Springsteen já tinha atravessado os sonhos românticos de “Born to Run” e caído na dura realidade da vida em “Darkness on the Edge of Town”. Aquele casal de “Thunder Road”, que já não era tão jovem e nem tão bonito, agora vai parar de viajar e encarar a vida a dois, uma gravidez não planejada, um casamento sem romantismo, a crise econômica, a maldição de ter que seguir os passos dos pais e repetir histórias que já deram errado antes. O rio do título, onde às vezes eles vão mergulhar, é a válvula de escape. O porto seguro com o qual eles sempre podem contar. A água que abençoa, purifica e liberta. Um raro alívio em uma vida melancólica.

Qual é o rio da sua vida? Para onde você vai quando quer esquecer seus problemas? Um bar, uma praia, uma sala de cinema, um estádio de futebol, a casa dos seus pais, um parque, uma casa no campo, a porcaria de um shopping? Todo mundo deveria ter o seu rio particular.

Se um lindo casamento costuma ser o final feliz das histórias românticas que temos que engolir a vida toda, “The River” já parte corações logo no começo, descrevendo uma cerimônia só no civil, sem sorrisos, sem caminhada até o altar, sem flores, sem vestido de casamento. Dali pra frente só piora. Um emprego infeliz porém necessário, o rio se secando, as boas memórias ficando distantes — os tais dias de glórias que o mesmo Springsteen citaria alguns anos depois.

Você precisa de uma certa maturidade para assimilar “The River”. Uma certa bagagem de frustrações, desilusões, cicatrizes, enfim, daquilo que chamamos de vida. Só com esse repertório você é capaz de assimilar a grande questão que Bruce Springsteen coloca no auge da música:

Um sonho é uma mentira se não se torna realidade ou é algo pior?

Qual o prazo para um sonho se realizar? Existe idade certa para parar de se iludir? Até quando você pode acreditar que vai encontrar o amor da sua vida, se casar, ter filhos, um emprego que não só te sustenta mas que faz você se sentir útil, satisfeito e realizado, que vai viver em harmonia com os melhores amigos, que sua família estará sempre lá por você? O tempo está passando. Você adapta seus planos, desiste de alguns objetivos, traça outros, estabelece novas alegrias, mas o tempo continua passando. Ele seca o rio.

Viver é aceitar a perda das alegrias e crescer é ver todos os nossos sonhos serem esmagados um após o outro. Sobreviver é encontrar um rio que possa nos dar esperança. Ou meras possibilidades de melhora. Algo a que você possa se agarrar. Quando Springsteen canta que vai até o rio mesmo sabendo que ele está seco, é porque o destino já não importa mais tanto assim. O importante é o ato, a ida. Uma demonstração de fé absurda.

Os sonhos do casal nós não sabemos quais eram, mas você pode imaginar, provavelmente são iguais aos seus. Você sabe que eles queriam mais do que aquilo que tiveram. Você sabe que eles seguiram o destino traçado desde o colegial até a velhice, que as memórias são fantasmas que assombram como uma maldição. Mas quando, lá pelo final da música, ele diz que foi mais uma vez até o rio, “my baby and I“, a sensação é que tudo valeu a pena porque eles aguentaram juntos até ali.

No conto de Nabokov, a alegria perdida se referia a uma condição especial do filho, uma doença que deveria ser aceita para que todos pudessem seguir em frente. Na letra de Springsteen, um casal simples atravessa uma vida inteira de derrotas mas permanece unido. Em comum, as alegrias e os sonhos que todos nós vamos deixando pelo caminho, uma porrada e um dia de cada vez, caindo e levantando e tentando estar mais fortalecido na próxima, na esperança de que um dia vai dar tudo certo. Até o seu rio secar de vez.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s