Que homens!

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O Virgem de 40 Anos

Outro dia Diego Lugano e Juan Carlos Osorio deram um baita exemplo de dignidade, hombridade e caráter. Uma notícia bacana e bem rara em dias onde só se vê podridão no futebol. Compartilhei a notícia no twitter com o comentário “que homens!”. Foi o suficiente para aparecer alguém me mandando tomar cuidado, afinal aquilo poderia ser printado, compartilhado, usado contra mim.

Imagine como é viver com medo, medindo cada passo e cada atitude para não ser confundido com gay. Todo cuidado é pouco. Um deslize e pronto, vão achar que você está beijando rapazes. Que vergonha, sua reputação acabou.

Lá pela quinta ou sexta série, há mais de 20 anos, na pequena cidade do interior onde nasci e cresci, esse tipo de pensamento era bem comum. Não deixe ninguém duvidar da sua masculinidade. Beije muitas meninas se não o pessoal vai desconfiar. Jogue bola, tome cerveja, perca logo essa virgindade.

Esse tipo de preocupação idiota acompanha a vida do homem, não tem jeito. Alguns mais, outros menos. Na Bahia, conheci gente que não usa o verbo “tomar”, apenas “beber”. Porque quem toma, é pra tomar no cu. Isso mesmo. O nobre povo baiano, que sofre tanto preconceito junto com todos os demais nordestinos do país, poderia dar um exemplo melhorzinho.

A visão de “viado” e “bicha” como algo pejorativo ainda vai levar algumas gerações para sumir de vez, mas uma hora ela some. Só que nós não precisamos esperar até lá, não é mesmo? Também não vamos cair no golpe de culpar as tradições erradas. Uma das maiores lições que aprendi nas redes sociais é a seguinte: nunca é tarde para você deixar de ser babaca.

Um salto no tempo. 2015. Internet. Até outro dia todo mundo estava de avatar colorido para comemorar o casamento gay nos Estados Unidos. Enquanto isso, eu ainda sou advertido sobre uma expressão que pode levar alguém a duvidar da minha sagrada masculinidade.

Aqui em São Paulo e na internet de um modo geral a gente gosta de se ver como evoluído, culto, instruído, mas a mentalidade reinante ainda é a mesma da minha quinta série em Leme, quando a quantidade de pelos no saco ou a capacidade de cuspir mais longe determinava quem era o mais machinho da turma.

Então me lembrei de todas as vezes em que fui chamado de viado desde então. Todas as vezes que me deram esse tipo de conselho: cuidado aí, vão achar que você é gay. A lista é enorme. É realmente um milagre que eu ainda prefira mulheres a essa altura do campeonato.

Eis um top 10:

1. Top Gun é um dos meus filmes favoritos.

Os caras sem camisa jogando vôlei, toda aquela testosterona nos vestiários, as demonstrações de virilidade, os abraços apertados demais… nem precisava daquele monólogo do Tarantino em “Vem Dormir Comigo” pra gente um dia perceber que “Top Gun” tem um conteúdo gay evidente — na verdade, o próprio diretor Tony Scott confirma suas intenções nos extras do DVD. Convenhamos, isso só incomoda quem acha chocante beijo gay de novela.

2. Sou são-paulino.

O problema do apelido Bambi é o seguinte: é realmente lamentável que algo criado pelo Vampeta tenha grudado tanto. Quem quer estar no nível intelectual do Vampeta? Quem se importa com o que ele diz? Mais lamentável ainda é a própria torcida do São Paulo se importar tanto com isso, a todo momento passando recibo de que se ofende de verdade, desesperadamente querendo passar o apelido adiante, criando músicas homofóbicas para os rivais e gritando bicha para os goleiros adversários. Sabe quem sujeitos como o Vampeta chamam de bicha para ofender? Os homens mais bonitos, mais bem sucedidos e mais inteligentes que eles. Saudades de quando nós nos encaixávamos nessa descrição aí. Hoje em dia nem isso.

3. Batman é meu super-herói favorito.

Gosto do Batman porque ele é complexo, perturbado, paranóico, psicótico, neurótico, traumatizado, violento, não tem superpoderes, mora na melhor cidade e enfrenta os melhores vilões, todos loucos como ele. Mas para muita gente Batman é só aquele cara da feira da fruta que dá uns pegas no Robin. Então tá, Vampeta.

4. Bon Jovi sempre foi uma das minhas bandas favoritas.

Não pode gostar de banda com vocalista bonito que canta baladinhas, isso é coisa de menina. Inclusive considerar homem bonito também é sinal de baitolagem, então é melhor achar uma boa desculpa pra curtir o Jon: a mulherada gosta, o show é cheio de mulher, eu toco no violão as mina pira, deixo uma fita no carro porque as mina curte, etc. Lembro que o Thales de Menezes uma vez deu uma dica importante: o Aerosmith é o Bon Jovi que os meninos podem curtir porque o vocalista é feio.

5. Estudei publicidade.

Até um tempo atrás, valia como prova. Hoje em dia publicitário só é considerado meio bobo mesmo.

6. Morei em Campinas. 

Até um tempo atrás, valia como prova.

7. Tenho vários LPs do Erasure e nenhum do Iron Maiden.

Give a little respect to me.

8. Tenho duas irmãs bailarinas.

Sou o caçula da casa e tenho duas irmãs bailarinas. Isso quer dizer que na minha infância eu convivi com papel de carta, borracha cheirosa, figurinhas Amar É, festivais de balé e exibições constantes de todos os clássicos de meninas como “Flashdance” e “Dirty Dancing”, dois filmes que guardo com carinho no meu coração. Eu também via “Rambo II — A Missão” e “Comando para Matar”. Se você parar pra pensar, aqueles caras marombados e suados sem camisa são muito mais gays que o nosso Patrick Swayze arrepiando na pista de dança.

9. Fui muito noveleiro.

Minha memória é péssima pra um monte de coisa, mas sou uma enciclopédia viva quando o assunto são as boas novelas dos anos 80 e 90, especialmente suas trilhas sonoras inesquecíveis. Depois eu troquei as novelas pelas séries, o que também não é uma atitude muito máscula. É que ficar em casa na sexta à noite pra ver “Arquivo X” na Record nunca foi considerado coisa de viado, mas de nerdão virgem mesmo.

10. E finalmente: já gostei muito de Coldplay.

Bota o “Parachutes” ou o “A Rush of Blood to the Head” pra tocar que eu ainda choro.

Encerro com minha citação favorita sobre a ridícula necessidade que o homem hetero tem de se provar machinho o tempo todo:

“Todo mundo é meio bicha se comparado ao Johnny Cash.” (Bono)

Então relaxa aí e aproveita a vida, viadinho.

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