A pedra mais preciosa

Reigning Sound
Reigning Sound

Começou com o Ítalo. Ele indicou pro Luiz, que indicou pra mim. Eu já indiquei pra um monte de gente. Basicamente, todo mundo que entrou no meu carro no último ano foi obrigado a ouvir e acabou gostando. Uns mais, outros menos. Meu pai pediu pra eu gravar uma fita pra ele.

Eu vejo o Ítalo e o Luiz como garimpeiros, me identifico com eles apesar de ser mirim na comparação. Não se trata de conhecer um monte de banda irrelevante que pouca gente conhece pra se sentir especial. Não é sobre ler Pitchfork e sentir orgulho de conhecer as bandas que tocam às quatro da tarde no Lollapalooza, sem assimilar nada. É exatamente o contrário. É sobre passar a vida procurando a próxima banda que vai te pegar pelo cabelo, dar três tapas na sua cara, destruir seu coração, revirar o seu estômago e colocar várias novas verdades na sua cabeça.

Don’t you know
I don’t claim to be lucky in love
That don’t stop me from lovin to roll the dice
Let’s roll ‘em one more time
(“My, My”)

Garimpeiros assim não procuram encontros casuais e passageiros. Nós procuramos a perfeição. O amor verdadeiro. É raro, mas quando você encontra, sabe que o esforço valeu a pena.

Eu sei do exato momento em que o Reigning Sound bateu em mim. Foi há mais ou menos um ano. Eu estava separando as coisas que ela ia levar depois de dizer que, quando fosse embora, nunca mais voltaria pra casa. Coloquei o “Shattered” para tocar enquanto machucava o dedo tirando pregos da parede e de repente o Greg Cartwright cantou:

You meant it when you said it
Yes you meant it when you said it
You were leaving
And never coming home
(“Never Coming Home”)

Bateu tão forte que chegou a sangrar.

“Never Coming Home” é tão perfeita na sua simplicidade que chega a dar raiva. É daquelas que o Bob Dylan e o Neil Young devem ouvir e pensar puta que pariu, como eu não fiz isso antes? É o tipo de balada que me faz gostar de música.

Mas garimpeiro de verdade não se contenta com uma música, nem com um álbum. Fui atrás da carreira da banda e descobri uma variedade incrível de estilos e influências no som do Reigning Sound. “Break Up, Break Down” (2001) é uma coleção de baladas suaves com aquele toque country alternativo dos primeiros discos do Wilco, além de um break up album de respeito. O “Time Bomb High School” (2002) tem uma pegada mais festa de rockabilly, abrindo com uma cover maravilhosa de “Stormy Weather”, um clássico da dor de cotovelo que já foi cantado por vozes do gabarito de Etta James e Billie Holiday.

A saber: o Little Steven venera este disco. E com razão. O Little Steven jamais se engana.

Don’t ask the birds to change their song
They sing it all day long
Thats just what they do
Just like i love you
(“I’m Holding Out”)

Perceba que os nomes dos discos já dão a dica dos seus respectivo tons, e “Too Much Guitar” (2004) é isso aí mesmo, muita guitarra suja de garagem, o disco mais punk da banda que lembra bastante a carreira anterior do líder Cartwright, enquanto “Home For Orphans” (2005) é uma compilação de sobras de estúdio, incluindo uma versão lenta matadora e muito Velvet Underground de “If You Can’t Give Me Everything” do álbum anterior. Que baita música.

“Love & Curses” (2009) e “Shattered” (2014) são trabalhos mais maduros que misturam todas as referências anteriores e estabeleceram a cara definitiva da banda. Mais uma vez, os próprios nomes já dizem: amor & maldições; destruído, quebrado, aniquilado.

I just wanted to touch you
I didn’t mean to break you
This is how it feels
When everything goes wrong
(“Love Won’t Leave You a Song”)

 

O vocal do Greg Cartwright vai de Van Morrison e Eric Burdon a Lou Reed, de Jeff Tweedy a Ian Astbury, da música caipira americana ao soul. Suas letras são simples e diretas como algum pop dos anos 50 — ele nasceu em Memphis, nada é por acaso nessa vida. Sabe, letras sobre sair pra dar uma volta de carro com aquela garota que você quer chamar de sua. Um Buddy Holly que sofreu influências do rock alternativo dos anos 90 mas não perdeu a ternura. O tema é quase sempre amor, fim de relacionamento, saudade, coração partido, enfim, os temas que importam. Uma paulada atrás da outra. Eu queria dar um abraço no Greg.

But love
Is a funny thing
Don’t know its real
Until it’s caused you pain
(“Funny Thing”)

O que nos traz de volta ao glorioso “Shattered” e suas tantas canções sobre partidas dolorosas e sobre continuar tentando, começar de novo, jogar os dados mais uma vez. Em “Starting New”, a segunda música do disco a bater forte em mim, quando o Greg canta que tudo pode ficar bem, que “nós podemos conversar a noite toda”, ele o faz com uma intensidade e uma insegurança que não são tão comuns, um tipo de entrega que diferencia os grandes vocalistas capazes de sentir uma música do mero intérprete que recita versos. No decorrer da música ele expõe todas as suas fraquezas, se abre e se revela para a moça que está ouvindo. Eu, a essa altura já considerando o sujeito um amigo próximo, chego a ficar preocupado. Será que ela está prestando atenção, cara? Será que ela vai entender? Se cuida, Greg.

I’ve been standing in line
For a piece of happiness
A kind, gentle word and a soft caress
(“Starting New”)

É curioso, é de partir o coração, chega a ser revoltante, tem no Deezer, tem no Spotify, mas com exceção dos garimpeiros e de seu círculo de influências, ninguém ainda conhece o Reigning Sound como deveria. Em 2014, ninguém colocou o “Shattered” na lista de discos do ano — bem, quase ninguém: eu coloquei e o Alexandre também, e nós dois colocamos em primeiro, a concorrência não teve a menor chance. O Reigning Sound segue sua trajetória tocando em bares nos EUA e pelo visto jamais vai pisar em solo brasileiro, nem nos palquinhos quatro da tarde do Lollapalooza. O Reigning Sound não faz parte da “cena”, seja lá o que isso signifique.

No último capítulo desta verdadeira saga pela expansão do Reigning Sound no universo conhecido, eu estava dando carona pro Thiago e sem querer ele ouviu uns 20 segundos de “I’m Trying (To Be the Man You Need)”, a balada soul que encerra o “Shattered”. Foi o bastante. Ele ficou louco. Conquistamos mais um. Assim nosso império cresce, de migalha em migalha. Vamos continuar fazendo a nossa parte, o nosso humilde boca a boca, mesmo que seja só para reunir os garimpeiros mais especiais nessa espécie de fã-clube informal. Guardar esse tipo de preciosidade é coisa de gente sem caráter. Coisa de quem não se importa com o que o Greg tem a dizer.

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