Quem faz parte do rolê

 
Uma Noite de Aventuras
O rolê na cidade grande em Uma Noite de Aventuras

Um grande empreendedor da noite paulistana fez um texto bonito muito compartilhado no Facebook para divulgar o lançamento de um de seus empreendimentos. O texto tinha um tom messiânico e falava em salvar a cidade. Ganhou meu like enquanto cidadão, porque o empreendimento dele realmente parece ser um lugar bacana para se frequentar, e enquanto redator publicitário, pois sei que ele atingiu perfeitamente seu público-alvo. Quem reclamou dele, e eu também concordei com muitas das críticas, não faz parte desse público-alvo. Às vezes a gente se esquece que muita gente aqui em São Paulo simplesmente não faz parte do famoso rolê.

Outro dia fui comer um churrasco gourmet preparado por um chef em uma cervejaria. Paguei R$ 35 em cinco cubos de gordura com osso que meu pouco sofisticado paladar não conseguiu apreciar. Fiquei bravo mas não reclamei, porque não é da minha índole armar barraco e xingar gente que está ali trabalhando, eu simplesmente vou embora e nunca mais volto. Talvez eu tenha dado azar, talvez o rapaz que me serviu tenha vacilado justo no meu prato, talvez um monte de coisas. O que me irrita mais, e esse é meu complexo de vira-lata de capiau matuto do interior, é pensar que eu fui mal servido simplesmente porque eu não faço parte do rolê. E em muitos lugares de São Paulo, se você não faz parte do rolê, ninguém se importa com a sua opinião. Vai lá, vira-lata, roer o seu osso com gordura.

Eu não tenho tatuagem ou barba exótica, eu não sou músico, fotógrafo, artista, chef ou DJ, meu corte de cabelo é absolutamente comum, eu uso calça jeans e camiseta. Eu não frequento uma certa “cena” específica, não faço parte de coletivos, não estou inserido em nenhum contexto ou movimento. No meio hipster eu sou aquele coxinha que gosta de U2. No meio coxinha eu sou aquele hipster que gosta de Wilco. No final das contas eu faço meu trabalho, vou pra minha casa e nos finais de semana tento encontrar meus amigos pra beber cerveja, comer alguma coisa boa e jogar conversa fora.

Alguns destes amigos fazem parte do rolê e graças a eles eu frequento diversos ambientes diferentes que curto demais conhecer. Tenho amigo músico, escritor, DJ, youtuber, chef, jornalista, cineasta, designer, fotógrafo, colecionador de carro antigo, artistas de todo tipo, uma fauna completa de gente interessante que faz parte do tal do rolê. Quando estou com eles eu me misturo, me disfarço e sou bem tratado. Sozinho, é melhor eu ir comer em um quilão de Mirandópolis, meu lindo bairro sem frescura, pra evitar tomar um cuspe na cara. Sim, este foi o capiau matuto falando de novo.

Eu amo meu bairro justamente porque ele não faz parte do rolê. Ninguém se importa com um bairro desconhecido que fica entre a Vila Mariana, a Saúde, o Planalto Paulista e Moema, todos bairros uncool que só são lembrados na hora de se criticar a classe média que bate panela na varanda. Ninguém fala em “ocupar a cidade” em Mirandópolis, mas sempre tem quermesse ali na praça da Igreja Santa Rita e os muitos idosos caminham tranquilamente pelo bairro, então acho que estamos convivendo em harmonia no nosso pequeno feudo.

Como não estamos tão isolados assim, aos poucos o rolê vai chegando a Mirandópolis. Já temos ciclofaixa, paleteria mexicana, cervejarias artesanais e food trucks, mas ainda assim parece ser tudo para consumo interno, não chamamos a atenção do resto da cidade. Não atraímos nenhum messias da night, nem grandes baladas ou bares da moda. As moradoras mais famosas do bairro são a Luiza Erundina e a Rosi Campos, se é que elas ainda moram lá.

Eu gosto de me aventurar pelos rolês dos bairros mais descolados como um explorador que depois volta pra casa cheio de experiências pra contar. Sou um Indiana Jones dos rolês, retornando com relíquias preciosas desse mundo hostil. Esse mundinho paulistano todo especial, cheio de gente que teoricamente está fazendo o bem e espalhando o amor, é campeão no discurso mas nem sempre nas atitudes. Afinal, como vimos, não é todo lugar que oferece mais amor por favor para quem não faz parte do rolê. Assim, meu maior tesouro nessa aventura sem fim são os lugares que me tratam bem e fazem eu me sentir parte do rolê. Eles existem. Eles são os melhores. Eles fazem valer a pena. Esses são os lugares que imediatamente ganham um lote no meu coração para sempre e que me fazem gostar de São Paulo no final das contas.

São Paulo que é muito mais que a Vila Madalena, o Baixo Augusta, o Minhocão e a Paulista fechada aos domingos. No aniversário da morte do Rei Elvis convidei amigos para ir comer um fool’s gold loaf (melhor que qualquer lanchinho gourmet de rolê) em uma lanchonete da Mooca e pela reação geral foi como se eu estivesse convocando gente para uma expedição pelo leste europeu. E olha que a Mooca nem é tão longe assim. São Paulo é enorme mas o raio de ação do pessoal não vai além da área de entrega do restaurante chinês, então não vamos superestimar o rolê. O rolê tem limites. O rolê não vai nos salvar.

Nota do autor: eu odeio a palavra rolê e todas as vezes em que ela foi utilizada neste texto foi de maneira irônica. Pau no cu do rolê.

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