Show Me A Hero

Se o mundo fosse um lugar justo, todo país teria seu David Simon criando séries incríveis sobre causas sociais e políticas que conseguem a proeza de entreter, emocionar e ensinar como funciona o sistema além do que se vê no telejornal local. Antes de votar, postar textão no Facebook e de bater panela na varanda, todo mundo receberia doses diárias de David Simon e assim o mundo seria um lugar um pouco mais esclarecido.

Yonkers é uma cidade vizinha de Nova York, às margens do Rio Hudson. Em 1987 ainda dava pra ver as Torres Gêmeas de longe. Sem muito destaque além da vizinhança famosa, Yonkers tinha uma característica toda sua: foi a única cidade dos EUA a não seguir uma lei federal que estabelecia uma cota mínima de moradias populares em cada município. A população diferenciada de Yonkers simplesmente não queria aquele bando de vizinho pobre e os políticos locais obviamente abraçavam a causa para manter o cargo.

Você conhece o esquema: vamos enrolando a burocracia até onde der, dando um jeitinho aqui e outro ali, pra ver o que acontece. Tudo muito normal, pelo menos para nós brasileiros, até que um juiz mais sério (Bob Balaban) resolve botar a prefeitura de Yonkers no pau, com direito a multas que se duplicam a cada dia e a previsão de falência da cidade caso a ordem não seja cumprida. O prefeito mais jovem do país, Nick Wasicsko (Oscar Isaac), que se vire para mudar a opinião de seus colegas e domar a fúria da população 100% reaça.

Baseada no livro de Lisa Belkin, “Show Me A Hero” retrata esse período da vida de Yonkers em uma minissérie de 6 episódios dirigidos por Paul Haggis (que confessou não ter merecido o Oscar por “Crash – No Limite”) e escritos pela dupla de “The Wire”, David Simon e William F. Zorzi. Quem conhece a obra dos realizadores já sabe o que esperar: uma política bem mais realista e complexa que aquela banalizada por “House of Cards”, aulas de cidadania que vão muito além de se defender prefeito gato, um roteiro muito mais inteligente que as aulinhas de história de “Narcos” e diversas histórias paralelas que formam o grande quadro, do macro para o micro, do político que toma uma decisão importante ao cidadão que sofre as consequências.

E como estamos ali por perto de New Jersey na segunda metade dos anos 80, temos a providencial participação de muitas músicas de Bruce Springsteen na trilha sonora, quase um personagem da minissérie, e que ajudam a compor a personalidade do seu personagem principal.

O elenco resgata alguns nomes importantes como Winona Ryder e James Belushi, mas quem rouba o show mesmo são: um escrotíssimo Alfred Molina como uma espécie de Bolsonaro ou Feliciano de Yonkers e Catherine Keener maravilhosa como a maior representante da classe média da cidade, além de algumas boas surpresas como Jon Bernthal (de “The Walking Dead”) como um dos advogados responsáveis por processar a prefeitura e muitas caras conhecidas de “The Wire” (saudades, turma). Todos liderados com categoria por Oscar Isaac (o Llewyn Davis), próximo grande astro do cinema. Sua degradação ao longo dos episódios, de jovem vereador sonhador a político calejado e viciado em leite de magnésia pra confortar o estômago, é desesperadora. Ilhado no meio da bagunça política, seus únicos refúgios são ouvir o Boss e dormir abraçado com a Nay (Carla Quevedo). Que homem. Que mulher. Que casal. Que história.

“Show Me A Hero” é provavelmente a melhor coisa a surgir em 2015 e você, cidadão de bem, tem obrigação moral e cívica de ver. Pensando bem, se o mundo fosse um lugar justo, nem haveria necessidade de existir um David Simon.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s