Pearl Jam no Morumbi, 14/11/15

It’s a fragile thing this life we lead
If I think too much I can’t get over
Whelmed by the grace
By which we live our lives
With death over our shoulders

O Pearl Jam já flertava com a tragédia desde antes de nascer. O embrião da banda veio do Mother Love Bone, banda cujo vocalista Andrew Wood morreu de overdose de heroína em 1990. Depois foi a vez do colega Kurt Cobain cometer suicídio. Em julho de 2000, 9 pessoas morreram esmagadas durante um show do Pearl Jam no festival de Roskilde, na Dinamarca. Não é pouca coisa, ainda mais para quem sempre demonstrou uma responsabilidade, uma preocupação com a vida, a justiça e a paz no mundo em suas músicas. Que eles tenham superado o trauma e continuado a carreira com essas mortes nos ombros é mais do que um sinal de força, é o que diferencia as bandas comuns das bandas gigantes. É o que cria mitologias.

Mais um capítulo dessa mitologia foi escrita ontem, 14/11/2015, no Estádio do Morumbi em São Paulo. Um dia antes, as sirenes de Paris tocaram como não tocavam desde a Segunda Guerra. Paris foi vítima de diversos atentados causados pelo Estado Islâmico, muita gente morreu e pelo menos 100 pessoas foram fuziladas durante um show da banda Eagles of Death Metal. Provavelmente muitos deles gostavam de Pearl Jam. Provavelmente muitos dos 65.000 presentes no Morumbi estariam no show do Eagles of Death Metal se estivessem em Paris. Há mais ou menos um ano eu mesmo estava em Paris. Impossível não fazer a relação com uma tragédia ainda tão clara na memória.

Talvez o público brasileiro não estivesse preocupado com isso. Aqui não temos atentados terroristas, nossas tragédias são outras. Mas o Pearl Jam subiu ao palco por volta das 20h45 com tudo isso na cabeça. Era evidente a preocupação de Eddie Vedder com a segurança do público, a todo momento perguntando se estava tudo bem, avisando do perigo dos raios (o “Lightning Bolt” que deu título ao último disco da banda) e discursando seus textões às vezes em seu já conhecido português esforçado, às vezes em inglês mesmo. A própria escolha do setlist nessa turnê pela América Latina, começando com músicas mais lentas e desconhecidas, parece ser uma forma da banda dizer “vamos com calma”.

Quando lá pelo final da noite, depois de mais de 3 horas de show, ele agradeceu por termos nos cuidado direitinho e se ofereceu para abraçar cada um de nós, todos os 65.000 ali presentes sentiram um carinho que não é comum nesses dias difíceis. Até a cover de “Imagine”, a rainha da cafonice paz & amor pareceu se tornar obrigatória de novo, como se John Lennon a tivesse escrito especialmente para a ocasião.

2015 não foi um ano fácil pra ninguém e o mundo não tem colaborado pra melhorar esse cenário, então toda ajuda é bem-vinda. Enquanto todo mundo briga e joga a culpa no outro e se bate e se mata, passar 3 horas acreditando nas palavras de Eddie Vedder, John Lennon, Neil Young e Bob Dylan valem mais do que qualquer religião possa ensinar. No Morumbi, seja no futebol, na música ou na minha vida pessoal, eu posso acreditar no que eu quiser. Eu posso acreditar que o Ganso é craque e que o Lugano vai voltar. Eu posso até acreditar que eles tocaram “Come Back” pra mim porque eu implorei no Twitter.

Em 2015, o Morumbi, que por tantas vezes foi válvula de escape para meus próprios problemas pessoais e palco de tantas historinhas boas e nem tão boas assim, reforçou sua condição de minha segunda casa. Teve de tudo ali. Algumas vitórias significativas, muitas desilusões, amizades, amores, tentativas, lutas, aprendizados, pelo menos uma chuva antológica muito maior do que aquela que nos abençoou ontem a partir de “Better Man”… um amigo até derramou sangue naquele concreto por causa da maldita violência sem sentido. Ou seja, o Morumbi foi mais do que um estádio de futebol, como sempre. Espero que os não são-paulinos entendam quando eu digo que aquele lugar é sagrado. Ontem, com a ajuda do pessoal de Seattle, eles devem ter entendido.

Não sei se foi o melhor show que já vi na vida. O vendaval causou problemas técnicos, o vento muitas vezes levava o som embora, a concorrência com todos os shows do Bruce Springsteen que já vi é cruel e mesmo os shows do próprio Pearl Jam em 2005 pareceram mais redondinhos. Mas por todo o extracampo envolvido, foi o show do qual todos nós estávamos precisando. É o quinto show da banda que eu vejo, sempre acompanhado de formações diferentes de amigos e de uma amiga em especial com a qual eu vi todos os cinco, mesmo quando a gente nem combinou de se encontrar. Sem desmerecer as formações anteriores, mas a atual cantou “Black” e “Alive” abraçada porque sabe o que cada palavra dessas músicas representa pra gente. E porque apesar de tudo ainda estamos todos vivos.

Hoje passei horas vendo fotos de conhecidos e até de desconhecidos no show e me emocionei com todas elas porque todos aqueles sorrisos, dos fãs de olhos marejados às selfies mais vagabundas, me pareceram sinceros. Como o pessoal que frequenta o Morumbi sempre diz, não é só futebol. Não é só um show de rock. Não foi uma simples chuva para lavar a alma. Foi uma noite que me fez ter vontade de abraçar, agradecer e pedir perdão por um monte de coisas. Uma noite que eu não vou esquecer tão cedo.

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