Arquivo X – Nona Temporada

Em 2002 pouca gente ainda se importava com “Arquivo X”, mas não podemos culpar os realizadores por não tentar. E eles tentaram, sim, emplacar a série como uma espécie de “CSI”, trocando de protagonistas com eventuais participações especiais da velha guarda aqui e ali. Por mais esforçados que fossem os agentes John Doggett (Robert Patrick) e Monica Reyes (Annabeth Gish), não rolou. Mesmo com Dana Scully (Gillian Anderson) servindo de consultora na maioria dos casos, entre uma e outra aula na academia do FBI. Alguém deve ter notado que a força da série estava na dupla de protagonistas original e não nos temas paranormais e conspiratórios, e resolveu acabar com tudo de uma vez.

Nesta nona temporada, David Duchovny abandonou o barco de vez pois estava com o famoso saco cheio. Ele ressurge atrás das câmeras para dirigir um dos episódios finais e no episódio duplo que encerra a série, aí sim trazendo Fox Mulder de volta do exílio. Para explicar a ausência do astro, “Arquivo X” apela para uma daquelas tradicionais desculpas esfarrapadas que fazem parte de sua história: Mulder fugiu para poupar a vida de Scully e do seu filho William, perseguidos por supersoldados assassinos. Não faz muito sentido. Lá na segunda temporada eles abduziram a Scully pra dar folga pra atriz que estava prestes a dar à luz, e aquilo acabou fazendo sentido. Agora, não. É difícil acreditar que Mulder fugiria do perigo depois de anos encarando toda conspiração de frente, deixando Scully sozinha para criar seu bebê iluminado. Até porque ela e o bebê continuam sofrendo ameaças, mesmo com ele longe.

Outro golpe na nossa fé é o romance virtual entre os dois, trocando e-mails de amorzinho depois de anos juntos sem sequer dar uma bitoca. Nem o mais virjão dos nerds deve ter achado isso legal. Pior: Doggett e Reyes ameaçam seguir o mesmo caminho do relacionamento recalcado, o que nos faz imaginar o que colocam na água do FBI pra reprimir tanto nossos queridos casais. E enfim também é duro acreditar que antes dessa temporada começar houve o 11 de setembro e a série-mãe de todas as teorias conspiratórias nem citou o fato – alguém da equipe morreu nos atentados e foi homenageada, entretanto.

Apesar de tudo, e da nova abertura que irrita puristas como eu, a temporada ainda tem alguns bons episódios isolados, como “4D”, sobre dimensões paralelas. Em “John Doe”, Vince Gilligan (roteirista) e Michelle McLaren (diretora) levam um Doggett sem memória pro México e antecipam todo o conceito visual de “Breaking Bad”. Temos dois episódios que abordam espiritualidade, um sobre assassino e vítimas que reencarnam para repetir seus destinos, outro com Mônica no limbo, sem saber se está morta ou não. Aliás, tem sempre alguém à beira da morte nesta temporada. Nas anteriores também. “Arquivo X” às vezes tem mais hospital que “Plantão Médico”. Pelo menos a nona temporada tem a decência de fechar quase todas as pontas: o destino do bebê William, o assassinato do filho do Doggett, etc.

Se no elenco principal a única novidade é a infeliz inclusão do canastra Cary Elwes como mais um diretor malvado do FBI, as participações especiais são uma festa a parte, principalmente revistos agora: “Lord of the Flies” brinca de “Jackass” e tem Aaron Paul (“Breaking Bad” de novo) e Jane Lynch (“Glee”). “Trust no 1” tem o Terry O’Quinn que faria sucesso em “Lost”. “Improbable” é um episódio maluco sobre numerologia com Burt Reynolds. E o penúltimo episódio, “Sunshine Days”, escrito e dirigido por Gilligan, é uma pérola com David Faustino (da série “Um Amor de Família”) e Michael Emerson (também de “Lost”) no papel de um telepata super poderoso que recria o cenário da série “The Brady Bunch” em sua casa – um lindo estudo metalinguistico sobre o poder da TV, a carência dos fãs e um modo de “Arquivo X” assumir que tem coisa mais importante nessa vida do que se provar a existência do sobrenatural. Um mea culpa? No episódio “Scary Monsters”, a fangirl Leyla Harrison (Jolie Jenkins) volta para avaliar Doggett e Reyes, confirma que eles não são tão bons quanto Mulder e Scully (haha) mas no final acaba passando o bastão para a nova dupla. Enquanto isso, simbolicamente, um garotinho deve perder sua poderosa imaginação e, como tratamento, recebe uma overdose de TV no melhor estilo “Laranja Mecânica”.

A outra brincadeira metalinguistica vem no episódio com o sugestivo título “Jump the Shark” (expressão que a crítica norte-americana usa quando uma boa série de repente fica ruim). Nele, personagens da série spin off dos Pistoleiros Solitários que ninguém viu retornam para encerrar as atividades, como havia acontecido anteriormente com “Millennium”. Hoje o episódio tem um atrativo a mais para quem viu “Better Call Saul”: Michael McKean, Vince Gilligan e um spin off ao mesmo tempo. Um dia a Disney compra todo o universo criado por Chris Carter e Vince Gilligan e refaz tudo, vamos aguardar.

Voltando dessa viagem semiótica para a boa e velha mitologia, “Arquivo X” encerra seu longo ciclo em um episódio duplo com um recurso pra lá de manjado: o julgamento final de Fox Mulder. Personagens vivos e mortos retornam. Gibson Praise (Jeff Gulka), o melhor de todos, brilha. Toda a conspiração alien é recapitulada e tudo faz algum sentido se você não parar pra pensar muito. Evidente que, ao se explicar, “Arquivo X” perde todo seu mistério, aquelas dúvidas gostosas confundidas com falhas de roteiro pra discutir com os amigos depois. A verdade, a tão perseguida verdade, ela pode ser bem absurda. Como envolve o calendário maia e o fim do mundo de 2012, hoje soa pior ainda. Esperamos que a décima temporada tenha uma boa explicação para o fato de estarmos todos vivos. Conhecendo “Arquivo X” como conhecemos, essa explicação deve vir cheia de ironia.

A conclusão que a gente chega é que “Arquivo X”, assim como sexo, pizza e filmes do 007, mesmo quando é ruim ainda é muito bom. A cena final não tem mitologia, não tem alien, não tem conspiração. Ela resgata um momento intimista do episódio piloto e fala sobre a essência da série toda: a fé. O segundo longa, que sairia 6 anos depois e frustraria todo mundo, também falava sobre fé. Ficou bonito assim e podia ser muito pior. Podiam ter encerrado com aquela cena excluída (veja nos extras do DVD) onde o presidente Bush diz “a verdade está lá fora”. Seria, aí sim, uma morte horrível.

Como ninguém morre de verdade em “Arquivo X”, ano que vem tem mais, confortando minha dor após rever todas as 9 temporadas e já sentir saudades. Eu quero acreditar que a décima temporada vai ser ótima, e você?

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