A longa caminhada

Rogerio-Ceni
Rogério Ceni

Em algum momento ali no segundo semestre de 2013 eu tive um pesadelo horrível: Rogério Ceni atravessava o gramado do Morumbi lentamente e era alvo de um monte de porcaria. Pedras, lixo, pilha, saco de mijo, sei lá. Ele continuava atravessando o gramado e o chorume continuava caindo sobre ele, e esse trajeto parecia não acabar nunca. Ele seguia em frente.

2013 foi o ano em que o São Paulo atravessou uma das piores crises de sua história — era a pior até 2015 aparecer no fundo do poço com uma pá, doido pra cavar. Dentro de campo, todo jogo era um martírio. A ameaça de rebaixamento era uma realidade.

Naquele ano, um dos últimos da carreira, Rogério Ceni fazia o possível para tirar o time da lama e muitas vezes parecia jogar sozinho. Como capitão, líder, ídolo, principal nome do elenco e o único ali com alguma vergonha na cara, também recebia todas as críticas sozinho. Era ele contra a rapa. Lembro bem dele atravessando o gramado no último jogo da primeira fase da Libertadores, contra o Atlético Mineiro, para bater um pênalti que poderia levar o São Paulo adiante ou enterrar o time ali mesmo. E lembro de acompanhar aquela caminhada pensando em tudo que deveria estar passando na sua cabeça naquele momento. Aqueles poucos segundos que pareciam uma eternidade. Ele foi lá, marcou, nos classificamos. Fomos eliminados na fase seguinte pelo próprio Atlético que viria a ser campeão mas, como diria Rocky Balboa, “percorremos a distância”.

Não precisa entender muito de psicologia para decifrar meu pesadelo. Muitas vezes minha vida pessoal acompanhou as más fases do time do São Paulo e aquela ocasião era uma delas. Sempre foi preciso seguir em frente, atravessar o gramado, ver até onde a gente conseguiria chegar. Tem um discurso do Jon Stewart em homenagem ao Bruce Springsteen que eu particularmente curto muito no qual ele diz que o Boss sempre vai até o fim, ele segue em frente até esvaziar o tanque.

Nunca gostei de jogador com cara de choro, daqueles que se borram em um momento decisivo. Porque eu tenho muitos medos e inseguranças nessa vida e quando eu vou ver um jogo de futebol eu quero ver qualquer coisa que não seja eu mesmo no gramado. Ali, vestindo a camisa do meu time, eu quero ver heróis. Eu quero alguém que encare o desafio, mesmo que seja pra errar, escorregar, mandar a bola pra lua, mas que atravesse o gramado de cabeça erguida. Que percorra a distância. Que esvazie o tanque. O Rogério Ceni sempre foi esse cara.

Os números, os recordes, os muitos anos de carreira, tudo isso é muito lindo mas todo mundo já cansou de postar por aí. São estatísticas que sozinhas não me dizem quase nada. Um jogador meia-boca pode passar anos em um time e bater vários recordes. O Paulo Miranda e o Reinaldo ousaram vestir a camisa do São Paulo mais de 100 vezes. Títulos? O lateral-direito Vitor tinha um monte e era um baita caneludo. O que isso quer dizer? Absolutamente nada. O que torna o Rogério Ceni especial é a sua história, a sua mitologia, o que, como diria o Gandalf, ele fez com o tempo que lhe foi dado. O que essa mitologia pode nos ensinar.

Eu comecei a aprender com Rogério Ceni em 1997. Eu estava em Araras quando aquele moleque folgado saiu do gol e atravessou o gramado para bater aquela falta e fazer seu primeiro gol. Eu fui um dos que ficou desesperado pensando: o que diabo esse cara tá indo fazer lá? Volta! A gente vai tomar gol no contra-ataque, seu louco! Mal sabia que estava presenciando um momento histórico. Mal sabia que aquela travessia, a princípio desesperadora, se tornaria motivo de tanta esperança nos anos seguintes.

Muita coisa aconteceu depois disso até ele ter o verdadeiro reconhecimento em 2005, ganhando Paulista, Libertadores e Mundial, fechando o gol contra o Liverpool na maior partida de um goleiro que eu já vi na vida. Foi chamado de pipoqueiro e pé frio, como o Telê Santana já havia sido, mas seguiu em frente. Foi pra seleção, não se encaixou naquele esquema nojento da turminha da CBF, ganhou fama de chato, arrogante, prepotente. O primeiro a chegar no treino e o último a ir embora, no Brasil isso é coisa de quem quer aparecer. Levantou 3 Campeonatos Brasileiros na sequência. Fez seu centésimo gol em cima do maior rival. Assumiu um filho fora do casamento, coisa que muito rei do futebol não teve coragem de fazer. Executou milagres embaixo das traves, seguiu marcando muitos gols e batendo recordes, virou Mito. E falhou, como todo mundo falha. A diferença é que suas falhas rendem até placas para os beneficiados.

Mais do que seu talento embaixo das traves, seu caráter sempre foi questionado e sempre será. Com os sommeliers de simpatia eu costumo usar o super trunfo do Aloísio Chulapa, o sujeito mais simprão e gente fina da história do futebol, que trata o “patrão” como ídolo, amigo, herói, chora ao falar dele. Ah, então você não gosta do Rogério Ceni? Pois o Aloísio Chulapa o venera. Seu argumento, seja ele qual for, é inválido. Você não é, nunca foi e nunca será tão legal quanto o Aloísio Chulapa.

Eu nunca encontrei Rogério Ceni pessoalmente, espero encontrá-lo nos próximos anos nas arquibancadas do Morumbi — ele prometeu que estará por lá. Quando acontecer, quero dizer o que eu gostaria de dizer a todos os meus ídolos e heróis da vida, um simples “obrigado” por dar o exemplo, por seguir em frente com a própria torcida jogando contra, com diretoria bandida, com colegas que não mereciam vestir a camisa que nós dois tanto amamos, com uma imprensa que muitas vezes preferiu pegar no pé do que valorizar o que a maioria de nós, são-paulinos, sempre soubemos: que cada jogo do São Paulo com ele em campo tinha essa atração a mais, uma mitologia sendo escrita. Nos próximos anos, décadas, todos entenderão.

O final foi melancólico. Queríamos uma despedida com título e tivemos o adeus antecipado por uma contusão em um jogo desgraçado debaixo de um dilúvio. Talvez tenha sido melhor assim, sem que nenhum de nós soubesse que se tratava de uma despedida. Sofremos menos. Mas tinha que ser trágico mesmo, não podia ser bonito. Teremos beleza na festa de despedida que vai acontecer na próxima sexta, mas aí já é outra história, é festa, é brincadeira, é de mentirinha. Do campo de batalha, nosso herói só saiu ferido. Fica a certeza de que ele foi até onde deu.

A longa caminhada chegou ao fim. Obrigado por tudo que aconteceu nesse caminho, Rogério. Nos vemos na arquibancada. Espero te encontrar por ali velhinho, torcendo pro nosso Tricolor, apontar você para os meus netos e dizer: aquele ali é o Mito. Eu vi jogar.

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