O que o Brasil tem a aprender com o Manic Street Preachers

Manic Street Preachers
Manic Street Preachers

“Para compreender seu país, você deve compreender a si mesmo.”

(“Misguided Missile”, 2014)

Em abril deste ano, a banda galesa Manic Street Preachers lançou seu 13º álbum, “Resistance is Futile”. O trabalho foi  influenciado, entre outras coisas, pelo recente Brexit que abalou o Reino Unido. “É um álbum inspirado pelas pessoas e pelo espírito humano, mas também reflete os sentimentos de desamparo sentidos por muitos no cenário político atual”, disse o baixista e compositor Nicky Wire ao Independent. “Há muitos dedos sendo apontados hoje, um choque de opiniões”, completa Wire. “Parece que a democracia foi ultrapassada pela histeria digital.”

A essa altura do campeonato é meio impossível que você não tenha sido atingido por esse clima, essa ansiedade geral causada por um debate político a cada dia menos democrático. Então você sabe do que ele está falando.

É preciso lembrar que o Manics começou punk lá nos anos 1980, usou as maquiagens e os figurinos do glam (Wire ainda usa), se inspirou no grunge, flertou com o hard rock, surfou na onda gostosa do britpop e nos últimos anos passou também pelo rock eletrônico, sem nunca deixar de lado um forte posicionamento político de esquerda. Mesmo entre as bandas mais politizadas do mainstream, não é qualquer uma que tem uma música chamada “The Masses Against the Classes”, por exemplo. Os problemas da classe trabalhadora, as injustiças sociais e o combate ao fascismo sempre fizeram parte do seu repertório de maneira bem pouco sutil. Seguindo a milenar tradição dos artistas de protesto, eles sempre estiveram dispostos a transmitir uma mensagem e a ensinar alguma coisa. Há quem ache isso chato. Eu considero apenas necessário. É um dos papéis essenciais da arte registrar o momento no qual ela foi concebida. E nosso mundo não se resume a amorzinho, festa e pegação, infelizmente.

A primeira lição a ser aprendida: artistas que se posicionam e compram brigas são sempre mais interessantes.

Antes de comentar um “então vai pra Cuba!” cheio de raiva, saiba você que eles já foram. Em 2001, o Manics foi a primeira banda de rock ocidental a tocar por lá em mais de 2 décadas. Os galeses foram acusados de abraçar Fidel Castro num dia e gravar com Kylie Minogue no outro, mas esse tipo de incoerência irônica faz parte da sua trajetória. Um dia, dando os primeiros passos na cena alternativa local, eles prometeram encerrar a carreira depois de vender 16 milhões de álbuns. Uma promessa jamais cumprida, ainda bem. Quem acompanha essa carreira sabe que o próprio título do novo disco, “resistir é inútil”, não é de coração. Esses caras podem estar desiludidos, como todos nós, mas estão bem longe de desistir da luta.

Segunda lição: promessas e bravatas, no geral, são vazias. Mas discurso, postura e atitude podem durar para sempre.

As letras do Manics sempre beberam nas fontes de poetas, filósofos, escritores e conflitos históricos variados, de grandes acontecimentos globais a regionais que a gente nem imagina terem existido. Obviamente, ninguém é obrigado a decifrar isso tudo, mas uma consulta rápida à wikipedia dá um sabor todo especial a algumas músicas. Por exemplo: o hino “If You Tolerate This Your Children Will Be Next” tem um verso poderoso retirado do livro “Miners Against Fascism” de Hywel Francis, sobre mineiros galeses que lutaram a Guerra Civil Espanhola na década de 1930: “se eu posso atirar em coelhos, eu posso atirar em fascistas”. Ou seja, são pessoas comuns, trabalhadores da classe operária partindo para a briga.

Terceira lição: todo mundo deve lutar pelo futuro dos seus filhos.

A música, que está completando 20 anos mais atual do que nunca, faz parte do álbum “This is My Truth, Tell Me Yours” (“Esta é a minha verdade, me conte a sua”), uma frase que poderia fazer parte de qualquer discussão política hoje em dia. São palavras de Aneurin “Nye” Bevan, um político de esquerda que marcou época no País de Gales na primeira metade do século XX até renunciar ao cargo de Ministro do Trabalho quando viu a verba dos programas sociais ser realocada para o rearmamento do país. Todo mundo tem um vizinho doido pra ter um revólver que acha que o Bolsa Família só serve pra sustentar vagabundo.

Quarta lição: em tempos de tantas mentiras e valores invertidos, a minha verdade pode ser bem diferente da sua.

Outro dia, aqui no Brasil, perdemos um patrimônio histórico de valor incalculável graças a nossa própria incompetência. Se não prestamos atenção nem na nossa própria história, seria pedir demais que prestássemos atenção nas histórias dos outros. Ainda mais nas histórias do País de Gales, que nem é dos nossos destinos turísticos preferidos. Mas o Brasil tem pelo menos um bom motivo para ter empatia pelo Manics: o amor pelo futebol. A banda gravou o tema da seleção do País de Gales para a última Eurocopa, em 2016. A letra inclusive cita o Brasil, que eliminou os galeses na Copa de 58 e partiu o coração de toda a nação.

Mas o futebol pode ter cicatrizes bem mais profundas que uma simples eliminação. Em 1989, 96 torcedores do Liverpool morreram pisoteados no Estádio Hillsborough, em Sheffield. O governo e as autoridades envolvidas culparam os próprios falecidos, ignorando a superlotação do estádio e seu péssimo estado de conservação. Coube ao Manics chamar a tragédia pelo nome certo, genocídio, na música “South Yorkshire Mass Murderer”, de 1998. O novo álbum resgata a história em “Liverpool Revisited”, que novamente faz justiça às vítimas, dizendo que todo o ódio que tentaram transferir aos mortos nunca foi a verdade.

Quinta lição: futebol e política se misturam, sim.

Já deu para perceber que os temas abordados se misturam, vão e voltam, alguns parecem que sempre estiveram por aí. No álbum de estreia, “Generation Terrorists” (1992), o Manics já criticava a objetificação feminina antes de virar modinha em “Little Baby Nothing”, que tinha nos vocais a participação de Traci Lords, famosa por ter começado uma carreira de atriz pornô aos 16 anos de idade. O primeiro single da banda, “Motown Junk”, falava de iconoclastia e batia não só na Motown, mas também em John Lennon. Futuramente, sobraria até pro Dalai Lama. O Manics nunca perdoou ninguém. Eu particularmente curto muito os versos da recente “The View from Stow Hill” no qual eles batem em “tweets equivocados” e no “triste facebook”. Essa revolta que serve de combustível para tantas músicas é uma das heranças de Richey Edwards, o poeta atormentado que foi o principal compositor da banda no começo da carreira.

É famoso o episódio em que um jornalista da NME questionou as reais intenções dos músicos e viu, como resposta, Edwards escrevendo “4 REAL” (“de verdade”) no braço com um estilete. Uma atitude que rendeu 17 pontos, ótimas fotos e o tipo de mitologia que todo adolescente roqueiro ama. Em 1995, com a também mitológica idade de 27 anos, Edwards simplesmente desapareceu. Acredita-se em suicídio, mas seu corpo nunca foi encontrado. A ausência do amigo adicionou uma certa melancolia a cada pedaço de música produzido pela banda desde então.

Sexta lição: melancolia com revolta é a melhor receita para se fazer boa música.

Em 1993, um jovem Edwards escrevia que “não tem nada de bom na minha cabeça, o mundo adulto levou tudo embora”. 20 anos depois, um Wire ainda mais adulto abria o álbum “Rewind the Film” com um lamento parecido: “eu não quero que meus filhos cresçam como eu”. No ano passado, desiludido com as eleições americanas, o Brexit e os rumos da própria esquerda que ele cresceu defendendo, o vocalista James Dean Bradfield disse à NME que se sentia um homem sem partido.

Sétima lição: seja qual for a sua ideologia, a autocrítica é fundamental.

Em 2018, a música “Distant Colours” veio para marcar este momento quando, desorientado, Bradfield canta que não consegue mais diferenciar a sua esquerda da sua direita. Um conflito que ele chama de “uma guerra fria para a mente”, talvez a melhor definição para o momento atual que o mundo atravessa. Foi-se o tempo em que era só escolher esquerda ou direita, a questão agora é muito mais moral. É sobre a sua própria consciência. E, enfim, sobre o mundo que vamos deixar para os nossos filhos. Ajuda o fato da música toda ser linda.

Em entrevista para a revista Clash, Bradfield explicou “Distant Colours” da seguinte maneira: “quando você chega a uma certa idade, você não pode mais fingir que não tem essa idade. Tudo se torna uma cor distante. Tudo se torna uma memória distante. Você começa a se desvincular da memória e se envolver com a realidade, e a realidade é tão fraturada que você fica sem nada”. A faixa “People Give In” abre o novo disco avisando que as pessoas se cansam, envelhecem, são esquecidas e vendidas, mas também declara que, apesar de tudo, as pessoas permanecem fortes. Não tenho dúvidas de que esses caras ainda sabem qual lado escolher.

Oitava lição: não é porque você está desiludido que vai escolher o caminho errado.

Apesar das boas críticas recebidas e da relevância temática, muito provavelmente “Resistance is Futile” não vai entrar nas listas de melhores do ano que você acompanha. Não rendeu nenhuma turnê mundial milionária. Não vai mudar o patamar da banda, tão respeitada na Europa, tão ignorada no Brasil. Ninguém vai se lembrar de trazê-los para o Lollapalooza. Os galeses continuarão suas vidas sem saber que depois de mais de 30 anos de carreira ainda têm muito a ensinar a um país tão conturbado e confuso como o nosso, mesmo que pouca gente por aqui esteja prestando atenção.

Fica o grito de socorro: please Manics, come to Brazil. Estamos precisando de toda ajuda possível.

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