O last.fm é a única rede social que importa

Top artists last.fm
Top artists do meu last.fm

Imagine uma rede social onde só se fala de música. Onde os relacionamentos se formam a partir da compatibilidade do gosto musical. Todo mundo sabe o que o outro costuma ouvir. É raro ter uma briga, no geral são apenas pequenas discordâncias musicais. Não tem ninguém discutindo religião, futebol ou política. Familiares permanecem unidos, mesmo que o tio ouça gospel e o sobrinho Sepultura (na verdade, duvido que seu tio esteja lá, o que é ainda melhor). Imagine um mundo onde a paz sonhada por John Lennon reina soberana. Esse mundo existe. É o last.fm.

O serviço foi criado em 2002 – dois anos antes do Orkut, para você ter uma ideia. Mas foi só em 2005 que eu entrei na minha rede social favorita de todos os tempos, mesmo que naquela época a expressão “rede social” ainda nem fosse usada.

Como o last.fm é uma rede social de nicho com funções muito peculiares, permita-me explicar. A sua principal funcionalidade é o scrobbler, uma ferramenta que registra a música que você ouviu no computador, smartphone ou em qualquer dispositivo com o plug-in ou o app do last.fm instalado e ativo. Essas informações compiladas geram um banco de dados de infinitas possibilidades, com tabelas dos mais variados tipos e lindos rankings com seus artistas, músicas e álbuns mais ouvidos no período que você quiser.

Com criatividade, curiosidade e algum tempo livre, você define os parâmetros de pesquisa e tem resultados surpreendentes sobre a sua própria biografia. Por exemplo: eu consigo saber quais músicas eu mais ouvi durante cada Copa do Mundo. Ou que artistas me consolaram naquele período triste em que meu penúltimo relacionamento caminhava para o seu destino final. O único defeito do last.fm é ainda não ter, ele mesmo, pensado nessas possibilidades. Eu adoraria receber relatórios completamente idiotas com informações desse tipo.

Nos primórdios, era tudo muito rudimentar e os scrobbles eram atualizados apenas uma vez por semana. Eu ficava esperando ansiosamente essa atualização, em mais uma daquelas agonias formadoras de caráter que a atual geração mimada jamais terá que suportar, como o download de mp3 em conexão discada e o mertiolate que ardia. Hoje está tudo muito mais fácil, você ouve a música e o scrobble já está lá, em tempo real.

Além dos rankings particulares, é possível acompanhar no last.fm a própria evolução da tecnologia. Em 2006, meu primeiro ano completo no site, eu tive 5.459 scrobbles que provavelmente vieram do Winamp do meu computador de casa. Hoje todos os meus dispositivos estão scrobbleando. Com o Spotify do smartphone com o plug-in já incorporado, virou covardia. Tirando a música que toca no vagão do metrô ou na rádio do supermercado, tudo que eu ouço está registrado ali. Em 2017, foram 23.145 scrobbles.

Vale alertar que o last.fm é uma rede social não tão social assim. Tem lá o inbox para mensagens privadas, para você receber inusitados spams de simpáticas bandas do norte da Noruega. Tem lá o shoutbox para mensagens abertas, onde você pode mandar um “oi sumida, curtindo um Exalta?” e é só. Não é um site muito propício para o stalker tradicional. Foto, só tem a pequenina do avatar. O que importa são as músicas. Quando você conhece alguém ali, é por meio delas. E aí entra o grande trunfo, que é a lista de neighbours, os vizinhos que têm o gosto musical similar ao seu. Um prato cheio para novas amizades e, por que não, novos crushs. Afinal, ter uma super compatibilidade musical vale mais que qualquer match em app de paquera.

Como a rede não faz muita questão de ser social, você pode criar suas próprias ferramentas de interação. Em 2009, inventei uma corrente para trocar CD-Rs com amigos. Funcionava assim: você gravava um CD com suas top tracks (ou com a top track de cada um de seus top artists) e enviava para o correio para um amigo que teria que retribuir a gentileza. Foi uma época muito bonita por lá. Agora que o last.fm está integrado ao Spotify, qualquer um desses rankings se torna uma playlist. Basta abrir a página do ranking, clicar no play da primeira faixa e deixar rolar.

Eu tenho o costume de comemorar no twitter quando algum artista atinge a marca do milésimo scrobble, feito Pelé comemorando o milésimo gol. Também fico trocando o modo de exibição dos tops no meu perfil. Atualmente está no modo anual, pois considero um recorte mais preciso de quem eu sou no momento, mas cada um escolhe seu critério. Pessoas mais desapegadas costumam deixar apenas o top da última semana, por exemplo.

Tem muitas outras funções no last.fm, como rádio de recomendações e agenda de shows. A versão paga tem ainda mais informações, gráficos e tabelas, mas a versão gratuita já é uma beleza. Eu adoraria que outras redes similares proporcionassem tanta informação de graça. O Letterboxd chega perto no registro de filmes, mas não oferece, por exemplo, um ranking dos meus diretores mais assistidos. O GoodReads tem lá seu ranking de escritores mais lidos, mas não vai muito além disso. O TV Time, coitado, apanha feio de todos os outros no registro dos nossos queridos seriadinhos. Ele mostra a quantidade de horas que eu já gastei na vida vendo séries, uma informação que é apenas deprimente.

O last.fm é diferente. Acessar meu perfil por lá tem uma função terapêutica. É um pequeno oásis no meio dessa bagunça que virou a internet. Um lugar calmo e agradável onde meus artistas favoritos estão sempre me esperando. Tudo parece fazer sentido. Se aqueles álbuns estão ali, naquela ordem, é porque eu os coloquei ali. São dados que dizem mais sobre qualquer pessoa do que uma selfie.

Eu gostaria de ter uns rankings desses da vida toda, com Balão Mágico no top 50, mas infelizmente não existia internet quando eu nasci. Ainda assim, 13 anos é bastante tempo e eu considero um privilégio poder listar os artistas, as músicas e os álbuns que mais ouvi nesse período com uma margem de erro insignificante. Espero que o last.fm dure muito e continue por aqui quando eu morrer, com uma inteligência artificial atualizando meu perfil com as músicas que certamente eu estaria ouvindo se ainda estivesse vivo, feito algum episódio de “Black Mirror”. Minhas músicas favoritas, eis um rastro digital que eu adoraria deixar me representando na posteridade.

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