Quando a camisa da banda entorta varal

Queen no Live Aid
Queen no Live Aid

No futebol, a expressão “camisa que entorta varal” se refere a time grande, tradicional e cheio de história cuja camisa é considerada “pesada”. Isso quer dizer que ela praticamente entra em campo sozinha, decide jogos só com suas cores e seu distintivo, provoca respeito imediato. Por exemplo: a final da Libertadores entre River e Boca está arrebentando varais por toda a América do Sul.

O conceito pode muito bem ser aplicado no meio musical para se referir a bandas mundialmente famosas que lotam estádios e arrastam milhares de fãs por onde passam. São monstros sagrados cada vez mais raros, mas aquele varal improvisado que o pessoal estende na rua para vender a camiseta da banda ainda entorta bastante por aí. Aproveite enquanto Paul McCartney e os Rolling Stones ainda estão vivos.

Fui ao cinema ver “Bohemian Rhapsody”, a recém-lançada cinebiografia do Freddie Mercury, cercado de baixas expectativas geradas por críticas negativas. Cinebiografias, assim como adaptações de livros, são sempre um prato cheio para fãs terem do que reclamar. Elas jamais serão 100% fiéis, sempre vai faltar alguma coisa, sempre não foi bem assim que aconteceu, sempre é difícil entender que se trata de uma adaptação, de um filme com começo, meio e fim, e não de um retrato exato da vida real. Neste caso específico, o pessoal não perdoou nem o primeiro trailer lançado.

Não que o filme não tenha seus defeitos, ele é cheio de clichês de cinebiografias, além de soluções óbvias como usar “Who Wants To Live Forever” quando Freddie descobre ter AIDS. Brian May e Roger Taylor são produtores do filme, então muita coisa deve ter sido controlada ali. As drogas, por exemplo, ficaram em segundo plano. Mas a sexualidade do protagonista, que não aparecia no trailer, está toda lá.

Talvez entorpecido por tantas fake news conduzindo a trajetória do mundo na vida real, eu não ligo mais para o que é real ou não em uma adaptação cinematográfica. Eu simplesmente me deixo levar. E o filme do Bryan Singer me levou diretamente para um lugar que eu estava ignorando e que foi muito real: a minha própria infância.

O Queen foi a primeira banda da qual eu gostei na vida. Eu era criança nos anos 1980 e fui diretamente impactado por aquela fase mágica de Rock in Rio e Live Aid que o filme retrata tão bem. Aquele Rock in Rio que eu vi pela TV foi tão marcante que moldou não só o meu caráter musical, mas o de toda uma geração.

O Queen foi a maior banda de sua época e Freddie Mercury sabia comandar uma plateia de estádio como ninguém. Ele fazia o que queria com aquelas milhares de pessoas e eu sempre considerei isso algo que vai além do talento e do carisma. É um superpoder, um dom sobrenatural. Um magnetismo natural que líderes religiosos, políticos e todo mundo que tem por função controlar as massas sonham em ter. Os demais integrantes do Queen ajudavam bastante, como vemos na cena em que Brian May (Gwilym Lee) cria “We Will Rock You”. Ele queria dar ao público a chance de participar ativamente da música. A magia do Queen era essa: o público fazia parte do espetáculo.

Então foi o Queen que me fez gostar de banda grande, dessas que lotam estádio e param a cidade. Depois deles, eu iria me apaixonar pelo U2, outra banda que sempre soube dominar uma multidão. Curiosamente, naquele mesmo Live Aid em que o Queen se destacou como maior banda do mundo, o U2 se apresentava em franca ascensão, prestes a tomar o trono.

Todo meu respeito aos artistas menores, esses bravos guerreiros em suas jornadas pelos palcos acanhados e intimistas desse mundo. Espero continuar prestigiando vocês pelo resto da vida – até porque vai chegar o dia em que a idade não vai me permitir encarar a multidão de uma banda grande. Mas é ela, a banda grande, que faz o coração bater mais forte. Foi ela que, em tese, fez todo artista ainda desconhecido pegar um instrumento pela primeira vez. É ela que conduz milhares de pessoas ao mesmo culto, no mesmo ritmo, cantando a mesma canção.

Por isso, a sequência de “Bohemian Rhapsody” no Live Aid com Rami Malek imitando os trejeitos de Freddie Mercury como um fã na frente do espelho diante de uma plateia ensandecida recriada em computador me emocionou tanto quanto os melhores shows que vi esse ano. Não me lembro de ter visto, no cinema, uma representação tão honesta da catarse provocada por um grande show ao vivo. Ao final da minha sessão, a plateia aplaudiu.

Trata-se de um filme que deve ser visto no cinema, em tela grande, do tamanho que o Queen merece. Meu primeiro filme no cinema foi o campeão de bilheteria “E.T.”, minha primeira banda do coração foi o Queen, então desconfio que serei eternamente refém dos maiores espetáculos da Terra. Muito grato por ter vivido essa época e iniciado minha trajetória de fã com experiências tão grandiosas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s