A nossa selfie na Notre Dame

(com Thiago Blumenthal)

Então a Catedral de Notre Dame pegou fogo e, de repente, mais rápido do que o avanço das labaredas pela estrutura gótica, as redes sociais estavam repletas de fotos de turistas felizes em frente a ela. Os registros de viagens passadas formaram um grande #tbt fora de hora, pois era uma segunda-feira e a hashtag determina que o dia correto para se recordar o passado seja a quinta. Também rapidamente, os dedos mais uma vez foram apontados. Que oportunismo, aproveitar-se da tragédia para ostentar uma viagem a Paris. Que sacrilégio, usar no luto a mesma foto que você usa no Tinder. Talvez você não seja tão diferente da Nana Gouvêa fazendo ensaio fotográfico no rastro do furacão Sandy.

Em todo acontecimento desse tipo, o internauta emocionado é criticado por tentar transferir o raio da tragédia para ele, para o seu mundinho todo particular. Somos todos a imprensa gaúcha procurando um gaúcho entre os sobreviventes do tsunami. Ou a imprensa esportiva procurando como o Menino Neymar se encaixa naquela história. Ou o sujeito que está na Europa e se marca como seguro no Facebook em algum atentado que aconteceu a cinco países de distância. A vida cotidiana é muito besta e todo mundo quer se sentir parte de algo maior. Tem que haver algo mais que nos conecte ao que está acontecendo. São apenas seis graus de separação de praticamente tudo no mundo.

Eu estive lá. Eu poderia estar lá agora. Eu poderia ser uma das vítimas. Tudo gira em torno do “eu”, mas trazer uma tragédia global para o seu mundo particular não deixa de ser uma demonstração de empatia, a palavra da moda. Você está se colocando naquele lugar. Você está retornando para lá. Você está de certa forma agradecendo por aquele lugar ter feito parte da sua história um dia.

Todo mundo meio que se sente jornalista (e, no limite, ombudsman) nas redes sociais. Compartilhamos informação, fazemos curadoria de conteúdo, atraindo novos amigos (e quem sabe possíveis amantes), influenciando pessoas, no loop infinito desde a publicação daquele célebre livro americano da década de 30 (!), quando o termo internet era só um vislumbre a um planeta distante da ficção científica. E, de fato, seria bem estranho comprar um jornal e ter uma foto do editor em frente à Notre Dame intacta no inverno passado.

O que pega é que o usuário de internet não tem essa responsabilidade. O cidadão na internet é só um cidadão na internet, o que não o enquadra em uma função social (ao mesmo tempo não o isenta de tantas e tantas vezes ser escroto — mas isso, claro, fora da internet também). Ele pode gostar do filme do Queen, mesmo que a edição seja tecnicamente imperfeita, algo que a gente cansou de ler na noite do Oscar. Ele pode comemorar a campanha do Corinthians mesmo que taticamente a postura do time seja contestável. Às vezes é bom ser apenas humano na internet. Compartilhar uma boa lembrança não deveria ofender ninguém e talvez diga mais sobre quem se ofendeu do que sobre o suposto agressor.

Seria muito fácil e cômodo classificar a questão como um conflito entre a ostentação e a inveja, mas o buraco parece ser bem mais embaixo. Existe uma grande onda mundial de desvalorização da história alheia. Dos governantes que negam ou tentam reescrever o passado, passando por times de futebol que comemoram títulos retroativos na canetada, até chegar ao sujeito tóxico do dia a dia que despreza a sua trajetória e tudo que você conquistou até aqui. Mais do que nunca, o mundo está a todo tempo querendo diminuir seus feitos e provar que você está vivendo errado. Eles estão por toda parte. São eles que querem rasgar as suas fotos de viagem. Que simbólico o fogo que apagou parte da história da Notre Dame causar esse tipo de reação. Mais simbólico ainda no caso do Museu Nacional do Rio, que veio praticamente todo abaixo em setembro do ano passado, ou seja, anteontem.

Thais Mayumi, museóloga do Museu Nacional, tuitou que, no caso deles, “foi muito importante ver as fotos da pessoa lá depois do incêndio. Um patrimônio só existe na relação com as pessoas. É um alento ver todos resgatarem as memórias, os afetos que tiveram com aquele lugar”. Mais tarde, ela completou: “Se você já esteve na Notre Dame e não sentiu vontade de compartilhar seu sentimento ontem, você não entendeu nada”.

Já Katie Hawkins-Gaar, jornalista e escritora da Flórida, publicou um emocionante ensaio na CNN contando a importância da foto do seu marido Jamie, tirada na lua de mel do casal em 2008 em frente à Catedral. Jamie morreu em 2017 e, segundo Katie, a reconstrução da Notre Dame pode ajudar na reconstrução da sua própria vida. Talvez nem toda foto de viagem seja uma ostentação vazia, afinal.

É claro que todos podemos exagerar nas redes sociais. E na vida. Não somos robôs, graças a Deus. O melhor da vida é errar, já diria o filósofo. E podemos inclusive olhar com algum desdém diante de um certo postzinho babaca. Porque passamos do limite na vida, na hora de fazer a cagada, na hora de julgar a cagada, na hora de interpretar algo que nem cagada é. Tem gente que, em vez de recordar a visita à Notre Dame com uma foto na frente da catedral, faz questão de mostrar o quanto conhece Paris, o quanto morou lá, o quanto conhecia aquele bistrozinho que ninguém conhece, mas, amiga, eu preciso te indicar. Fica pertinho da catedral. Eu ia lá sempre, um amor. Eu tenho o direito de achar babaca, a gente tem o direito de tudo. Pô, um monumento estupendo da civilização em chamas e você vem me falar da joça desse bistrozinho. Contudo, e ainda assim, a pessoa pode falar do tal local onde costumava se entupir de croque-monsieur organo-vegano. Lamentamos que a memória dessa pessoa X se reduz ao tal bistrô, mas ok, é do jogo. E, na boa, o problema é dela. Bem mais sincero mostrar o quanto você, no meio da sua eurotrip, tirou alguns minutos daquele dia para tirar uma foto diante daquele monstro contornado pelo Sena. É verdadeiro, não há vergonha alguma: sim, fui turistão (como todos somos), e, caramba, eu preciso tirar uma foto na Notre Dame. Já se você fala do bistrô você está sendo apenas mais um brasileiro bobão que quer ser parisiense. E, de novo, TUDO BEM, tá tudo certo. Vai fundo, amigão. É só a internet. É só a vida. E nem uma coisa nem outra significam muita coisa. Nada comparado às nossas memórias — que é o que temos, nos moldam, nos dizem quem somos e, com sorte, apontam caminhos possíveis até o suspiro final.

Fotos contam histórias. Você pode aprender muito com os lugares que visita. Lembre-se das cenas finais de “Antes do Amanhecer”, quando o filme relembra os lugares que o casal interpretado por Julie Delpy e Ethan Hawke visitou, agora vazios, com uma luz diferente, sem vida, porque os dois protagonistas não estão mais lá. Na mesma trilogia, em outro momento, o protagonista comenta justamente de Notre Dame — ele conta uma história de um oficial nazista encarregado de botar tudo abaixo durante a ocupação alemã em Paris. Diante do sublime que só a alma humana é capaz, ele não consegue apertar o botão de detonação. Ele jamais iria se perdoar por ter colocado Notre Dame em ruínas. Delpy pergunta se a história é real. Ele diz que não sabe, só ouviu falar. Mas a história é boa. Afinal, tudo é uma grande história — os fatos são danos colaterais. Ela então conclui que “bem, um dia a Notre Dame não estará mais aqui”. Nada estará mais aqui. As memórias, por mais escorregadias que sejam, registradas com selfie ou não, essas sim. Essas ficam. Até não ficarem mais também.

Se uma árvore caiu no meio da floresta e ninguém tirou uma selfie diante dela quando ela era viva, será que ela realmente existiu? Talvez seja uma boa hora para valorizarmos mais as boas lembranças. As nossas e as dos outros.

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