As regras do jogo

A série “Game of Thrones” enfim foi decapitada ontem, dia 19/5/2019, podendo agora repousar no limbo dos fenômenos de audiência que marcaram época e terminaram de maneira melancólica, como “Lost” e “Arquivo X“. A HBO, lar de séries revolucionárias como “Família Soprano” e “A Escuta“, agora também tem um universo nerd para explorar, expandir e chamar de seu.

Foram quase 10 anos em Westeros e muita coisa mudou desde então, inclusive a forma como consumimos séries. Nesse período, os serviços de streaming dominaram o setor e é lamentável que a própria HBO ainda não tenha conseguido emplacar sua plataforma, mesmo com um produto como “Game of Thrones” em mãos. Nos últimos meses, reclamar dos problemas técnicos da HBO GO foi tão comum quanto reclamar da superficialidade dos roteiros.

Também houve uma mudança radical nas sagradas regras do spoiler. Nas noites de domingo, as redes sociais se tornaram terras de ninguém com memes e comentários em tempo real. Se você não assinasse HBO, o problema era todo seu. Para desviar das balas perdidas era cada um por si. Reuniões em casas de amigos e até em bares se tornaram soluções comuns. E assim “Game of Thrones” se tornou o Superbowl das séries. Foi bonito de se acompanhar, mesmo com toda aquela gente “que nunca viu porque não gosta de dragão e zumbi” fazendo questão de explicar isso várias vezes para tentar, de alguma forma, participar da festa. Porque em fenômenos assim, é inevitável, todo mundo quer brincar.

O mundo aqui do lado de fora também mudou nesse período, mergulhando profundamente nesse chorume de ignorância, intolerância e inversão de valores do qual dragão nenhum vai nos salvar tão cedo. Talvez “Game of Thrones”, em seus melhores momentos, tenha nos preparado para encarar esse mundo novo cheio de decepções, onde tudo que nós consideramos correto segue sendo derrotado. Estamos falando de uma série que empurrou uma criança da janela no seu primeiro episódio porque ela viu um casal de irmãos transando. Uma série que cortou a cabeça de seu protagonista no final da primeira temporada. Que matou boa parte de uma família, inclusive uma mulher grávida, durante uma festa de casamento. Uma série que deixa você achar que vai ganhar a luta para tomar uma rasteira aos 45 do segundo tempo, quando o suposto vilão usa o que resta de suas energias para esmagar a sua cabeça.

Digo “suposto” porque na série, assim como na vida, nunca se sabe quem é vilão de verdade. Depois de 8 anos, o homem incestuoso que empurrou a criança da janela já era um dos personagens mais queridos de todos. Se o grande monstro místico que ameaçava a humanidade não disse a que veio, a grande heroína dos fracos e oprimidos sucumbiu à loucura e tornou-se uma genocida cruel da noite para o dia. E como foi escura aquela noite. Tão escura que o diretor de fotografia precisou vir a público se justificar e botar a culpa em você que não soube configurar a televisão. Uma reação mais vergonhosa que esquecer um copo do Starbucks na mesa da rainha.

Foram muitas lambanças desde que a fonte do escritor George R.R. Martin secou e a dupla David Benioff e D. B. Weiss (agora conhecida como D&D) teve que se virar sozinha. Comecei a notar que algo estava errado quando caminhos que levavam uma temporada inteira para serem percorridos começaram a ser superados em questão de minutos. Simbolicamente, a partir daí, todos os caminhos ficaram mais fáceis. Virou passeio, virou bagunça e virou fanfic. Walter White levou várias temporadas e muitas páginas de um roteiro muito bem escrito para “break bad” – para a Mãe dos Dragões, meia dúzia de cenas e uma providencial herança genética foram suficientes.

Foram muitas decisões imbecis, como sequestrar um zumbi para convencer a rainha que ele existia (spoiler: não adiantou nada). Foram muitas estratégias militares cretinas, como não aproveitar todo o poder de fogo dos dragões contra os inimigos de verdade (spoiler: apenas as criancinhas indefesas da capital sentiram esse poder). Os diálogos foram ficando cada vez mais fracos, como naquelas passadas de pano vergonhosas do último episódio, onde cada fala tentava justificar uma falha anterior do roteiro. Personagens que isolados em suas aventuras particulares eram tão complexos se juntaram e ficaram rasos como a versão brasileira de “Shallow”. Ícones feministas fortes e determinadas choraram por causa de macho. Uma assassina treinada com sangue no olho desistiu da missão de sua vida porque, veja só, alguém lhe disse que a vingança não vale a pena.

Uma demonstração básica de como a idade mental da trama regrediu é notar que o sexo diminuiu e as batalhas épicas aumentaram. Batalhas que foram ficando cada vez mais sem graça até chegar aquela que a gente nem conseguiu ver direito. Vale lembrar que, no Brasil, não foi só a fotografia escura: o episódio que foi exibido aos assinantes tinha uma compactação escrota que deixou tudo, além de escuro, quadriculado. Parecia que alguém tinha enviado o arquivo pelo WhatsApp. O brasileiro sempre consegue se foder um pouco mais que o resto.

Isso tudo dias depois dos Vingadores mostrarem como se fecha uma história grandiosa com trocentos personagens no cinema. Na primeira temporada de “Game of Thrones” eu escrevi, emocionado, que a TV tinha superado o cinema. Pois 8 anos depois eu peço desculpas, porque até filme de hominho da Marvel acabou melhor que “Game of Thrones”.

A série criou um universo próprio que misturou política e sexo a dragões e zumbis. Um novelão de orçamento astronômico com tramas complexas e personagens interessantes e convincentes cujas relações faziam a tela tremer. Quando vinha uma surpresa, ela fazia todo o sentido naquele contexto. Não era só descobrir se o fulano ia morrer ou sentar no trono, mas como ele ia chegar lá. Nas suas temporadas finais, “Game of Thrones” queimou todas as regras que ela mesma criou, preferindo acariciar o seu público com românticos voos em dragões. Para citar outro exemplo óbvio: a rainha má, de trajetória tão marcante, se tornou mera espectadora da trama, não enfrentou ninguém e morreu com uma tijolada. Outros tantos personagens foram sacrificados sem nenhum preparo e sem nenhum impacto. Volte no tempo e reveja a cena de Ned Stark perdendo a cabeça. Repare na construção, nos detalhes, nas reações, no suspense e no desespero que ela causa até hoje, mesmo que você já saiba o desfecho. Compare com a morte capenga do último episódio. Parece outra série.

Quando chegamos a essa reta final, já nem importava mais quem ia ficar no trono, quem ia morrer, quem ia sobreviver e qual o destino daqueles personagens. A gente estava mais preocupado com o lobo abandonado do que com o seu dono, protagonista da pior jornada de herói já criada desde que o Campbell inventou o conceito. A gente só queria fazer o que o dragão sobrevivente fez, tacar fogo no trono e voar pra longe.

Nos momentos finais, como quem pede desculpas, a série voltou a olhar para os livros. A brava cavaleira atualizou o verbete de seu amado falecido, o gordinho sábio apresentou a nova edição atualizada das “Crônicas de Gelo e Fogo” e o marketeiro político anão elegeu o novo rei com um discurso sobre a importância da história. Então podemos concluir que o dono do trono, o único que conhece toda a história mesmo que tenha se fingido de morto enquanto o pau comia, o verdadeiro rei quebrado é George R.R. Martin. Para a dupla D&D, Westeros é um reino ingovernável.

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