Adaptação

Duas coisas que você precisa saber antes de assistir a “Adaptação”, o novo filme de Spike Jonze: Charlie Kaufman é o roteirista deste e também do longa-metragem anterior do diretor, o cultuado “Quero Ser John Malkovich”; e “O Ladrão de Orquídeas” é um livro de Susan Orleans que deveria ter sido adaptado para o cinema por Kaufman. Deveria?

De certa forma, podemos dizer que Kaufman realmente adaptou o livro para as telas. Mas, depois de uma crise de criatividade que durou semanas, o roteirista resolveu inserir um pequeno detalhe à história: a sua própria vida. O resultado disso é “Adaptação”.

Parece confuso, mas na tela tudo se resolve graças ao diretor Spike Jonze, que narra as diversas camadas do filme com perfeição, num exercício de metalinguagem poucas vezes visto no cinema. De um lado, temos toda a crise de Kaufman tentando adaptar o livro. De outro, temos a história do livro sendo contada. Duas linhas narrativas diferentes que irão se encontrar e dar sentido ao filme.

No papel de Charlie Kaufman, Nicolas Cage dá um show. Gordo, careca, perturbado, sem nenhuma auto-estima e com uma dificuldade enorme de se relacionar com pessoas. É a melhor performance do ator desde que ganhou o Oscar por “Despedida em Las Vegas”. Cage também interpreta o irmão gêmeo de Kaufman, Donald, de personalidade totalmente diferente: extrovertido, simpático e feliz.

Donald está morando com o irmão por um tempo e, sem nenhum rumo definido na vida, decide tentar a sorte como roteirista de suspenses. Detalhe: Donald Kaufman não existe na verdade, apenas no filme. Porém, está creditado como co-autor do roteiro e foi indicado ao Oscar. Deu pra entender o tamanho da brincadeira que o Kaufman real criou?

Paralelamente a Charlie e Donald, vemos a história de Susan Orleans e seu livro “O Ladrão de Orquídeas”. Meryl Streep é Susan, uma jornalista de meia-idade entediada, infeliz no casamento e em busca de um sentido na vida. O tal ladrão de orquídeas é John Laroche – interpretado por Chris Cooper – um sujeito aparentemente grosso, feio e egocêntrico, mas que revela-se cativante tanto para a platéia quanto para a própria Susan. A relação entre Susan, Laroche e as flores traz poesia e beleza ao filme, contrastando com as neuroses de Charlie.

Meryl e Cooper, assim como Cage, estão impecáveis e também foram indicados ao Oscar. Faltou a indicação ao diretor Spike Jonze. Depois de dirigir alguns dos melhores videoclipes da história da MTV (entre eles “Sabotage”, dos Beastie Boys e “Weapon of Choice”, do Fatboy Slim), o jovem Jonze começa a construir uma carreira brilhante no cinema, com filmes estranhos e geniais como “Quero Ser John Malkovich” e este “Adaptação”. Ainda é cedo para chamá-lo de “novo David Lynch”, mas tanto ele quanto o verdadeiro Charlie Kaufman devem ser congratulados por um dos melhores filmes do ano.

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