Depois do fracasso de sua última empreitada dramática no filme “Cine Majestic”, Jim Carrey resolveu voltar ao estilo que o consagrou: a comédia, de preferência uma história onde coubessem todas as suas caretas. Para isso, chamou o velho companheiro Tom Shadyac (de “Ace Ventura” e “O Mentiroso”) e assim foi concebido “Todo Poderoso”, grande sucesso que, em sua estréia, jogou o badalado “Matrix Reloaded” pro segundo lugar das bilheterias americanas.
O filme, se é que você ainda não conhece, conta a história de Bruce (Carrey), um repórter cansado de ser apenas uma cara engraçada na TV. Ele quer credibilidade e, principalmente, o cargo de âncora do telejornal – mais ou menos uma metáfora da carreira cinematográfica do astro. Após uma série de incidentes e duros golpes do destino, Bruce resolve culpar a Deus por seus infortúnios e acaba chamando a atenção do Próprio, vivido por Morgan Freeman, que empresta sua dignidade ao filme.
Cansado de escutar reclamações e disposto a encarar umas merecidas férias (teria Ele se transformado em Antonio Fagundes e vindo para o nordeste brasileiro?), o Criador transfere todos os seus poderes para Bruce, que terá uma semana para brincar de Deus – com todas as responsabilidades que vêm no pacote.
Claro que Bruce não está interessado em ajudar as pessoas, ouvir preces e fazer o bem. O repórter à beira do desemprego resolve utilizar seus dons para benefício próprio, seja para conseguir o almejado posto de âncora, seja para dar uma esquentada no seu relacionamento com Grace (Jennifer Aniston, da série “Friends”).
Temos então o cenário perfeito pra Carrey desfilar suas caretas, seus trejeitos e algumas piadas muito boas – ainda que a maioria você já tenha visto no trailer.
O problema de “Todo Poderoso” está na sua concepção: trata-se de um filme de uma piada só. Chega uma hora em que todas as variações da mesma piada se esgotam e então o filme descamba pro sentimentalismo piegas: Bruce percebe que sua responsabilidade é enorme e começa a repensar sua vida. O público que pagou para ver caretas e Jim Carrey brincando de Deus não deve gostar de lições de moral, mas a esta altura o ingresso já foi pago e o comediante já provou que ainda tem poderes para atrair muita bilheteria.
Se for pra identificar outra metáfora com a carreira de Jim Carrey, esperamos que ele repense sua vida, pare de usar seus poderes em vão e volte a fazer o bem – ou seja, filmes como “O Show de Truman” e “O Mundo de Andy”.