O maior problema do “Hellboy”, adaptação dos quadrinhos underground criados por Mike Mignola, não é o filme em si, mas sim a época em que foi lançado. Faltou noção de timing pra distribuidora brasileira, que achou interessante aproveitar as férias escolares e ignorou o fato de “Homem-Aranha 2”, o arrasa-quarteirão do ano, ter jogado lá pra cima as espectativas do público para os chamados “filmes de heróis”. Depois das aventuras de Peter Parker, o povão não vai se contentar com qualquer porcaria recheada com efeitos especiais na tela.
Não que “Hellboy” seja tão ruim assim. Nota-se o esforço do diretor Guillermo Del Toro (“Blade 2”) e do elenco (principalmente Ron Perlman, em seu primeiro papel de destaque após toda uma carreira como coadjuvante em filmes como “O Nome da Rosa” e “Alien – A Ressurreição”). Porém, de boas intenções o inferno está cheio (rá!). O roteiro deixa de lado a inteligência e as explicações sobrenaturais dos quadrinhos, concentrando-se mais no batido tema do “supervilão que quer dominar o mundo” e no capenga amor platônico do personagem-título por sua colega Liz (Selma Blair). Novamente, a comparação é inevitável: faltou o carisma do casal Peter Parker/Mary Jane.
Hellboy é, como o próprio nome já diz, um menino do inferno. Veio ao nosso mundo ainda bebê, quando os nazistas abriram um portal com ligação direta para o inferno, em busca de superpoderes para Hitler (lembre-se, você viu isso na série Indiana Jones). O diabinho é criado como filho pelo Dr. Trevor Broom (John Hurt), chefe de uma unidade de investigação especializada em casos sobrenaturais e criaturas de outros mundos, o Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal (“Arquivo X” encontra “Homens de Preto” misturado com “Spawn”). Já adulto, Hellboy é o principal agente do bureau, uma lenda na cidade, e lixa os chifres para minimizar sua aparência diabólica. As tais investigações, no filme, tornam-se apenas caçadas a monstros do além. Assim, o cérebro privilegiado do meio homem/meio anfíbio Abe Sapiens (Doug Jones) nem tem tanta utilidade, e de sobrenatural mesmo, apenas uma cena onde o “Vermelho” (apelido do herói) pede informações a um defunto.
A principal diferença entre HQ e filme é a inclusão de um personagem humano sem anormalidades, o agente John Myers (Rupert Evans), uma espécie de estagiário de Hellboy e que também se interessa por Liz. Tudo bem, os roteiristas queriam incluir um personagem normal para que o público pudesse se identificar. Mas precisava ser tão normal? Myers é completamente dispensável na trama, além de totalmente sem graça. Hellboy (e Ron Perlman) tem carisma suficiente pra levar o filme sozinho nas costas.
Entre mortos, feridos e criaturas do inferno, “Hellboy” consegue divertir, graças a algumas boas cenas de ação, bons efeitos e muitas tiradinhas cômicas do protagonista. O visual (fotografia, direção de arte e maquiagem) é impecável. Faltaram um roteiro mais interessante, um vilão menos canastrão e, pelo amor de Deus, mais participação de Liz e de seus poderes com fogo. Quem sabe no segundo filme eles não conseguem acertar a mão?