Andaram vendendo “Colateral” como o primeiro filme no qual Tom Cruise interpreta um vilão. Mentira. Primeiro, porque o pessoal se esqueceu de “Entrevista com o Vampiro”, no qual o astro deu (semi)vida ao vampiro Lestat. Segundo, porque em “Colateral” Tom Cruise é um dos vilões mais carismáticos a surgirem na tela nos últimos tempos – portanto, não se sinta culpado caso venha a sentir empatia por seu personagem.
Ele é Vincent, um assassino profissional que deve eliminar 5 vítimas ligadas a um poderoso chefão das drogas em apenas uma noite. O destino o coloca no caminho – e no carro – de Max (Jamie Foxx, de “Um Domingo Qualquer” e da cinebiografia de Ray Charles), um pacato motorista cheio de sonhos e boas intenções, verdadeiro protagonista do filme.
A contragosto, Max vira motorista dos crimes de Vincent, enquanto são perseguidos pela divisão de narcóticos da polícia e pelo FBI.
O argumento de “Colateral” não traz muita novidade ao gênero, porém a condução de sua trama sim. O diretor Michael Mann (de “O Informante”) consegue manter a tensão durante todo o longa, ao mesmo tempo em que desenvolve seus personagens. Assim, vemos que Vincent não é de todo mal, apesar de ter uma visão distorcida da realidade – não sente remorsos e tem um ponto de vista extremamente frio em relação ao ser humano. Da mesma forma, Max não é perfeito, e ao seu próprio jeito também tem uma visão distorcida da realidade, inventando ilusões que tornam sua vida menos maçante. O conflito entre os dois é o verdadeiro espírito do filme, mais do que o suspense e a ação.
Conflito este pontuado por uma impressionante fotografia noturna, com longas tomadas realizadas com um mínimo de luz, dentro do táxi, pelas ruas de Los Angeles. Ou então em andares de prédios totalmente sem luz – onde a cena é iluminada apenas pelas luzes da cidade ao fundo -, ou ainda em uma boate escura e barulhenta (atenção para a ótima trilha sonora) em uma sequência magistralmente conduzida por Mann.
“Colateral” se passa em Los Angeles, mas se fosse em Nova York seria praticamente uma homenagem explícita ao cineasta Martin Scorsese. Imagine uma mistura de “Taxi Driver” com “Cabo do Medo”, com Foxx e Cruise se revezando nos papéis de Robert DeNiro.
Alguns podem reclamar da falta de explicações na história, afinal nunca sabemos direito o que está acontecendo, quem realmente são os bandidos e porque Vincent está matando aquelas pessoas. Mas, para isso há uma explicação. Como o referencial do espectador é o personagem Max, um sujeito normal que de repente se vê no meio de uma guerra entre polícia e bandidos, apenas ficamos sabendo o que o próprio Max sabe. O resto é resto e a única coisa que importa é se o taxista vai conseguir sair dessa enrascada, livrar-se de Vincent e ficar com a mocinha (Jada Pinkett Smith, de “Matrix Reloaded”).
À vontade como vilão, Cruise tem o filme todo na mão. Seu personagem destila ironia, conta com meia dúzia de frases memoráveis e, quando entra em ação, até faz lembrar o agente Ethan Hunt de “Missão Impossível”. O grande problema do filme é justamente quando Vincent torna-se um supervilão indestrutível nos moldes de um Exterminador do Futuro, deixando o carisma, o cinismo e o lado humano pra trás. É nessa hora, já no clímax do filme, que todo o castelo de cartas montado pelo diretor vem abaixo, dando lugar a um tradicional jogo de gato e rato. Faltou ousadia ao final do roteiro para “Colateral” tornar-se um filme irretocável.