Transformers

Faço 30 anos no mês que vem. Isso quer dizer que eu era uma criança feliz nos anos 80 que brincava com Comandos em Ação, Transformers, He-Man e Thundercats. Isso também quer dizer que eu sou o público-alvo do filme “Transformers”: marmanjos crianções com memória afetiva aguçada que hoje ganham seu próprio dinheiro pra poder gastar com essas nostalgias oportunistas.

Apesar de ter brincado muito com aqueles carrinhos que se transformavam em robôs, eu não guardava tanto carinho assim pela franquia. Nem me lembrava dos nomes dos personagens, nunca fiquei ansioso por um filme deles, a não ser pela curiosidade de conferir os efeitos especiais, é claro. Então Steven Spielberg abraçou a causa e entregou o projeto nas mãos de Michael Bay, que deu um tempo em sua tradicional parceria com Jerry Bruckheimer. O sentimentalismo de Spielberg poderia ajudar o explosivo Bay, afinal.

Não vou me juntar ao coro que anda dizendo que Michael Bay nasceu pra dirigir “Transformers”, já que gosta mais de máquinas e explosões do que de gente. Continuo achando que se trata de um diretor medíocre, e acredito que todas as virtudes do filme são fruto do dedo mágico de Spielberg na produção. Ou você vai me dizer que a cena do robozão saindo da piscina na frente da menininha assustada foi criação de Michael Bay?

Já foi dito por aí que “Transformers” resgata o espírito das aventuras juvenis produzidas por Spielberg e George Lucas nos anos 80, e é por aí mesmo. Imagine “Gremlins”, troque o bichinho fofinho de presente por um Camaro enferrujado e pronto.

A primeira metade de “Transformers” tem esse clima de Sessão da Tarde, com o protagonista loser e nerd Sam (Shia LaBeouf) ralando pra ganhar seu primeiro carro e conquistar a menina mais gatinha da escola, Mikaela (Megan Fox). Paralelamente, uma facção do exército americano no Qatar (não quiseram colocar o Iraque por quê?) descobre uma forma de vida bizarra que os persegue pelo deserto e coloca o governo americano em estado de alerta. No comando da equipe, o capitão Lennox (Josh Duhamel).

Essa primeira parte é um primor. O modo como Sam e seu carro, o Camaro amarelo, iniciam uma amizade enquanto o veículo faz de tudo pra ajudá-lo a conquistar a moça pedestalizada (carros sempre ajudam, você sabe) vale o preço do ingresso. A amizade meio Elliot & E.T. poderia render um filme só dela. O Camaro é o antigo Fusca do desenho, Bumblebee. Bay disse que trocou o Fusca pelo Camaro porque ninguém hoje em dia quer ter um Fusca pra pegar mulher. Pode até ser verdade, mas o fato é que a presença de um simpático Fusca transformaria (hehe) “Transformers” em “Se Meu Fusca Falasse”. Devido a um defeito em seus circuitos, Bumblebee não fala. Por isso se comunica através das músicas do seu rádio FM. Sensacional. Logo ele revela ser mais do que um carro e suas primeiras cenas de ação são fantásticas. Até este momento, pensei estar diante do filme mais legal já feito na história do cinema.

Mas lá pela metade “Transformers” se perde e o padrão Michael Bay de câmera tremida e explosões toma conta. É quando todos os outros robôs aparecem (os mocinhos são os Autobots, os bandidos são os Decepticons) e “Gremlins” dá lugar ao “Godzilla”. Apesar da longa duração do filme (2h24) e do ritmo acelerado, muita coisa acontece ao mesmo tempo e você não tem nem tempo de perceber quem são os mocinhos e quem são os bandidos. As explicações de toda a confusão envolvendo o tataravô de Sam parecem criadas por uma redação de primário. Militares, hackers e agentes do governo discutem sem parar, o povo corre pra lá e pra cá, e a ação que estava numa represa de repente passa pra uma rodovia e depois pra uma cidade sem você entender direito o motivo, e tudo vai sendo destruído sem a menor cerimônia.

O clima de seriado japonês é reforçado pelos péssimos diálogos que saem da boca dos robôs, coisa de desenho ruim mesmo. Optimus Prime, o líder dos Autobots, é chato e fala mais do que faz. Nessa confusão toda, Bumblebee perde espaço e sentimos sua falta, enquanto Sam corre, cai, quica e voa para salvar um tal cubo que é o McGuffin, o propósito de toda a luta, que pode destruir a humanidade e blablabla. A cena da batalha final é tão, mas tão fantástica, que o clímax propriamente dito, a sua resolução final, acaba frustrando muito.

Nessa fase final, os efeitos especiais dominam. Fazia tempo que a Industrial Light & Magic não impressionava tanto. Na verdade, desde que perdeu espaço pra WETA do Peter Jackson. Mas mesmo os efeitos cansam, mostrando um milhão de vezes a transformação de cada robô com a câmera girando ao seu redor.

No elenco, Jon Voight e John Turturro agregam valor, mas nem precisava. É impressionante, o jovem Shia LaBeouf já tem carisma suficiente pra carregar um filme desse tamanho nas costas. Fico feliz que ele esteja no próximo Indiana Jones, vai ajudar bastante o Harrison Ford. Já Josh Duhamel, da subestimada série “Las Vegas”, aparece bem quando é preciso café no bule, nas cenas de ação. Anote esses dois nomes, eles vão aparecer muito daqui pra frente.

Se Spielberg ensinou Bay a lidar com atores, então toda a produção de “Transformers” já valeu a pena. Mas ainda assim, no meio de tanto barulho, é o olhar robótico de Bumbleblee que causa maior empatia, com mais expressão do que todo o elenco de “Pearl Harbor”.

5 comentários sobre “Transformers

  1. Eu gostei do filme. Bizarramente mal editado às vezes, mas valeu o ingresso.E sobre ser um Camaro e não um Fusca, na verdade foi porque a Wolks não quis associar a imagem dela com um filme \”violento\”. Isso aí que o Bay disse tá mais parecendo uma desculpa. É meio corajoso demais um diretor abrir mão de um ícone, como era o Bumblebee como um fusca, simplesmente pra fazer mais sentido o garoto conquistar a garota.Eu digo isso porque era fã doente de Transformers e fui ver o filme doido pra rever o \”Lider Optimus\” em ação, como foi chamado no Brasil.

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