Elvis é Assim

Quando Elvis morreu, o lendário crítico Lester Bangs publicou um texto sensacional dizendo que o Rei foi o único homem e deixá-lo excitado em toda sua vida. Ao completar 30 anos de sua morte esse mês, uma avalanche de DVDs invadiu as lojas. Um deles, “Elvis é Assim”, me hipnotizou durante uma boa meia hora, exibido numa TV de LCD de uma megastore paulistana. Algumas semanas depois, o DVD já está esgotado nessa loja e em muitas lojas virtuais também. Elvis é assim.

No começo dos anos 70, o rock vivia uma ressaca brava. Os Beatles estavam acabando, Bob Dylan estava isolado do mundo, trancado no porão de sua fazenda e regravando canções tradicionais americanas, enquanto Elvis tentava recuperar seu prestígio depois de anos fazendo filmes toscos em Hollywood. Um programa de TV resgatou o Rei em 1969 e rendeu uma concorrida turnê em Las Vegas em 1970. É essa turnê de 6 shows no Hotel Internacional que está documentada em “Elvis é Assim”.

O DVD recém-lançado traz esta versão original de 1970 e a versão reeditada, restaurada e remasterizada de 2001. Ambas se complementam: a primeira traz mais depoimentos de fãs, a segunda procura separar o homem do mito mostrando seus amigos e explicando melhor quem é quem ao seu redor. A reedição também alterou as músicas do show: a primeira tem “Sweet Caroline” e “Bridge Over Troubled Water”, a segunda tem “The Wonder of You” e “In the Ghetto”. Ou seja, não dá pra escolher uma versão preferida.

“Elvis é Assim” começa com os bastidores dos shows do Rei em Vegas. Nos ensaios, vemos um Elvis descontraído fazendo graça para as câmeras. Depois de anos interpretando a si mesmo em filmes juvenis que nem sempre deram certo, ele parece ansioso por voltar ao ofício que o consagrou. Seu nervosismo minutos antes de subir ao palco, preocupado com uma das letras que ainda não decorou, é um dos melhores momentos do filme.

O documentário registra um momento de transição na carreira de Elvis. Aos 35 anos, já não é mais aquele garoto revolucionário, mas ainda não é o artista melancólico e debilitado de fim de carreira. Além de todos os seus méritos, “Elvis é Assim” é imperdível por esse timing preciso: o elo perdido entre o Elvis magro e o Elvis gordo. No auge do vigor físico, da experiência e da voz, o melhor showman da história sobe ao palco para cantar uma bela seleção das melhores músicas pops de todos os tempos. Sem exagero. Não existe setlist melhor do que o dele. Mistura seus clássicos eternos a covers muito bem escolhidas (Simon & Garfunkel, Bee Gees, B.J. Thomas, Righteous Brothers) e torna suas as músicas dos outros com interpretações memoráveis. Sou suspeito pra falar, mas acredito que nenhuma performance se compare a “You’ve lost that loving feeling”, aquela que o Tom Cruise imitou em “Top Gun”. Até o final com “Suspicious Minds” e “Can’t help falling in love”, o DVD segue perfeito intercalando os melhores momentos da turnê – dá pra perceber a mudança de um show pra outro em detalhes como os botões da roupa do Rei.

Vendo sua apresentação, dá pra entender porque Elvis virou o garoto-propaganda maior de Las Vegas. Ele incorpora o espírito da cidade. Já naquela época, ele entendeu que estava entrando numa fase muito diferente (alguns diriam cafona) da que vivenciara nos anos 50 e 60, e resolveu abraçar esse novo estilo com seu macacão branco e suas performances de kung fu. Em “Love me tender”, ele deixa a banda tocando e faz questão de beijar todas as moçoilas na frente do palco. Esqueça os selinhos de Bono na Katilce, Elvis beija de verdade. Todas. Da criancinha às senhorinhas. Não é a toa que, numa das entrevistas paralelas, uma velhinha sem vergonha diz que Elvis ainda a deixa excitada. Igual o Lester Bangs.

O DVD tem lá seus defeitos, todos culpa da distribuidora. Meu disco 1 mostra os menus em japonês (não sei se é um problema isolado, mas não consegui configurar de outra forma). Falta uma escolha por música, existe apenas uma seleção de cenas. Os extras trazem alguns textos bem vagabundos, trailer, cenas excluídas e um pequeno vídeo de menos de 10 minutos com membros da banda nos dias de hoje. Como falha dos realizadores, faltou encerrar tudo com o clássico “Elvis has left the building”, mas tudo bem.

Mesmo com esses probleminhas, “Elvis é Assim” é o DVD que eu levaria para uma ilha deserta, se tivesse que escolher apenas um. É pra ver, rever, decorar, imitar, deixar tocando quando receber visita, em festa de casamento, bares ou no churrascão da família. Esqueça as imagens tristes dos últimos dias de vida do Rei. Elvis reinando em Vegas é o ícone definitivo da cultura pop do século passado.

11 comentários sobre “Elvis é Assim

  1. Sensacional o post!Eu \”só\” tenho 2 shows do Rei até agora: o super comeback de 1968 (6 estrelas) e o show do Hawai de 1973, que foi recomendado em algum comment do blog do André Wylco. Estou providenciando esse show de 1970 agora e vai ser complicado conseguir dormir antes de vê-lo.No mais, apenas um leve retoque: Elvis praticava Karatê ao invés de Kung-Fu. E era dedicado. Era faixa vermelha mas recebeu uma faixa preta \”pelo conjunto da obra\” ainda em vida. Ou seja, o Rei entortava até mestres de artes marciais.O DVD do comeback de 1968 eu comprei no Carrefour por 5 reais há uns 5 anos. Ironias do destino. Qualquer acústico mtv nacional deve custar uns 30 pilas. Se bem que 30 reais agora é preco de CD.O Elvis é tao foda que eu já cheguei a pegar carona em seu sucesso. Nao foram raras as vezes em que conquistei uma menina cantando \”Love Me Tender\” ao pé d\’ouvido. Dia desses eu disse pra uma menina do meu trabalho que sou a reencarnacao dele. Temos um encontro a luz de velas marcado pro sábado próximo. Elvis, thank you for all the pussy.Você tava falando de ídolos ontem. Se você parar pra pensar, Elvis é o ídolo de 99% de nossos ídolos, ou seja, ele é uma espécie de Zeus musical, o Deus dos deuses.Agora imagina só o Elvis numa praia, tocando violão com uma regata preta, cabelos ao vento, cantando Always. Seria a mais séria ameaça ao heterosexualismo em toda história.

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  2. a melhor parte do filme, pra mim, é quando após ficar noiado o tempo todo em esquecer a letra da música, na hora de cantá-la ele pega a letra e tenta achar uma luz pra conseguir ler. Até os Reis são imperfeitos.(e o menu tá em japones também. Ou chines, sei lá)

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