Eu tenho meus problemas com o J.J. Abrams, mais conhecido como o criador de “Lost” e novo mestre jedi do mundo nerd. Acho que ele tem boas idéias pra começar mas não consegue terminar bem seus trabalhos. Ou seja, é um cara bom de argumento. Depois da decepção de “Serpentes a Bordo”, também fico com o pé atrás em filmes repletos de ações de marketing viral que usam e abusam da internet para espalhar teasers, boatos, criar comunidades virtuais e um grande hype antecipado. Em “Cloverfield” (ignoremos o constrangedor subtítulo nacional), o produtor J.J. Abrams usou todas essas ferramentas para promover o filme do amigo Matt Reeves, mas para meu espanto a coisa toda deu certo.
Se você ainda não sabe, “Cloverfield” é uma mistura descarada de “Godzilla” com “A Bruxa de Blair”. Um belo dia Abrams achou que os EUA precisavam de seu próprio Godzilla e criou mais uma história de monstro que ataca metrópole – no caso, Nova York. O grande trunfo para diferenciar o filme do fraco “Godzilla” de Roland Emmerich foi a mistura com “A Bruxa de Blair”, grande marco da picaretagem cinematográfica que já está com quase 10 anos de vida. Em seu filme de monstro, Abrams coloca a câmera nas mãos dos protagonistas e você finge estar assistindo a um documentário. A diferença com “Blair” é que ninguém vai achar que aquilo tudo aconteceu de verdade.
Como em “Blair”, o que vemos em “Cloverfield” é o conteúdo encontrado dentro de uma câmera deixada no Central Park depois de Nova York ser completamente devastada. Ali estão as últimas horas de vida de uma turma de amigos que começou a noite na festa de despedida de Rob Hawkings (Michael Stahl-David), que está de partida para o Japão (não por acaso, o lar de Godzilla). As primeiras imagens da câmera lembram vídeos amadores do YouTube. Mas a festa é interrompida pelo ataque do monstro e, daí pra frente, a referência das imagens passa a ser a maior inspiração do século 21: os ataques de 11 de setembro.
Pânico, tensão, correria, explosões, destruição, sangue, suor e lágrimas se acumulam em 1h25 de filme. Como estamos ao lado das vítimas, não somos obrigados a acompanhar estratégias militares ou depoimentos de cientistas chatos. O próprio monstro é visto de relance, passando por entre os prédios de Manhattan em ruínas e, entre a escuridão e a poeira, pouco se vê do bicho – como um bom vídeo amador. E como em um bom filme de monstro, os protagonistas têm atitudes idiotas como arriscar a vida para salvar uma amiga que eles nem sabem se está viva (o equivalente ao Josh jogando fora o mapa, em “A Bruxa de Blair”).
“Cloverfield” não é nada original. O depoimento final para a câmera é tão “Bruxa de Blair” que chega a emocionar. Os seres que pulam do monstro e atacam a população lembram demais os embriões de Aliens. E a cabeça da Estátua da Liberdade não tinha tanto destaque desde “O Planeta dos Macacos”. “Cloverfield” é uma picaretagem só. Mas fazia tempo que um filme picareta não divertia tanto.
[off topic]Isso não é importante. Já isso: http://www.estadao.com.br/tecnologia/not_tec123906,0.htmIsso sim é nem importante!
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esse é o maior evento do ano depois do show do bob dylan.
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