Juno

À primeira vista, “Juno” é um filme feito sob medida para os jovens indies que acham que o mundo começou nos anos 90. Pra começar, traz uma trilha sonora recheada de folk descoladinho do tipo Belle and Sebastian. Seu roteiro foi escrito pela ex-stripper e blogueira Diablo Cody, uma espécie de versão americana de Clarah Averbuck, a nossa maior expoente em um gênero de literatura pop alternativa blogueira pós-Nick Hornby.

No seu começo, o filme parece ser tudo isso aí. A história da adolescente de 16 anos que acidentalmente engravida do amigo e resolve doar a criança para a adoção pode desagradar. Juno (a revelação do ano Ellen Page) é uma teen atípica que não se comporta como as patricinhas default do universo escolar. Ela é culta, curte Dario Argento e sua banda preferida é The Stooges. Juno fala pelos cotovelos, tem uma metralhadora de tiradas sarcásticas e praticamente todas as suas falas contém referências pops. São tantas que nem a legenda brasileira consegue acompanhar.

A verborragia e o excesso de diálogos um tanto quanto forçados para soarem cool podem causar desconforto. Afinal, se a menina é tão esperta, por que não usou uma maldita camisinha em sua primeira transa?

Mas nada disso importa porque Juno tem uma cabeça boa, um bom humor constante até nos momentos de desconforto causado pela gravidez e, o principal, uma família adorável. Seu pai é ótimo (J.K. Simmons, o chefe do Peter Parker) e até sua madrasta (Allison Janney) é legal – apesar do roteiro mais uma vez forçar a mão pra transformar a madrasta em gente boa, quando a personagem pega pesado e humilha uma enfermeira.

E tudo fica ainda melhor quando entra em cena o casal que vai adotar a criança, formado por Mark (Jason Bateman) e Vanessa (Jennifer Garner, mais parecida com Julia Roberts do que nunca). O oprimido Mark, que gosta de rock e quadrinhos mas mantém tudo isso encaixotado na casa decorada a dedo pela mulher, se encanta e se identifica com Juno e você teme pelo pior, ou seja, que eles se apaixonem – um clichê bastante ordinário.

Pois é quando começa a fugir dos clichês que “Juno”, o filme, decola, e Diablo Cody se afasta de suas colegas da literatura descolada alternativa. Porque em momentos de crise a nossa heroína Juno não vai se afogar em drogas, nem sair dando pra meio mundo, nem viajar pra Londres pra repensar a vida. É quando Juno se mostra mais humana do que uma mera vomitadora de referências que Jason Reitman (“Obrigado por Fumar”) mostra que manja muito deste universo jovem que tanto sente a falta de um John Hughes.

“Juno” não é um filme indie, é um filme de John Hughes, honesto, sensível e que fala a língua dos jovens, só que nos anos 00. Virou clichê de crítico dizer que a sensacional Ellen Page é a melhor amiga/namoradinha que todo moleque gostaria de ter, exatamente como era a garota de rosa-shocking Molly Ringwald há mais de 20 anos.

Na constante fuga dos clichês, o roteiro coloca a “weird” Juno como melhor amiga da líder de torcida, enquanto o pai de seu filho é um adorável bobalhão nerd (Michael Cera, de “Superbad”), que também toca violão e é um atleta campeão na escola. Quer dizer, ninguém é unidimensional em “Juno”, e ninguém é vilão, porque se você quiser encontrar maldade no cinema, todos os outros indicados ao Oscar estão aí pra você se esbaldar. O universo de Reitman só tem lugar para personagens bacanas mostrando que uma gravidez na adolescência não precisa acabar com a vida de ninguém.

O difícil é encarar “Juno” como um autêntico John Hughes modernizado quando toda a indústria tratou de colocá-lo como o “independente do ano” no Oscar. Nos últimos anos parece que foi criada essa cota entre os 5 indicados a melhor filme, o que é muito relativo já que os dois favoritos ao prêmio (“Onde os fracos não têm vez” e “Sangue negro”) foram lançados pela Paramount Vantage, o braço “independente” da Paramount.

Os indies do pop e os indies do Oscar que me desculpem, mas o lugar de “Juno” é mesmo na Sessão da Tarde. E isso está longe de ser uma ofensa.

7 comentários sobre “Juno

  1. Falando em Indie, lembrei de folk e bla bla bla.dai lembrei q sabado lembrei de ti!a Mallu \”Cantora do momento\” Magalhães, tava no altas horasSe v não viu perdeu. Teve de tudo, até ela que no final quis dar um desenho q tinha feito de duas pessoas da platéia.

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  2. Com aquela meia xadrez?huauhauhahuahuahuEu não entendo pq a globo (ou a TNT) não atrasa a transmissão em uns 30 segundos e faz a tradução por legenda.Ontem tive que deixar no sap, mas ai perdia os comentarios do Wilker. Só peguei um q ele dizia q o Ultimato Bourne era apenas um filme barulhento (pq levou os prêmios de som)

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