Drive

A expectativa errada é a pior inimiga de um filme. A pretensão de seus criadores deve vir em seguida. Drive começa gerando a expectativa de ser um novo Taxi Driver, com um novo Steve McQueen no papel principal e dirigido por um novo Michael Mann. Seu protagonista é um misterioso piloto sem nome interpretado por Ryan Gosling, o novo queridinho de Hollywood. O resultado, como bem observou um amigo meu, é uma mistura de GTA com filme de arte.

O tal piloto vive em Los Angeles, é dublê de cinema durante o dia e, à noite, oferece seus serviços como motorista terceirizado para crimes que precisam de uma fuga eficiente. Ele deixa bem claro aos seus contratantes que só está ali para dirigir, e dá a eles 5 minutos para realizarem o serviço e darem o fora da cena do crime. O piloto é calado, metódico, usa sempre a mesma roupa – uma indefectível jaqueta prateada – e é o melhor no que faz.

A vida do piloto muda radicalmente quando ele se apaixona pela vizinha Irene (Carey Mulligan), que tem um marido prestes a sair da prisão (Oscar Isaac). Ao contrário do que poderíamos imaginar, o piloto torna-se amigo do ex-detento e vai fazer o possível para ajudar a família da amada. Quando a coisa toda toma um rumo inesperado, Drive deixa de lado a aura de mistério ao redor do protagonista e sua relação de dependência com o volante do carro para se tornar um filme de vingança sangrenta. E é aí que você pode se sentir um pouco traído.

Com exceção do prólogo, que mostra o piloto em ação em sua atividade noturna, e de outras boas porém breves sequências de perseguição, os carros deixam de ser importantes. Esqueça os filmes do Steve McQueen, onde um Mustang era praticamente um personagem da trama. Esqueça qualquer reflexão sobre a condição humana ou a complexidade de um Travis Bickle. Em Drive, o personagem parece ser misterioso apenas pra combinar com a aura cool proporcionada pela trilha sonora e pela fotografia. O roteiro baseado no livro de James Sallis é tão perdido que, pelo menos duas vezes, personagens começam do nada a contar como se conheceram, numa tentativa desesperada de criar um background e explicar por que todos eles, afinal, se relacionam.

As interpretações são frias como os movimentos de câmera do diretor Nicolas Winding Refn. O que começa como exercício de estilo termina como um filme que a todo momento implora para ser cultuado. Pode até vir a ser, mas pelos motivos errados: porque o Ryan Gosling é legal, porque a Carey Mulligan, apesar de permanecer com a mesma expressão de moça sofrida o filme inteiro, ainda assim é apaixonante, ou porque o elenco coadjuvante inclui Bryan Cranston (Breaking Bad), Christina Hendricks (Mad Men) e dois vilões de peso: Albert Brooks e Ron Perlman – esses sim, atuando com sangue nos olhos.

Não por acaso, em sua lista de melhores do ano, Quentin Tarantino colocou o filme na categoria “boa tentativa”. Ele, que entende de filmes de carro e de vinganças sangrentas, reconhece o esforço, mas também deve ter se sentido meio traído.

Deixe um comentário