A busca do homem por suas origens é um dos pilares da ficção científica, consagrada no cinema com a obra-prima “2001 – Uma Odisseia no Espaço” de Stanley Kubrick. Poucos imaginavam, porém, que por trás da saga Alien – frequentemente tratada como uma simples série de filmes de monstros no espaço – existisse alguma conotação metafísica ou teológica. Prometheus está aí para provar que sim. O cineasta Ridley Scott finalmente volta para o gênero que ele ajudou a revolucionar e para a série que ele ajudou a construir para mostrar como tudo começou.
Com tudo isso envolvido, Prometheus é um filme pretensioso. Mexer com um clássico do cinema é quase tão perigoso quanto discutir a origem da raça humana. Na questão da mitologia cinematográfica, não há o que reclamar. Ridley Scott voltou para resgatar a dignidade dos aliens no cinema e mostrar que eles não são aqueles monstros que combateram predadores na pré-história. São armas biológicas criadas por terceiros com fins militares, ou seja, para matar. Mas esqueça os aliens como os conhecemos, a trama de Prometheus está posicionada bem antes da existência da Tenente Ripley. Um magnata, como sempre movido por intenções egoístas, patrocina a viagem da nave Prometheus atrás de indícios de uma civilização mais avançada que pode ou não ter criado a vida na Terra. Católicos apostólicos romanos podem torcer o nariz.
O eterno debate entre religião e ciência está lá. Eram os deuses astronautas? Quem criou quem e por quê? Há um diálogo bem interessante entre o cientista Dr. Holloway (Logan Marshall-Green) e o andróide David (o onipresente Michael Fassbender) sobre isso. Aliens criaram homens que criaram robôs. E os robôs são os únicos que conseguem compreender os aliens e fazer a conexão com eles, porque os homens têm sentimentos, são curiosos, gananciosos e estúpidos, sempre cutucando um bicho de outro planeta pra ver o que acontece.
Dan O’Bannon, roteirista do primeiro filme, disse que toda a franquia foi baseada em estupro. Não é a toa que os aliens de H.R. Giger são fálicos, que tudo tem formato de pênis ou vagina, que a concepção é sempre indesejada e que o nascimento dos bichos é tão visceral. Não é a toa que as mulheres são os personagens mais fortes, as que sobrevivem por mais tempo e sofrem o diabo. Em Prometheus, temos uma cena específica de violência contra o corpo da mulher que tenta igualar o horror do nascimento do primeiro alien – parido pelo papai John Hurt na mesa de jantar, você se lembra. Uma cena para deixar até Lars Von Trier incomodado, e que sem querer bota lenha na discussão sobre os benefícios do parto natural, tema da moda no Fantástico.
A Sigourney Weaver da vez é Noomi Rapace, a ótima Lisbeth Salander da série Millenium original (a sueca), fazendo carreira em Hollywood (ela também esteve em Sherlock Holmes 2) e se dando melhor que a Lisbeth norte-americana, a Rooney Mara. Noomi é a cientista Elizabeth Shaw, que vive no conflito entre acreditar em Deus ou nas suas descobertas científicas. Uma espécie de Jodie Foster em Contato, com menos psicologia envolvida e muito mais sangue, suor e lágrimas. A moça carrega o filme nas costas e deixa evidente a ausência de bons coadjuvantes, como os outros 6 passageiros do primeiro filme. Se Fassbender é um robô, Charlize Theron está quase lá como a fria chefona da nave, uma vilã que nunca diz a que veio e tem seu melhor momento justamente quando se demonstra humana, em uma cena com o bom Idris Elba (The Wire). Agora, maior que o mistério da origem da humanidade é o mistério do velho magnata Weyland ser interpretado pelo Guy Pearce carregado de maquiagem. Pra quê?
Prometheus é mais ficção que horror, aborda a ciência com seriedade, levanta questões importantes. Toda essa imponência prejudica o filme quando ele tenta retomar o clima de suspense claustrofóbico que o próprio Ridley Scott e James Cameron criaram com tanta perfeição nos dois primeiros Aliens. Toda a sequência que envolve um princípio de contaminação parece confusa, alternando o completo terror em um canto da nave com diálogos reflexivos em outro canto, como se eles não estivessem todos em um mesmo ambiente e no mesmo espaço de tempo. As pontas não se encaixam.
Ainda assim, este recomeço tem seu valor, suas boas referências à mitologia alien, um visual grandioso justificando todo o orçamento, uma nova heroína para a nova geração e até um óleo negro que pode fazer fãs de Arquivo X se sentirem homenageados – um dos roteirtistas de Prometheus é o Damon Lindelof de Lost, um nerd da nova geração, então pode até ter a ver. No seu máximo, você pode passar alguns dias pensando sobre o filme, refletindo se no final das contas todas as religiões não passam de ficção científica com outra embalagem. No seu mínimo, você pode usar a piada do pavê do cinema no ano: “Prometheus e não cumpriu”.