2 Coelhos

O cinema nacional não precisa de um Oscar. O cinema nacional não precisa de sucessos de bilheteria. O cinema nacional precisa mesmo é de mais filmes de ação feitos em São Paulo. No dia em que um gringo chegar aqui e identificar uma rua, “olha, aqui no Minhocão foi onde o José atirou no João em Perseguição Assassina 4”, então saberemos que, enfim, chegamos lá.

Estabelecido este conceito, “2 Coelhos” faz sua parte trazendo todo o universo do diretor Guy Ritchie para a terra da garoa, com vários personagens malandros orbitando ao redor de uma mala cheia de dinheiro. É o nosso “Amor à queima-roupa” sem o roteiro do Tarantino e a direção do Tony Scott, e com a Alessandra Negrini no papel de Patricia Arquette.

Porém, essa sua maior virtude é também o seu pior defeito. A equipe toda parece deslumbrada demais com a oportunidade que tem em mãos, abusando dos elementos mais irritantes do gênero: a apresentação dos personagens em cenas pausadas com ilustrações moderninhas e fontes exóticas, os tiroteios em câmera lenta, as inúmeras reviravoltas do roteiro que têm tanta necessidade de surpreender que acabam se perdendo – e neste ponto a cena final é emblemática, capaz de te encantar por alguns segundos até você perceber que, não, aquilo não faz o menor sentido.

Ou seja, quem nunca comeu melado, quando come se lambuza. Mas a gente aplaude a iniciativa mesmo assim. Se não tem o poder de “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus”, nossos filmes de ação mais populares e mais cabeçudos, “2 Coelhos” é uma molecagem divertida e muito bem-vinda. Seria lindo se um dia o cinema brasileiro tivesse know-how em filmes de ação pop e conseguisse criar uma identidade própria no gênero, sem recorrer tanto aos já manjados templates de fora.

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